domingo, 16 de dezembro de 2012

∞/∞/2012



     Encontrei-o fazendo acrobacias por toda a cidade, saltando entre os carros e pegando atalhos que seu próprio corpo elástico tornava-lhe possíveis, entre as montanhas e seus picos de concreto. Ele era rápido em seus movimentos; no entanto, depois de deixar todos surpresos ou frustrados por não conseguirem alcançá-lo, por um momento ­– antes de voltar a fazer suas acrobacias – ele parava. E no espelho dos seus olhos, eu vi que agora ele esperava os aplausos. “Porque a vida”, ele dizia, “é um grande circo”.
     No entanto, logo percebi que ele não podia dizer o segredo de suas acrobacias. Quando interrogado, ele se desviava, flexionava-se, sufixava-se ou prefixava-se como corpo-verbo que não podia ser revelado. E eu buscava a revelação. Assim, quando minha rosa branca já agonizava, sem redoma e em suas derradeiras pétalas, gritei para que ele segurasse em minhas mãos para levá-lo com ele. Mas num último salto, que eu sabia que inevitavelmente viria quando percebi que me colocava como trampolim, ele simplesmente se foi, sem sufixo, sem prefixo: radical.
     Não, eu não era um acrobata. Cheguei em casa e sentei-me na cama. Acendi um, dois, três, quatro, todo um maço de cigarros querendo então sufocá-la para que ela morresse. Já que a morte é inevitável, eu pensei com ódio, eu posso matá-la agora. E então eu mergulhei minhas mãos em minhas entranhas, a princípio conseguindo fisgar apenas pedaços, pétalas aqui e ali, até que por fim, imerso até os ombros, senti entre os dedos o caule e com toda a minha força a arranquei de uma só vez, revolvendo toda a terra. E sangrando e vazio, deitei-me para dormir.
     No dia seguinte, abri os olhos devagar, sem me mover. Esperei, ouvindo a minha própria respiração hesitante. Era inacreditável que ela não mais estivesse ali. Então, com muito cuidado resolvi friccionar devagar as extremidades do meu corpo... As pétalas farfalharam num suspiro. E quando respirei fundo, a senti dentro do meu peito, bem fundo, no fundo, como se respirasse também. Levantei-me com violência, mas tive que me segurar na parede, pois meu caule se estirou como se a qualquer momento fosse arrebentar.
     Por dias, semanas, meses, eu tirava alguns momentos do dia para enfiar minha mão no fundo e arrancar suas pétalas até chegar ao seu caule. E a cada pétala, meu corpo vibrava até por fim ejacular gêiser de sangue, com o caule entre os dentes.
     Mas na manhã seguinte ela estava em flor mais uma vez.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Aí vem chuva de novo


Escrever é viver, simplesmente,
sob a condição de se acreditar não ter vivido.
(César Aira)

Quanto a escrever, mais vale um cachorro vivo.
(Clarice Lispector)


     Sexta-feira. O céu estava pesado de nuvens, e toda a multidão andava apressada de volta para a casa para que pudesse desaguar todo o peso da semana. Um rosto sorrindo ao telefone de repente revela toda aquela alegria patética das pessoas ao se verem livres por dois míseros dias. E ali, entre todas elas, ele andava rápido porque a chuva logo iria cair, e procurava desesperado um bar para que ele, também ele, pudesse desaguar. Passou sob um toldo, olhou pela vidraça como se visse o seu próprio reflexo – era bonito – e não me viu.  
     Estou aqui sentado na mesa com um copo – o quinto, o sexto? –, desaguando também. Solitário como todas as pessoas na cidade. Todas esperando a brecha do final de semana para viverem de alguma forma, sentirem, cada uma a seu modo, o que é viver livremente. Importa, então, o que elas vão fazer, contanto que sintam que estão vivendo? Eu, também, por trás do vidro, sinto que estou vivendo. Como alguém fechado num quarto escuro e sem janelas que de repente sente o vento entrar por baixo da porta e encosta a boca pra sugar – sugar, sugar, sugar – o ar que continha toda a vida e que era o suficiente para que muitas outras irrompessem dentro dele – em mim – e eu pudesse, então, viver. (Já me disseram que sou melodramático. Mas às vezes é preciso saber apreciar a verdade do clichê. Não?)
     Mas estou aqui também em busca de material. E agora percebo como sou invasivo na vida das pessoas, um parasita que precisa dos outros para poder existir. Pois o fato é que anda cada vez mais frequente, para onde quer que eu vá, de repente pensar num novo conto, e muitas vezes, quando alguém conta alguma coisa pra mim ou de repente eu vejo – pois tinha dia ou outro uma epifania, coitado – algo meio amorfo na ameaça de se solidificar, como uma substância ainda sem forma, era ele quem corria até ela com sua baqueta para que de repente algo como a Sonata Patética de um Beethoven irrompesse – tomasse forma – bastasse apenas tocá-la. Pois era um escritor – coitado! – um es-cri-tor. Me respeita! Respeita meu espaço! Este caderninho. 

     De repente, a porta do bar se abriu. Era ele. Vi-o se debruçar sobre o balcão, vi seu pau sob a calça roçar no banquinho junto ao balcão, a bunda levemente inclinada para trás, a mão no queixo enquanto olhava o cardápio para ver o que pediria, o indicador na boca. O que pediria? Uma cerveja, tinha cara de quem pediria uma cerveja... E pediu. Abriu com um só movimento – tinha mãos fortes – e jogou a tampinha no lixinho ao lado. Olha pra mim. Olha pra mim. Eu estou aqui escrevendo e mexo displicente a caneta como se pensasse, olhando para a rua, mas com o canto dos meus olhos acompanho os seus movimentos e torço, torço para que me veja: um escritor sentado sozinho – escrevendo, é claro – num boteco numa sexta-feira. 
      Será que me pareço com um escritor, pensei sem querer. Vestia o terno com que ia trabalhar. Não, não pareço... Mas hoje, afinal, o que é se parecer com um escritor? O que é se parecer com qualquer coisa? E quanto a escrever, anda cada vez mais difícil encontrar uma folha em branco – ou seria uma caneta que funciona?
     Posso me sentar com você?, ele disse. O quê?, eu perguntei. Ele me via, agora. E se sentou. É que tá chovendo lá fora. O que tá escrevendo aí? Nada, respondi. Nada não pode ser, deixa eu ver. Não, não. Só um pouco. 
     Ele pegou o caderno, mas não viu o que eu escrevia. Fechou-o, analisou a capa, e abriu a primeira página. Eu ia gritar Não!, mas acabei disfarçando a minha ansiedade olhando pra fora. A rua, os ônibus, as pessoas patéticas correndo na chuva, pensei, mas quando vi meu reflexo na vidraça me assustei porque estava sorrindo também. 
     Here comes the rain again, o rádio tocou.
     Mas ele de repente começou a rir alto na mesa. O que foi?, eu perguntei. Você é romântico?, sua boca se contraiu numa expressão que não combinava com ele. Por quê?, eu perguntei. Ah, eu gosto. Hum. O que você leu aí? Isso, ele falou em voz alta e começou:
     
     Se eu decidir continuar seguindo estas linhas, aqui, vou adivinhar nosso destino? Borrão aguado sobre as letras, palavras espumantes sobre o papel – mas tão rápidas elas diluem depois da queda! E a caneta, exausta, vai-se embora pelos vãos dos meus dedos. Porque por mais que eu esprema, não adianta: desta tinta eu não quero o seu amor.

     Foi pra alguém em especial?, porque era óbvio que ele ia perguntar isso. Não. Quer dizer, foi. Não sei. Ah. Eu gostei, achei bonito, mas. Mas o quê? Falta alguma coisa. Você já pensou em publicar? Como você sabe que eu não publiquei? Eu sei, ele disse. Você quer ser lido, né. O mais difícil pra um escritor é assumir que quer ser lido, eu disse solene, e tomei um gole do copo. Olhei pela vidraça.
     Here comes the rain again, cantarolei sem querer. Ficou na cabeça. Hein? É um clássico dos 80, expliquei. Saiu alguma coisa hoje aí?, e indicou com a cabeça o caderninho. Um pouco, respondi. Já publicou pra revista, jornal? E o que você faz da vida? Você tá de terno e gravata agora, trabalha onde? Ah, não, não fala, vai estragar – quero manter um mistério. Para de projetar, você nem me conhece, disse, sentindo um mal-estar. Bebi demais, falei. Olha, a chuva pode piorar e a gente vai ficar preso aqui. Mas a gente vai se encharcar. Já tô encharcado, e chamei o garçom. Não queria que acabasse. Mas não precisa acabar agora, me ouço de repente dizendo antes de ouvir, ao olhar para a vidraça que com a escuridão lá de fora agora refletia todo o bar: Já acabou.
     À porta, de repente esbarrei em alguém que entrava. 
     “Desculpa!”
     “Ai... Tudo bem... Ah, aí no chão, moço, é seu, né? Acho que caiu.”
     Era ele. Peguei rápido o caderninho aos seus pés.
     “Nossa, obrigado. Não tinha visto.”
     E ele entrou. Mas eu já estava encharcado. E me juntei à multidão, caminhando apressado para voltar para casa. Ao passar pela lata de lixo mais próxima, deslizei discretamente o caderninho das mãos. Olhei para o céu. Aí vem chuva de novo.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Óculos novos


     Enquanto caminhava teve a sensação de que nunca enxergara com tanta clareza. Não eram apenas os óculos novos (antes, com o antigo, tinha tido uma fase de cegueira, e não só porque estava velho e quebrado). Não, ele olhava agora para os rostos das pessoas na Avenida Paulista como se não houvesse problema em olhar. Em estar ali, apenas. Estar de fato ali.
     E de repente viu um rosto conhecido  era fulano, ex do ex do seu amigo, não era?  e continuou pensando que talvez contaria a ele hoje que o viu. Mas alguns passos depois, viu-o mais uma vez e, antes que sucumbisse pensando que o poder desses acasos poderia enlouquecer alguém  tô ficando louco, louco, louco – mas agora era ele, tinha certeza –, percebeu que na verdade a clareza do seu olhar naquele momento era tanta que todos os rostos  o rapaz, a moça, o velho  lhe eram familiares. Não, não era, também, porque passava por ali há alguns anos já, no mesmo horário, e talvez já tivesse visto todos, todos, todos os rostos antes. Não: era porque o outro sempre existiu, e só agora ele parecia vê-lo pela primeira vez. 
     Tirou os óculos e esfregou as lentes no pano de sua camisa para que pudesse ver melhor. 

sábado, 17 de novembro de 2012

Things We Didn't See Coming


Para Nathália.


     “Porque forma”, ela pensou enquanto sugava do beck na boca, tentando se lembrar do que queria dizer no bar.
     “O quê?”, o estranho – tinha esquecido o nome dele – tinha perguntando então, mas agora suas mãos tiravam devagar o seu sutiã diante do espelho do seu quarto. E disse, alisando com o dedo todo o seu corpo com suas estrias e elevações e inesperados declives: “Você é linda, sabia?”.
     Mas ela apagou o beck rápido, empurrou-o sobre a cama e sentou-se em cima dele – porque forma, ela pensou – fazendo força sobre o seu corpo enquanto o volume crescia sob a cueca até ela–

(Ah, sim:
“Não tenho camisinha”, ele disse, sorrindo.
“Tenho pílula do dia seguinte”, ela ofegou.)

–segurá-lo entre os dedos e encaixá-lo todo dentro de si. Ele envolvia os seios na palma das mãos – porque forma, ela pensou – enquanto ela subia-descia-batia-sobe-desce-bate-sobe-desce-bate-de-re-pen-te: ___________.
     Porque forma, ela pensou, se desenroscando dos braços dele e indo até o banheiro sem fazer barulho, para não acordá-lo. Sentou-se na privada e pegou o livro que andava lendo – Things We Didn’t See Coming – enquanto o xixi escorria. Ao levantar-se, um papel que estava entre as páginas caiu no chão. Pegou, leu-o e riu: a porra dele rodava descarga abaixo junto com o xixi. Porque forma, ela pensou, é conteúdo sócio-histórico decantado.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Café frio



Para Bruna.


     Quando tropeçou ela sem querer derrubou todo o café da sua xícara no moço sentado no banco do ônibus. E no livro que ele lia o líquido caiu como um borrão de tinta sobre as palavras. E então, tão próximos um do outro como estavam naquela hora, era inevitável que quando abrisse a boca gotas de café se derramassem a cada sílaba para entupir – ela achava – os ouvidos dele: 
     “Desculpa!”
     Mas ele diria, levantando-se e pedindo licença porque já era o seu ponto:
     “Palavras de café frio, são mais fáceis de limpar.”
      Se o encontrasse no dia seguinte, ela decidiu em casa, enquanto passava o pano sobre a página borrada do seu livro sobre a mesa do quarto, o convidaria para tomar um café. Café quente.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

     Lembra-se quando éramos crianças e jogávamos bola no quintal de casa e a bola caía no quintal do vizinho? Era o fim se ela caísse, pois sabíamos que ele não devolveria. E costumávamos ficar sentados perto do muro do quintal até a noite chegar, imaginando a bola ainda lá, muito distante sob o sol que se punha no final da tarde, entre a grama mal cortada e sob a sombra de uma árvore, abandonada. Nunca mais a veríamos. E ainda que pedíssemos a mamãe pra pedir a ele que nos devolvesse, ela não ia, não ia. Sabia que ele não devolveria. Mas o maior problema hoje, eu vejo, era que toda vez que a bola lá caía ela nos surpreendia no dia seguinte com uma nova... Nos acostumamos com isso. E agora, que crescemos, a cada bola que jogamos no quintal do vizinho, sem querer ou não, não importa, esperamos no dia seguinte uma nova – mas ela não vem, não vem.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Pra variar: três poeminhas

Conta-gotas

"Três gotas antes de dormir."
Só.
     .
     . três?
              :
              :
              :
              :
              :
              :


Procrastinação

Queixo
                  na mão,
têmpora
                  no indica-dor.

Todo o peso do mundo
oscilando
                    sobre
             as
                    pálpebras.

"Bora tomar uma breja?"

E chuto-o para o

                         

                                    céu.


Ideologia

Ele _____ o nariz.
     (torceu?)
     (revirou?)
     (revolveu...?)

He twitched his nose like a rabbit's.

"Que cheiro é esse?", e então me perguntou.

A maçã mordida

E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer,
e agradável aos olhos,
e a árvore desejável para dar entendimento;
tomou do seu fruto, e comeu,
e deu também a seu marido, e ele comeu com ela. 
– Gênesis 3,6.

  
     Ele tinha vindo de longe. Enquanto subia a colina, embora de vez em quando sentisse alguns espinhos na sola dos pés e pisasse sem querer num formigueiro – e por ter destruído o lar das metódicas formigas, vermelhas de raiva elas cobririam todo o seu corpo se ele não corresse o máximo que podia, agitando os seus pés para livrar-se de suas picadas rancorosas –, ele erguia os olhos e via a silhueta cada vez mais próxima do garoto recortada pelo sol nascente.
     Esse garoto andava de um lado para o outro, impaciente, no alto da colina, sob uma macieira. Quando o viu se aproximar, parou. Não sorriu, não acenou de volta. Ficou parado, vendo-o enquanto ele se aproximava com os olhos fechados, sorrindo, porque já podia sentir o cheiro das maçãs fresquinhas que comeriam juntos. 
     Mas o garoto imediatamente deu um passo à frente, impedindo-o de se aproximar. E ele então parou. Seu corpo tornou-se pequeno diante da sombra que de repente se ergueu ameaçadora dele. Tentou segurar em suas mãos, mas foi empurrado colina abaixo, e rolou silencioso...  
     Não tem problema, não tem problema, ele pensou lá de baixo. Uma gotinha acabou escapando do seu olho, descendo pela bochecha, mas ele esticou a língua e engoliu-a rápido antes que caísse. E, sorrindo, subiu tudo de novo.
     Mas, quando lá chegou, outra sombra se ergueu sobre ele. Era uma garota. Tinha estado ali o tempo todo, ela disse, entre os galhos da árvore, colhendo uma maçã que agora segurava entre as mãos. Só a gente pode comer, disse o garoto, você não. E a beijou, mantendo um olho aberto para ter certeza de que ele estava vendo.
     Ah, ele estava vendo, sim. Pois embora dessa vez não tivesse saído do lugar, via-os cada vez maiores enquanto rolava colina abaixo de novo, até cair de joelhos exausto. Então, de repente, lá de cima, eles arremessaram a maçã, que bateu dura contra o seu rosto. E ele ouviu seus passos leves se distanciando pelo outro lado da colina, ele rindo muito, ela ainda mastigando o último pedaço da maçã, que jazia a poucos passos dele toda mordida, sobre a grama verde. Apenas o caroço. 
     Engatinhou até ele, como um moribundo no deserto. Segurou-o entre os dentes, enquanto rolava até a árvore. Mordiscou as últimas lascas. A casquinha de cima e a de baixo. Sugou o caroço. Sugava com força. Ficou sugando. Sugando, enquanto o dia passava... 
     Os raios do sol romperiam entre as folhas e os galhos e queimariam os seus olhos, mas ele não se moveria. Sem piscar continuaria sugando o caroço até que ele secasse em sua boca. E com o tempo a árvore também secaria, pois nunca mais daria nenhum fruto, e também a grama cresceria a tal ponto que esconderia todo o seu corpo até que, quando a noite chegasse, alguém desprevenido – talvez buscando solidão – subisse a colina, já há muito tempo não pisada por pés humanos. E ao ouvir os ossos se estilhaçando sob seus pés, perceberia que tinha pisado em seu crânio. Mas então veria assustado que os dentes ainda estavam inteiros, cravados em algo que jamais saberia o que era – porque, na verdade, nunca foi.
     De repente, ele sentiu na palma da mão uma forma redonda. Abriu os olhos. Um garoto olhava-o de cima.  
     Joga fora isso, tem bastante lá, ele disse, apontando para muitas outras maçãs, grandes e muito vermelhas, penduradas bem diante de seus olhos.
     Levantou-se. Escalou a árvore até um galho, puxou uma maçã e desceu até o lado do garoto, que imediatamente deu um passo para trás. Já não sorria, nem acenava. Mas também ele não sorria, também ele nem acenava. E o sol estava tão alto que nenhum dos dois fazia sombra. Assim, segurando numa das mãos a maçã que tinha recebido, ele – o nosso garoto – ofereceu a que tinha colhido para o outro. E ficaram comendo juntos no alto da colina até o pôr do sol.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

abraço

o vento entrando sob a sua camisa larga dançando em torno dos contornos da sua pele, braços pêlos axilas cintura. gostaria de por um momento ser aquele vento. mas também ele, ao senti-lo, não estaria tendo a sensação de amplitude que o meu abraço estreitaria? ou seria possível que, num abraço meu, estivéssemos tão conectados como se fôssemos um, a ponto de não haver estreitamento nenhum mas uma amplificação ainda maior, como se tivéssemos construído um espaço vasto que somente nós dois habitaríamos? mas não consigo deixar de imaginar que esse mesmo espaço possa se mostrar amplo demais, amplo demais. e num só abraço, podemos nos sentir como dois estranhos na cidade acenando, além de prédios, becos e avenidas, um para o outro numa distância incomensurável e fatal.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Dois passarinhos


Ao som de Little Joy. 
E com agradecimentos a Bruna e Alan.


     Tinha caído uma tempestade tão forte que, entre as folhas de um galho de uma árvore qualquer na cidade, os passarinhos sacudiam as suas penas para se secarem dentro de seu ninho. Uma cachoeira de repente deslizou de alguma folha acima deles e se espatifou sobre suas cabeças, e tiveram que eriçar suas penas mais uma vez como que sincronizados. E o ninho que tinham construído com tanto cuidado para chocarem seus ovos agora tinha buracos por todos os lados. Felizmente, no entanto, os ovos estavam intactos. Protegeram-nos com seus corpos trêmulos durante toda a tempestade.
     De repente, um vento frio entrou pelos buracos do ninho quando uma janela, em cujo vidro o galho da árvore roçava, se abriu. Um jovem olhou para o céu ainda coberto de nuvens depois da tempestade. Voltou-se para trás de si, onde outro tinha uma bandeja sobre o colo, sentado numa cama de casal. Quase como um convalescente, ele lentamente levou a xícara aos lábios. E o primeiro, com um suspiro, sentou-se ao seu lado e pegou um pedaço de bolo da bandeja com as mãos, sem mordê-lo.
     Estavam cansados. Tinham dormido mal na noite passada, depois de ficarem horas deitados em silêncio, fitando o teto que se tornava cada vez mais nítido na escuridão. E as letras em vermelho e muito grandes flutuavam diante deles: 

FORA VIADOS – APARTAMENTO 101

     Nem desceram do elevador. Indignados, apertaram o botão para subir ao andar do síndico para que ele tomasse imediatamente alguma providência para descobrir quem foi. Mas com a mão na porta, sem abri-la totalmente, ele levantou os ombros e sorriu como se dissesse debochado: “Eu avisei”. Mas na verdade ele disse que não tinha nada que pudesse fazer. O elevador não tinha câmeras. Mas isso não se repetiria. Ele sentia muito. Boa noite.
     Quando entraram em casa, a sós, conversaram e tomaram a decisão de denunciar o ato. Mas conforme a noite avançava, cada um em sua cabeça, decidiram em silêncio esquecer aquilo. É que não queriam arrumar encrenca com os vizinhos, eram novos no prédio. Na verdade, pensaram, era exatamente aquilo que eles desejavam que fizessem. Não, não dariam esse gosto a eles. 
     Tinham se mudado há menos de um mês. Estavam juntos há cinco anos já, se conheciam muito bem, e ficaram empolgados com a ideia de juntos dividirem um lar. Não, é claro, que acreditassem no amor ideal, em almas gêmeas. De fato, assim que se apaixonaram logo perceberam que o amor como tinha sido apresentado para eles não daria certo. Ambos eram independentes demais, livres demais para dependerem um do outro – e, ainda assim, amavam-se e precisavam um do outro em suas vidas. 
     Bruno era um artista plástico. Forrava as paredes da casa com seus quadros, estes pintados especialmente para ela com o que tinha de mais seu, embora soubesse que jamais conseguiria dar tudo o que desejava, assim como recebia por seus quadros menos do que achava que merecia. Rodrigo, por sua vez, era um engenheiro: tinha a mente prática, cuidava para que toda a base do lar não fosse construída num terreno traiçoeiro, e muitas vezes era ele quem achava alguma saliência ou uma parte mais frágil no terreno e, acenando para Bruno, batia nela com o pé e dizia: “Aqui, viu?”. Talvez porque Rodrigo fosse um pouco mais velho, Bruno pensava, ou quem sabe menos emotivo, embora achasse que ele sempre acertava nas molduras que fazia para os seus quadros.
     E ali estavam os dois agora. Tinham decidido não sair de casa naquele dia. Rodrigo decidiu preparar o café da manhã para comerem juntos na cama – há tanto tempo não fazia isso! –, abrindo a janela para acordar Bruno, que costumava dormir demais. E o dia parecia mesmo ideal para ficar em casa, sentiram, o cheiro de umidade e folhas molhadas entrando com o vento pela janela do quarto, enquanto afogavam o biscoito no café com leite antes de levá-lo um até a boca do outro. Pois acordaram amorosos naquele dia, desejosos de exercer toda a liberdade que podiam dentro espaço que tinham construído para si mesmos.
     “A gente devia cozinhar hoje”, Rodrigo disse.
     “Hum... Acho uma boa”, respondeu Bruno, com a boca cheia.
     “A gente tem o que em casa?”
     “Nada, eu acho... Tem que sair pra comprar.”
     Os dois não se olharam até colocarem no rosto um sorriso que acabou saindo como um par de asas que se esforçava em vão para levantar voo.
     “Ah, tem um lugar que eu ouvi dizer que é ótimo. A gente podia pedir.”
     “É, acho que eu também tô com preguiça de cozinhar.”
     Continuaram comendo em silêncio, até que Rodrigo de repente se lembrou que tinham marcado de ir ao cinema com o pessoal hoje. Bruno sem querer soltou um suspiro, olhando pela janela, e apenas disse: “O tempo hoje tá feio”.
     “É, né? Melhor a gente ficar em casa. Vamos marcar pra outro dia.”
     Sentindo então uma inquietação, uma vontade de sacudir não sabia o quê, depois que tomou o último gole da sua xícara Rodrigo disse:
     “Você tá quieto.”
     “Tô pensando”, Bruno respondeu, observando na parede diante dele o quadro que tinha pintado há pouco tempo atrás.
     “Hum”, Rodrigo fez apenas, temendo o que poderia ser. Mas sem que perguntasse, Bruno respondeu:
     “Eu gostei bastante dessa sua moldura.”
     Rodrigo esperou para ver aonde ele ia chegar. Não agora, pensou. Mas o seu olhar fez Bruno pensar por que ele às vezes o olhava como se de repente ele estivesse prestes a: “Lembra aquela vez que eu disse que só pintar não adiantava? Parece que eu nunca consigo expressar tudo. Foi isso que eu tentei, nesse quadro. E daí também pensei em você enquanto eu fazia, não só como observador. Queria que você participasse, entendeu? Mas acho que eu não consegui”.
     Rodrigo observou a moldura que tinha feito. Lembrou-se que queria que ela se diluísse na pintura, não se impusesse. E de repente se surpreendeu com o tom de agressividade em sua voz quando sem querer respondeu: “Mas você por acaso me perguntou o que eu achei?”.
     “Não...”, Bruno respondeu surpreso. É verdade, ele não tinha perguntado. “Fiquei esperando você dizer.”
     Depois disso, inevitavelmente os dois ficaram em silêncio mais uma vez, observando o quadro na parede... Mas Rodrigo não sabia o que era aquilo que Bruno tinha pintado. De fato, quantas vezes, ao se deparar com alguma pintura sua, não conseguia entender o que ele quis dizer? E quando ele finalizava uma nova, Rodrigo se aproximava e o via sentado diante dela, até receber um olhar furtivo e trêmulo dele, cujo peso ainda podia sentir como se um ponto de interrogação de repente tivesse sido enganchado em seu pescoço. E mesmo se ele tivesse dito: “Gostei”, Bruno ouvia apenas um murmúrio qualquer abafado pela porta que ele tinha acabado de fechar atrás de si, sendo atacado de repente por cadeiras, mesas, sofás e tapetes imóveis sobre o piso frio do chão da sala. “Precisamos mudar a disposição dos móveis amanhã”, ele então suspirava. Pois nem mesmo ele sabia exatamente o que queria dizer com o que pintava.
     Sem que percebessem, a mão de um apalpava sobre o lençol da cama em busca da mão do outro, e quando se encontraram tocaram-se de leve na ponta dos dedos. Olharam-se surpresos.
     “Que filme é mesmo?”, Bruno perguntou.
     “Não lembro, mas”, Rodrigo vacilou.
     “Você quer ir?”
     “Você quer?”
     “Vamos?”
     “Vamos.” 
     E os dois beijaram-se gentilmente por um tempo, até Rodrigo se levantar para fechar as cortinas da janela, enquanto Bruno depositava a bandeja do café da manhã ao lado da cama. Uma rajada de vento fez a cortina inflar e, num último relance, dois pés se entrelaçaram antes que ela voltasse a repousar num suspiro de alívio. 
     No galho à janela, os passarinhos cantavam pelos raios de sol que penetravam entre as folhas, reconstruindo seu ninho para esperar os ovos finalmente chocarem, em uma árvore qualquer na cidade.  

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Dentes brancos


Com agradecimentos a César e Maurício.


     Isso daqui não é um conto. Quer dizer, é, mas não é pra ser. Porque ele é real. Mas é difícil nesse espaço em que o coloco agora mostrá-lo de modo que não sejam meus dedos sobre a tecla que lhe deem vida, mas que a vida irradie dele mesmo – sem meus holofotes em cima, nem através. Eu aqui não quero mais estar, é isso o que quero deixar claro antes de me calar.

*

      Num dia quente e abafado, daqueles dias secos na cidade em que o nariz escorre e a garganta resseca – sem que o líquido viscoso do nariz entre pela boca para lubrificar a garganta – ele endurece no meio do caminho –, a única maneira seria deixar o pau entrar goela abaixo e a porra, ainda quente, lubrificar. Porque na verdade não chovia há dias. E porque na verdade isso era tudo o que tipos como ele recebiam dia a dia nas ruas – pau na boca como se fosse o cu, empurrando a merda para baixo a tal ponto que, sufocados, já não pudessem mais falar. E a merda tinha que descer em silêncio – em algum canto escuro da cidade, em suas entranhas mais podres –, a não ser por convulsões do cu que vibrava ruidoso.
     Mas com ele era diferente. Todos os outros faziam como se aquilo lhes fosse merecido, como se a sociedade os tivesse excluído porque não cumpriram a expectativa, não fizeram o que tinha e podia ser feito. Mas não ele. De lugar nenhum, eles mudaram-se para um apartamento em dezenas, pouco a pouco chegando, e sem se saber de onde nem como ele de repente já estava ali. Todos se surpreenderam quando viram, ao lado de seus trapos imundos, um copinho de plástico e uma escova de dente muito limpos, como um altar se elevando puro em meio a tanta sujeira. E ele não levava pau na boca porque, quando a cabeça ameaçava uma investida babando como um cão raivoso, no meio de seu rosto sujo abria-se um sorriso de canto a canto mostrando dentes inesperadamente brancos.
     Não demorou muito tempo para a polícia bater no prédio para retirá-los todos de lá, dos três andares que ocupavam. Mas quando ele surgiu à porta, emporcalhado, a barba como uma teia de aranha em que tudo grudava e um umbigo sujo como um buraco negro na barriga saltada para fora do trapo rasgado, seus dentes brancos brilharam. Os policiais o olharam atordoados, ficaram de pau mole, enfiaram-no de volta às calças e foram embora impotentes com a sensação de terem sido agredidos.
     Ele logo arrumou um canto na calçada para ficar sentado todos os dias, com uma caixa de papelão ao seu lado para que lhe dessem esmolas. Uma senhora muito bem vestida e elegante passou, olhou-o e, sentindo pena, tirou de sua bolsinha uma moeda. Ele mostrou seus dentes brancos. Quando os viu, ela se sentiu muito escandalizada e de sua bolsa retirou mais uma moeda. E os dentes brancos brilharam mais uma vez. E ela então lhe deu mais uma. E os dentes brancos.
     As mãos da senhora tremiam, horrorizada com aqueles dentes brancos que a cada moeda que ela dava insistiam no rosto encardido. E todo mundo que passou ali, quando o viu, também fez o mesmo. Mas com um sorriso os dentes brancos concordavam apenas. As pessoas despejaram celulares, carteiras inteiras, bolsas com tudo dentro, apavoradas com os dentes que tinham resolvido nunca mais sair dali. Algumas em prantos, outras tremendo e aos berros, foram embora para a casa desesperadas.
     Apesar disso, ninguém do prédio sabia o que ele fazia com o que ganhava. Isso permaneceu um mistério. No dia seguinte, lá estava ele mais uma vez na calçada, a mesma caixa de papelão ao seu lado. E os dentes brancos.
     Em poucos dias ele se tornou conhecido em toda a cidade. Por onde caminhava, os dentes brancos flutuavam em seu rosto sujo com tal obscenidade que todos que o viam não conseguiam deixar de virar o rosto. Mas já era tarde demais: os dentes brancos tinham se fixado em suas retinas. 
     Ao ligarem a TV de suas casas, viam a apresentadora do telejornal gritar obscenidades e reclamar da sua vida sexual e mandar seu chefe pra puta-que-o-pariu, sem perceber em seu furor que o apresentador ao seu lado chupava seus peitos. Os dentes brancos pairando no vídeo atrás deles. 
     E então, mães de repente começaram a esfaquear, enforcar, jogar do alto de seus apartamentos os seus filhos para que não vivessem neste mundo. E se suicidavam em seguida. Os homens rangiam os dentes e como cães passaram a andar de quatro, brigando entre si, com arranhões e mordidas, pela merda que tinham feito nas praças, shoppings, restaurantes e sarjetas. 
     E cheios de culpa, freiras vinham esfregar a buceta na sua cara implorando pelo amor da Virgem Maria para serem chupadas e fodidas por ele, enquanto padres chegavam de pau duro erguendo as suas batinas e se posicionando de quatro com o cu piscando por perdão. E até as prostitutas chegavam chorando para adorar os dentes brancos e dar a ele tudo o que tinham conseguido na noite anterior. 
     “Dentes-brancos-dentes-brancos-dentes-brancos...”, todos repetiam como um refrão em meio ao vômito, à merda, às lágrimas e ao sangue de seus corpos.
     Carros abandonados no meio da rua, corpos cruzando-se como animais, casas abandonadas ou em chamas, lojas saqueadas por todos os lados por andarilhos que não conseguiam entender como as coisas tinham ficado assim. Quando perguntaram a ele, ouviram-no pela primeira vez falar, cada sílaba estalando como ossos que se moviam a custo depois de muito tempo em sono profundo: “Eles esqueceram seu papel”, e nunca mais disse palavra.
     Finalmente um dia, com ternos e gravatas, arrancaram-no do seu prédio e o algemaram. Os olhos injetados e a boca espumando, gritavam e berravam enquanto cuspiam nele. E ergueram os punhos e fizeram-no soltar sangue pela boca. Mas ele sorria, os dentes,       . E ao vê-lo na rua caminhando entre socos e chutes de homens engravatados, todos os outros de repente levantaram-se sobre duas pernas e juntaram-se a eles, fazendo um corredor conforme ele caminhava entre a multidão feroz, todos os sobreviventes, mais lúcidos do que nunca em sua loucura. Mas ele ainda sorria, os dentes,      . Levaram-no até uma praça, milhares em torno dele, até que ele finalmente desmoronou, com uma lágrima dançando por um momento no canto dos olhos antes perder-se entre a massa de carne informe que tinha sido seu rosto. Mas os dentes      

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Dark room


Com agradecimentos a Marcos.


     Você consegue escutar? Pois no escuro, apagava a sua própria existência para que o desejo que arranhava constante por dentro do seu peito o rasgasse em fiapos. Sim, você escuta. Como um disco arranhado que finalmente tocava... Aqui, no escuro, soa mais alto, não? E ele o escutava.
     Para que tinha vindo?
     Enquanto a música tocava, Miguel se posicionava sempre mais ou menos no centro da pista. Raios de luz – de todas as cores – deslizavam pelo céu como estrelas cadentes para entrar por suas retinas e incendiá-lo – queimando – por dentro. E sentia então como se asas imensas brotassem de suas costas, asas brilhantes e muito sólidas, elevando-o para o limiar da glória. E aquele que fosse beijar, seria Ele. Não é engraçado, então, pensar que quando você era criança você queria ser santo?
     Das alturas lançava olhares e esperava – esperava, esperava, esperava sempre – finalmente encontrá-lo. Para a redenção de todos. Você foi ensinado que nunca devia fazer maldade. Que tinha que ser bom, que tinha que rezar para Deus para protegê-lo das tentações... De quem eram aqueles olhos que agora faiscavam para ele? Mas você sabia, sim, que o tempo todo eu já estava lá. E aqueles lábios que com um sorriso convidavam para saborear o doce em sua boca? E um dia você descobriu que havia uma maneira. Com um ruflar de asas, Miguel se aproximou. Eu podia livrá-lo de todo peso de sua alma. E o beijou.
     Seus corpos se chocaram como se duelassem enquanto lentamente eram deslocados para um canto da pista. Você temia que eu fosse me materializar de um canto escuro, do ralo, debaixo da cama, de dentro do armário. E ali sua mão foi levada para a dura saliência que crescia, crescia... Eu te sufocava como uma fumaça venenosa que você tinha inalado e não conseguia expelir. Ele apertou com força... Você podia lutar, mas desde o começo sabíamos que o único jeito daquilo acabar era você aceitando a sua derrota. E então um desejo: “Quero te foder”. Eu nunca mais deixaria você em paz. E outro: “Então me fode”. E desde então, você nunca mais conseguiu dormir com a luz apagada.
     Sim, era para isso que tinha vindo.
     Sentiu uma língua molhada deslizar pela sua nuca enquanto mãos desabotoavam o botão da sua calça. O zíper e a calça abaixaram-se como se arranca um adesivo de cera quente numa pele já dormente. Quando nos olhamos no espelho você finalmente percebeu que já tinha feito. Algo molhado roçou por suas nádegas. Podia ser uma língua, podia ser um pau. Podia ser a bebida gelada. Mas sentiu ser rasgado – de repente – por dentro – até o talo. Viu? Eu tirei todo o peso de você. Não gritou – sorriu. A água corria incessante da torneira que você tinha aberto sem saber por quê. E então sua boca foi invadida por uma língua molhada. Desabafou seus suspiros na boca do outro. Pois só você pode escutar seus soluços. E quando achou que não havia onde segurar sentiu entre os dedos algo quente e palpitante, roliço, gordo. Suas mãos pequenas se apoiavam na beira da pia. Sabia exatamente o que fazer com aquilo: apertou-o com força enquanto deslizava a mão por ele. E mais um. Enfiou-as sob a água para senti-la correr entre os dedos, à espera. E finalmente, quando achava que não poderia se sentir mais pleno – mais livre –, perfurado em cada extremidade de seu corpo escancarado, sentiu a última martelada quando seu pau desabrochou dentro de uma redoma úmida e apertada. 
     E agora, o que aconteceria? Deus... 
     “Ai!”, exclamou. 
     Pois de repente sentiu outro transpassá-lo por dentro. Deus! Meu Deus... Por que você me abandonou? Mas toda dor era bem-vinda... Eu não sabia o que eu estava fazendo, eu não queria, eu não queria... 
     “Tá doendo!” 
     Já é tarde demais.
     “Tarde demais”, ouviu dizer.
     E ele sabia que era o seu odioso aliado.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Enquanto jazo aqui

     Estou sonhando ou acordado? Eu estava, me lembro, em frente à minha mesa de escrever quando comecei. Agora, como se o mundo tivesse se apagado, como se meus olhos tivessem sido toldados por pálpebras que eu insistia em deixar abertas, como se o vendedor tivesse de repente fechado a porta da loja correndo-a de cima a baixo para sempre para que nenhum cliente pudesse passar pelas minhas retinas – não devo nunca mais vender –, eu não consigo enxergar para saber onde estou.
     Sinto cheiro de flores. Talvez já esteja morto, e essa sensação de se estar se rasgando em fiapos por dentro – de decomposição – sejam os vermes que fazem carnaval sob minha carne – aqui. Enterrado vivo, o silêncio pesa como quilos – toneladas – de terra sobre minha boca escancarada num grito agora sufocado. Talvez seja por ela que eles tenham entrado, os vermes.
     Mas eu ainda sinto cheiro de flores.
     “Por favor, me deixa acordar”, eu ousei dizer em voz alta, mas só eu mesmo posso ouvir minha própria voz.
     Foi quando de repente senti meu celular vibrar no bolso da minha calça e o segurei entre as mãos. Era um milagre que entre tanta terra ele ainda funcionasse. Eu atendi.
     “Não vou poder te encontrar hoje. Eu não consigo sair de casa, eu... Eu não consigo.”
    “Onde você tá?”, eu perguntei, sentindo um olho tremer quando um verme escorreu molhado do canto dele. Se eles ao menos parassem de se multiplicar, talvez isso acabasse logo.
     “Em casa, em frente ao portão”, ele respondeu. “Eu tô com medo. Eu não consigo.”
     “Flores”, eu disse.
     “O quê?”
     “Eu sinto cheiro de flores.” 
     “Flores?”, ouvi meu amigo perguntar com a voz crescendo em pânico. “O que você quer dizer, me diz! O quê?”
     “Eu não sei.”
     Ele chorava do outro lado da linha. Tremia. Berrava. Tuu-tuu-tuu. Desligou.
    Gostaria de saber dizer a ele o que as flores são. Mas agora eu sou todo vermes. Sinto-os me despedaçarem por dentro com muita lentidão, um pedacinho de cada vez, ceia pútrida cujo prato principal não tinha chegado ainda. Não, não tinha chegado ainda.
     Mas enquanto jazo aqui, o cheiro das flores em algum lugar não vai deixar que eu sucumba. Por mais que eu queira, por mais que eu deseje me deixar ser devorado até o fim, acredito que no final elas finalmente vão desabrochar para a superfície e eu vou saber dizer ao meu amigo, a todos, a mim mesmo, o que elas querem dizer.   

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Um quarto esterilizado

    Quando um vento frio bateu era como se esterilizasse todo o calor. Eu, também, me senti esterilizado – como um quarto de hospital é depois que o cadáver  – que descanse em paz  – é retirado. Será que consigo chorar pelo corpo, agora que ele se foi? É claro que vez ou outra me lembrarei, mas com o tempo se tornará cada vez mais um rosto esfumaçado – lembra-se daquela vez em que
qual? 

já não consegue se lembrar ao certo, embora ainda leve flores para o túmulo em dias de cinzas, quando reconhece que, sem sua existência e morte, não seria o que é hoje – e que pode morrer a qualquer momento, antes até mesmo que essas flores em suas mãos murchem. Pois o que mede o tempo senão cada respiração-segundo enquanto nos julgamos – estamos? – vivos?
     Mas a sensação estéril não é boa também, percebeu. De alguma forma é a ausência. E como, agora, ocupar o quarto vazio e habitá-lo?  

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

As flores


    E então ela se viu em um lindo jardim colorido por muitas flores de todas as cores, margaridas, gerânios, violetas, rosas, girassóis, crisântemos, orquídeas, nastúrcios. Como sabia o nome de todas elas? Apenas sabia. E enquanto entrava a caminhar entre elas, uma brisa suave fazia-as se inclinar gentilmente para o lado e roçar em suas pernas. E agora elas não estavam sussurrando? Estavam, por todos os lados, doces sussurros entre si, uma linguagem que ela não podia entender. O segredo do que as fazia tão belas, tão encantadoras. Belas, suas pétalas recebiam o calor do sol e brilhavam vistosas, em flor. E cada chuva era sentida por elas como uma benção – não lavava nada, não havia nada para ser lavado. E cada gota que, depois que o sol surgia, pendia cristalina delas, para logo cair sobre a terra, lentas, delicadas, como lágrimas – se de tristeza ou alegria, não importava – era belo, belo, e toda aquela beleza garantia algo a elas, embora ela mesma não soubesse ao certo o quê.
     O que ela estava fazendo ali? Como tinha ido parar ali? O jardim se estendia imenso por todos os lados, e já não podia dizer como exatamente tinha chegado lá. Mas tanto fazia. Lá estava, e isso é só o que se deve saber. Sem perguntas, sem perguntas. As coisas são assim.
    Ela deitou-se, sentindo as flores ao seu redor acariciarem todo o seu corpo, altas, cercando-a como paredes que, apesar de frágeis, ninguém ousaria transpor. Mas acima o céu estava azul, ela podia vê-lo, azul e distante, e ainda assim tão perto, tão perto... Se esticasse as mãos, será que o alcançaria?
    Mas não podia. Gentilmente, tão gentilmente com seus caules elas envolveram o seu pulso enquanto erguia a mão, e trouxeram-na para a terra mais uma vez. E ainda mais gentilmente ela sentiu o toque de seus caules em torno de seus braços e pernas, crescendo delicadas por todo o seu corpo. E se esperasse, conheceria o seu segredo...
     Mas o céu ainda estava azul, tão azul.
    O que elas estavam sussurrando? Agora assim, tão próxima, ela podia ouvir fiapos de frases inteligíveis, sussurros quase compreensíveis, quase audíveis, quase reais... Cercada por todas elas, que agora se debruçavam sobre si, como rostos de curiosos que olham de cima para uma estranha que acabara de desmaiar na rua, e você é essa estranha. E como tal, levante-se e finja que não foi nada, que foi apenas um momento de fraqueza, que está tudo, tudo muito bem – mas já era tarde.  As flores faziam parte dela, agora.  
      Flores demais, flores demais, ela repetia, flores demais... 
    De fato, havia tantas flores que ela também criou consciência de ser uma flor. A princípio sentiu seus braços moles como folhas, seus cabelos abrirem-se como pétalas, e parecia que seu pescoço e tronco e pernas se esticavam enrijecidos e formavam um caule. Então, ela já não podia se mexer. E passou a vida curta que lhe restava a vegetar, dependendo que a aguassem para manter a sua beleza. 

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Coi(n)to interrompido

     E então eu de repente percebi que quero escrever uma história de amor. Mas assim que essa ideia me assalta - e me deixa sem roupa em pele crua - e à espera de ser estuprado, talvez -, percebo que tem de ser um tipo muito específico de amor.        
    Deixemos o pau entrar até o gozo, então. Dois corpos. E toda vez que ele metia ficava confuso quando escutava: mete, Matt, mete, Matt, mete. E se perdia tentando adivinhar a tal ponto que em plena ereção em pleno cu de seu amante que implorava (ou reclamava? Ai, não conseguia dizer com certeza, era difícil e sem querer via-se confuso e) brochava.
 -  Mete, vai, Matt, vai, matt, Mete, Matt, matt, mete... O que aconteceu?    
    Cara engraçado, esse Mateus.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Rosa branca (continuação de "Flor azul")


   



Com agradecimentos a Ronaldo e César.

Ato 1: Morte


            (Noite. São Paulo no horário do rush, uma esquina da Avenida Paulista. Tráfego parado. Som de buzinas de carros, ônibus e da sirene de uma ambulância, em meio a uma reunião de curiosos. Pedro e Paulo estavam caídos no asfalto em uma poça de sangue, mortos.)

-        Pedro?
-        Paulo?
-        Você tá bem?
-        Tô. E você?
-        Eu também.
-        Não estamos mortos.
-        Não, eu não me sinto morto.

            (Pedro e Paulo ainda respiram. Os paramédicos os colocam com muito cuidado na maca para levá-los ao hospital.)

-        Que paramédicos?
-        Não sei do que ele tá falando.
-        Vamos levantar.

            (Pedro e Paulo se levantam. Por um milagre, o acidente não os tinha matado. Mas levantam-se com muito custo e dor, ensanguentados.)

-        Não sentimos nada, já dissemos.
-        E não tem sangue nenhum.
-        Nem dor.
-        Mas tinha uma dor.
-        É... Tinha uma dor.
-        Mas agora
-        não tem nada.
-        Só um jardim de flores azuis.
-        Estamos num jardim de flores azuis. Não na...
-        Onde?
-        Não lembro mais.

            (Pedro e Paulo de repente caem mortos no chão.)

-        O que ele disse!?

            (Eu disse que)

-        Ele disse “Eu disse”!?
-        Disse!

            (Nós dissemos que)

-        Nós!?
-        Quem somos “nós”?

            (Foi dito que)

-        Ahá!
-        “Foi dito que”!


Ato 2: Nada


-        Parece que ele foi embora.
-        É.
-        Mas você ouviu o que ele tinha dito?
-        Ouvi! Mas é estranho... Apesar disso, eu sinto que tô vivo.
-        Eu também.
-        Tipo, apesar de estarmos vendo as flores azuis.
-        Então só há esse jardim de flores azuis?
-        Olhando assim, com nossos olhos...
-        Mas ele não via, ele via outra coisa.
-        Será mesmo que não via?
-        Será mesmo que via?
-        O que é ver,
-        ouvir,
-        respirar,
-        senão
-        simplesmente
-        existir?
-        E então a gente pensa.
-        Esse jardim de flores azuis.
-        Mas é engraçado,
-        conseguimos conviver com elas.
-        Não há dor.
-        Não há nada, então?
-        Não o amor.
-        A cidade.
-        Doutrinas.
-        Religiões.
-        O sistema.
-        Esquerda.
-        Direita.
-        Pra cima.
-        Pra baixo.
-        Nada disso faz sentido agora.
-        Quanto mais falamos, mais ocas essas palavras saem.
-        Elas não querem dizer nada. A gente devia calar a boca.

         (Nem essas flores azuis querem dizer alguma coisa além do fato de que não são. Agora eu entendo.)

-        Ele voltou.
-        Como assim não são?
-        Não são reais?
-        Mas podemos tocá-las.
-        Sim, assim como podemos nos tocar. Me toca, Pedro, me toca!
-        Tô tocando, Paulo, viu? Apesar das flores azuis
-        eu te amo.
-        Eu também.
-        Talvez a gente esteja na cidade.
-        Doutrinas.
-        Religiões.
-        O sistema.
-        Esquerda.
-        Direita.
-        Pra cima.
-        Pra baixo.
-        Mas eu te amo.
-        E eu te amo.
-        E há o bem.
-        E o mal.
-        Então por que ficamos pensando na realização autorrealizante?

            (É o “ficar pensando”.)

-        Você quer dizer que a gente devia ser títeres? Não agentes?
-        Que tudo isso é inevitável?

            (Não, mas a gente tem que sobreviver. Uma gota muito volumosa pode pesar demais sobre a rosa branca. Agora é claro que há uma rosa branca e que)

-        Do que ele tá falando?

            (Pedro e Paulo, sem dor, sem nada, encontram-se em um jardim de flores azuis.)


Ato 3: Desabrochar


-        Quem é você?

            Eu pensei que eu fosse eu mesmo e que pudesse fazê-los ser, mas percebi que simplesmente somos.

-        Agora isso é uma mentira, não?
-        Com certeza! Mas também pode ser uma verdade, não?

            Eles eram diferentes, é claro, terrivelmente diferentes um do outro – mas isso não era importante. No que tangia à existência, antes de nada ou depois de tudo, eles eram. Se isso era um produto ou a matéria-prima, se construção ou realidade, o que importava era

-        Existir.

            Existimos. A palavra flui por todo o nosso corpo como a rosa que desabrocha para o alto com asas brancas de pétalas simplesmente sendo o que é. Ali.


Ato 4: Existir


No jardim
de flores
azuis

A rosa
branca
é.


domingo, 22 de julho de 2012

Flor azul


Ao som de "Candyland",
de CocoRosie.


I

     Nunca achei que alcançaríamos um sentimento assim. No meio de todo esse barulho, ônibus, carro, buzinas, pessoas. Há tanto ruído e apesar disso estamos flutuando no meio de tudo como dois espíritos em harmonia com todo o resto, dois corpos sem matéria permeados por todos os objetos sólidos que nos perpassam sem causar ruptura alguma. Mas, então, o que é que temos? O que é esse sentimento? A flor azul. Sim, a flor azul, apertada contra meu peito enquanto caminhamos em plena Avenida Paulista no horário do rush, de mãos dadas.
     Pela primeira vez nos sentimos vivos. E você? Você consegue ouvir todo o resto? Sim, e você? Sim. E ficamos ouvindo. Caos e ordem. O caos na ordem. Não há ordem sem o caos, mas há a ordem. Há a ordem. Tem de haver. Agora tudo parece tão claro! Tão... tão... (Um grito, uma forte batida de carro em dois corpos sólidos.)

II

     Tudo o que Pedro e Paulo sabiam era que era preciso viver. Por quê? Talvez porque era o que se tinha, e nada mais. Tinham alcançado a consciência de que era preciso arrumar um modo de sobreviver, uma brecha através da qual pudessem se esgueirar furtivamente. E de que a morte era o mais sincero dos acontecimentos, pois não havia mistérios por trás dela.
     Contudo, sabiam ser impossível a ausência de interferência na harmonia do encontro de ambos – havia sempre o ruído de fora. De modo que decidiram, assim, dar-lhe as boas-vindas também. Ouviam, enquanto caminhavam como dois recipientes cuja vedação já havia se rompido para sempre, a realidade irromper violenta como uma enchente e transbordar. E embora vez ou outra houvesse tentativas – frustradas e que se tornavam cada vez menos frequentes – de um passo só deles, tinham de algum modo que compassá-lo com todo o resto.
     Pois não era muito comum sentirem-se trapaceados quando, de repente, ao pegar o metrô, por exemplo, percebiam a tolice de tudo o que pensavam? Seria, então, um momento de imersão ideológica?, Paulo se perguntava. Não sei, respondia Pedro. Talvez, ele acrescentou, não tenhamos conseguido superar a estrutura binária das coisas. O quê?, Paulo virou-se surpreso. Tinham acabado de fumar um beck antes de sair de casa. A-es-tru-tu-ra-bi-ná-ria-das-coi-sas, repetiu Pedro lentamente. (Silêncio.) De qualquer forma, é preciso viver, continuou dizendo Pedro, que tinha o hábito engraçado de às vezes puxar Paulo adiante pelas mãos, embora sozinho, Paulo sabia, ele jamais fosse.
     Mas isso era no começo. A verdade (?) agora é que tinham superado a binaridade que constrangia suas mentes e sua relação. É que já tinham sido tanta coisa! Pedro já foi um ativista do Greenpeace, do movimento gay, teve um blog muito interessante sobre a vida, foi voluntário em Moçambique, voltou para o Brasil e decidiu fazer Ciências Sociais, largou o curso, fez Filosofia, largou, e depois, bebeu, fumou, experimentou, e depois. Quanto a Paulo, já não tinha alcançado o estágio mais completo da fé? De fato, às vezes brincava de acreditar entre uma coisa e outra, e dia era budista, dia era ateu, dia era católico ou espírita ou drogado ou prostituto ou. E realmente acreditava.
     E havia a natureza. Pedro tinha o hábito de, enquanto caminhavam, ao topar com uma árvore – de repente arrancou uma folha e a fechou entre as mãos para senti-la consigo. E Paulo tinha o hábito – de repente viu-se esperando o momento em que Pedro iria, enquanto estivesse distraído, fazer cosquinha com a folha em seus ouvidos e ele se irritaria, rindo. Tinham o prazer de possuir e sentir a natureza, mas destruí-la ao mesmo tempo num só gesto.
     Pois não era preciso ser feliz também?, comentavam em silêncio e sem grandes pretensões, lembrando-se do que uma vez tinham dito a eles. Assim, quando perceberam que tudo era uma construção, que também o amor era uma construção, decidiram conscientemente construir. Pois, é claro, a construção é também a realidade. E agora até mesmo “Eu te amo” eles conseguiam dizer um pro outro.
     (À noite, deitados na cama antes de dormir, costumavam sentirem-se protegidos um com o outro na vastidão da madrugada, dos estranhos barulhos e ruídos que ouviam distantes e próximos, sem saber ao certo de onde. Nesse momento, então, eles cresciam dentro do seu pequeno quarto de pensão, cresciam além de todas as paredes e telhado e portas e janelas, além de sua casa, rua e bairro, e abarcavam toda a cidade com seus prédios, a madrugada e seus sons. Mas dormiam e não se lembravam disso no dia seguinte.)
     E então veio a flor azul. Estavam conversando distraídos, caminhando de mãos dadas, quando

III

Você não acha que.
Não sei, eu.
É só que.
Sério?
Por que não?
     (Silêncio. Uma ambulância abre espaço entre os carros e um mendigo sem pernas pede esmola e um homem de terno grita furioso no celular e duas meninas riem chupando duas casquinhas do McDonald’s e fumaça de cigarro e.)
Você acha que chegaremos a algum lugar assim?
Isso importa?
Mas é preciso.
Sim.
     (Pedro e Paulo de repente param. Um muro coberto de flores azuis. E veem. Frágil e delicada uma delas se desprender e cair lentamente sobre a calçada.)

     Pedro, em lágrimas, correu para pegá-la antes que fosse dilacerada pela multidão, enquanto Paulo, tremendo, chorava sem saber o que fazer. É pra você, disse Pedro, oferecendo-a a Paulo. (Soluços.) Mas Paulo não podia aceitar. Ela é nossa, respondeu. (Soluços.) E Pedro, com delicadeza, mal tocando-a entre seus dedos grossos e rígidos, concordou. De modo que eles só podiam, inevitavelmente, compartilhá-la. Afinal, sentiram, o resultado de tudo aquilo era a flor azul, as lágrimas agora escorrendo não de tristeza, mas da emoção que tinha desabrochado da flor que tinham colhido do concreto.

IV

     Mas havia o momento. O momento e a morte. A flor azul.

V

     Se alguém do alto de um prédio visse aqueles dois entre o turbilhão de autômatos inexoráveis, talvez os visse como dois pontinhos luminosos de mãos dadas. Mas não era bem assim – eles eram um só, entre si e entre todos. Eram o barulho e o movimento, e eram eles mesmos também. Eram sintomáticos. E um descuido tão estúpido e pequeno enquanto assim se mantinham revelou-lhes a fatalidade da contingência das coisas.
     Pedro e Paulo, enquanto caminhavam pela Avenida Paulista, encontraram uma flor azul. De mãos dadas, flutuavam juntos sem se darem conta de que o sinal estava fechado para eles. Atravessaram a rua e foram atropelados por um ônibus. Ambos sofreram o choque da batida calados, mas. Não.
                                                                                                                   Diz...
a flor azul
                                                                                                 Estamos morrendo...
apesar do sangue e da dor que eles sentiam
                                                                                           Agonizamos no asfalto, mas...
como continuar, como seguir em frente, quando
                                                                                                          É preciso...
a flor azul, ela
                                                                                                           Diz...
mas dói
                                                                                                     A dor é inevitável...
quando... não... há... saída?
                                                                                                                A flor azul...
ainda a apertamos firme contra nosso peito ensanguentado.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

O término

Com agradecimentos a Nathália, Danilo e Alan.

     Você é uma ferida não cicatrizada. Sou melodramático e clichê, né? É o que você vai dizer, você sempre disse isso. Mas você é mesmo essa ferida, e não só em mim. É uma ferida em carne viva que caminha pela superfície do mundo, mas que está enraizada nele e foi por ele criada. E é por isso que eu te amo.
    
     Eu preciso me sentir completo. Sei que sou, mas não o sinto. Preciso perceber que sou completo, que tenho minha própria identidade, por mim mesmo. Sem precisar de um outro pra suprir essa falta que sinto em mim. E estar aqui com você é estar num santuário, numa bolha. E foi assim por muito tempo, por culpa minha.

      Não, não foi culpa sua. Quando nos conhecemos, eu vi no seu corpo frágil e magro de menino a iminência de um rompimento que com o meu, de homem robusto e maduro, pretendia envolver, proteger, e evitar. Quando você falava, sentia no timbre da sua voz o tremor da insegurança de quem não está pronto pra enfrentar a vida sozinho.

     – Eu vou cuidar de você.

     E você me ouviu, enfiando-se por entre meus braços abertos que, no fundo, procuravam a matéria de que você era feito e que eu tinha perdido. E também eu me ouvi, ouvi, como se não fosse minha, minha própria voz prometendo, mesmo já sabendo que aquilo era algo que eu jamais poderia ter cumprido.

     A culpa é de nós dois, na verdade. Mas, de qualquer forma, essa bolha não existe mais pra mim. Rompeu-se faz tempo.

      Sim, você sempre pretendeu um amor pleno, você dizia. Um amor em que nada entrasse no meio, nada atrapalhasse. Dia e noite, éramos só eu e você, e o mundo que se fodesse. Percebendo, mas sem querer não percebendo, que tudo isso era uma fuga que você tinha criado, deixei assim estar. E, ao mesmo tempo, entendia. Tentei, então, mantê-lo nesse mundo de todas as maneiras, enquanto via lentamente toda a estrutura que você tinha criado com suas ilusões desmoronar. Fui cruel? Deveria tê-lo ajudado a enfrentar tudo isso? Mas me parecia que, a cada passo que tomava nessa direção, mais fazia-o mergulhar em toda essa ilusão, e tornava-me cúmplice de uma fuga que, com o tempo, percebi que não era só sua. Sabia o que era necessário, mas tive medo.

     Fiquei encantado com você porque achei que você ainda era o mesmo de antes, do seu passado que você me contou brevemente uma vez, que lutava pelo que acreditava e via uma possibilidade fora de tudo isso. O tempo todo, enquanto estava com você, esperava para ver o momento em que esses sentimentos desabrochariam e, juntos, pudéssemos plantar um jardim no asfalto.

     Mas você não entendia.

     E então finalmente percebi que na verdade ao redor de você você criava uma parafernália de objetos orbitantes, um verdadeiro arsenal para que eu não te alcançasse. Mas esse era você, pois somos também a construção. Agora percebo isso. Parecia que você era o que você tinha, toda a mercadoria que você podia oferecer, menos para os outros do que para si mesmo, em troca do que tinha perdido.

     Eu sei, eu sei. Mas é que não dá pra simplesmente deitar em sua cama e fechar os olhos esperando com ingenuidade que você vai adormecer momentaneamente. Precisei de remédios: lexotam, diazepan e o caralho-a-quatro. Algo tinha se perdido para a minha geração. Eu fui como você, e queria que você fosse como eu, ao mesmo tempo desejando que eu fosse como você. Louco isso, né? Mas era assim que eu me sentia. Um pouco de você em mim, e um pouco de mim em você. Mas talvez isso tudo seja muito egoísmo de minha parte e que minha motivação tenha sido tê-lo para, sob mim, calá-lo. Pois vi em você um pedaço de mim que eu tinha perdido, pedaço que sabia que, inevitavelmente, se perderia em você também. Acho que quis segurá-lo antes da queda.

     E, ao mesmo tempo, inconscientemente, eu admito, era tudo muito calculado por você para que eu não percebesse que no escuro vazio por trás de todo esse equipamento havia dois olhos insones e constantemente cheios de lágrimas que, não importa o quanto você tente secá-las, nunca param de cair. Tô errado?

      Tá, eu respondi. Mas não tava. E eu ainda o escuto gritando em meus ouvidos tudo o que você tinha dito, e procuro pôr um ponto final nessa narrativa, mas você aparece sempre antes de cada desfecho, antes de cada peripécia, para me mostrar que, na minha vida, desde que você se foi, não há peripécias.

     Não me procure mais, por favor. Tudo isso é uma construção, e não sei mais quem sou. Mas é preciso lidar, é preciso lidar.

      Você repetiu isso para si mesmo várias vezes.

     Se você não me escuta e me cala, se em você você nega essa voz que não é só minha, mas que também é sua, eu não me calarei.

      Na verdade, você nunca se calava, e o resultado era desastroso. Era tudo fora do lugar, distorcido, inadequado. Você não sabia se expressar. Era assim como um conteúdo sem forma. Sempre senti que em você havia um turbilhão que seu corpo frágil de menino não ia aguentar por muito tempo e a qualquer momento se romperia, sua pele toda se rasgaria, você explodiria e seus ossos e tripas se espalhariam pelo chão, pedaços do que antes tinha sido um todo pretensamente uno.

     Adeus. Pode ser que nessa busca eu sucumba. Pode ser que, quando achar que esteja encontrando meu caminho, me veja em mais uma armadilha que eu mesmo tenha criado. Pode ser até que eu, como você, seja uma geração que buscou e desistiu, mas preciso tentar encontrar. E pode ser que nosso diferencial seja que você tinha caído num mundo em que os ideais estavam ali, e o caminho supostamente traçado... Quanto a mim, não há nada, eu cheguei e as coisas já estavam assim, sem caminhos além de trilhas estreitas que devo abrir no meio dessa mata fechada e que podem me levar a um abismo. Mas, nem que seja sozinho, é preciso tentar.

      A gente sempre está só, quis dizer. Mas com o bater da porta percebi que você já sabia. Caminhei então até o quarto, deitei-me na cama e, sem ingenuidade, sem idealismo, tomei todo o meu arsenal. E durmo.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Eu me apaixonei por um menino morto


Inspirado pela música de mesmo título,
"I fell in love with a dead boy",
de Antony and the Johnsons.


     “A morte é o acontecimento mais extraordinário da vida”, pensava Enoque. Pois quem não gostaria de não ser? É o estágio mais completo da existência. Pois ele sabia que a única graça de estarmos vivos é sabermos que vamos morrer. E ansiava por isso, de modo que todo dia vivia na iminência do Grande Acontecimento.
     “A morte é a coisa mais bela pra se viver”, costumava dizer, mas ninguém entendia.
     Sua mãe retrucava dizendo que ele devia parar de pensar em besteira. Afinal, ele ainda era um mocinho e tinha uma longa vida pela frente. Devia sair mais com o irmão, fazer amigos, paquerar meninas. 
     Mas Enoque não precisava de nada disso. Não ousava revelar a ninguém, mas já tinha uma amiga e amante secreta. Ele a sentia roçar diariamente por sua pele, seu tato cálido e seu hálito frio lhe davam arrepios de volúpia, ao passar correndo em frente a um carro ou ônibus, o mais próximo possível – e inexplicavelmente sempre conseguir se safar, sentindo o vento do carro passar atrás de si. Ou ao ficar deitado sobre o trilho do trem esperando-o se aproximar. Não se levantava, não se levantaria se ele chegasse. Mas sempre vinha alguém que o fazia sair dali, ou ele de repente se lembrava que tinha algo muito urgente a ser resolvido antes de sua morte, que não podia ser deixado para trás de jeito nenhum, embora logo em seguida não conseguisse lembrar ao certo o que era. E havia os acidentes também: sabia que podia a qualquer momento sofrer um ataque cardíaco, pois já tinha ouvido falar de garotos da sua idade que tinham passado por isso – e então se entupia de batatas fritas e lanches; podia morrer num assalto – então toda a noite pulava a janela de seu quarto e saía pra caminhar na madrugada. E até mesmo um piano podia cair de repente do alto de um prédio em notas trágicas sobre sua cabeça.
     Às vezes, sem perceber, deslizava seus dedos pela virilha e brincava com seus pelos púberes como se fosse ela quem o roçasse sem nunca tocá-lo plenamente. Ansiava por seu cortejo, deitando-se sobre o piso frio do seu quarto banhado pela luz transparente da lua que penetrava pela janela. Nesses momentos, sentia-se mais próximo que nunca dela.
     Tinha alguns hábitos incomuns, é verdade. Gostava, por exemplo, de capturar sapos, deixá-los dentro de um pote até que morressem e, depois, dissecá-los para tentar então compor um novo ordenamento dos órgãos para criar outro tipo de ser. E sentia prazer em chorar pela morte do sapo enquanto tentava restaurar-lhe uma nova vida no lugar da antiga que ele mesmo tinha tirado. Além disso, gostava de flores. Quando sua mãe jogava fora as que tinham morrido nos vasos que ela deixava sobre os móveis da casa, Enoque ia sorrateiramente até o lixo, antes que o lixeiro passasse, para resgatá-las para decorar seu quarto. Pois era um menino sensível, vestindo-se de preto e mantendo seus longos cabelos oleosos, tão loiros que quase sem cor, cobrindo-lhe o rosto pálido, de modo que a sua aparência refletisse o seu estado interior. Sim, estava morto por dentro.
     Foi então que um dia, finalmente, em uma de suas andanças pelas ruas de sua cidade de madrugada, Enoque encontrou a Morte pessoalmente.
     Tinha dias em que, enquanto caminhava, ele enxergava ao longe a luz dentro do velório acesa. Corria até lá e olhava para dentro: se estivesse cheio, entrava, pois assim passaria despercebido. Gostava muito de estar ali. Sentia-se muito à vontade para chorar junto aos outros, sem causar nenhum espanto a ninguém por seu excesso de lágrimas. E pensava sempre ansioso quando seria a sua vez. Imaginava a si mesmo morrendo, toda a sua família, pais e irmão, avós, tias, primos, todos chorando pela sua morte enquanto ele ali estaria deitado no caixão vivenciando o seu tão esperado momento. E então chorava mais ainda.
     Mas quem está ali agora? Aproximou-se lentamente, aos poucos parando, enxugando uma lágrima aqui, outra ali, até que, quando chegou bem perto, viu.
     Ela devia ter a sua idade. Seus cabelos pretos e compridos caindo ao redor do rosto já frio e pálido, enrijecido, mas seus lábios ainda muito vermelhos, delicados, fechados naquela superioridade póstuma de quem não tinha mais o que viver e nada podia esperar a não ser o fim. Seu estado estava em harmonia com sua aparência: era tão bela, as mãos finas gentilmente dobradas em paz, indiferente às lágrimas ao seu redor, o estágio mais completo da existência, flutuando sobre as flores brancas que cobriam todo o contorno de seu corpo.
     Enoque chegou mais perto, sem se importar com as pessoas ao seu redor. Nunca tinha visto algo tão lindo. Era como se fosse a própria Morte, ali, deitada, exatamente como ele tinha imaginado em seus devaneios mórbidos.
     Tocou gentilmente as suas mãos. Seu toque frio o fez estremecer.
     “Qual é o seu nome?”
     Mas ela não respondeu.
     “Vocês eram amigos?”, ouviu de repente uma voz feminina embargada de choro ao seu lado. “Desculpa, é que ele tinha muitos amigos e–
     Sua mão se afastou. Ele recuou sem responder.
     “É um menino?”, exclamou consigo mesmo, com aquele tom muito peculiar de surpresa que fazemos quando encontramos por acaso algum conhecido que não víamos há anos. Há tanto tempo que parece ser outra pessoa – mudou o corte do cabelo? Sim, gostou? Prefiro você como antes, mas o que se pode fazer... Já está cortado – diria alguém mais sincero. Mas Enoque acrescentou rápido para si mesmo: “Mas é um menino morto. Tá morto”.
     Quando chegasse em casa, pensou, contaria à sua família tudo sobre ele, com os olhos cheios de lágrimas. E com um sorriso gentil cheio de recordações de toda uma vida, diria: “Queria que vocês tivessem conhecido ele”.
     Pois já se conheciam há muito tempo, é claro. Desde sempre. É verdade, passaram algum tempo afastados, ele tinha se mudado pra longe em algum momento de sua vida. Mas então tinha voltado. No dia do reencontro, foram ao cemitério juntos e de mãos dadas contemplaram a luz da lua sobre os túmulos agora cor de pérola. E brancos como a cera de uma vela tocaram um ao outro com sua chama.
     Andaram, também, por toda a cidade e descobriram coisas juntos sobre si mesmos que sozinhos jamais saberiam. Aprenderam a lidar com os defeitos dos outros e, acima de tudo, de si mesmos: ele não gostava de dissecar sapos, nem de chorar fechado em seu quarto, nem de flores murchas. Toda vida, ele dizia, devia ser prezada.
     “Olhe pra mim”, dizia, “Posso até estar morto, mas quero continuar vivo.”
     Os anos então se passaram, eles cresceram e formaram uma família. Tiveram um jardim em que criaram sapos e não deixaram nenhuma flor morrer. E embora toda noite, antes de dormirem juntos, conforme envelheciam, pensassem empolgados que poderiam acordar mortos (pois de que outra maneira poderiam morrer?), ao acordarem cantavam e batiam suas imensas asas para voarem juntos ao longo do dia.
     Toda uma vida juntos. Toda uma vida juntos e então ele se foi. Chorou por semanas, meses, anos, sabendo que jamais amaria novamente. E agora mora em um solitário casebre à beira de um penhasco, sobre um mar de ondas que foram formadas por suas próprias lágrimas de anos, batendo tristes e silenciosas contra os rochedos. E ninguém da cidade se aproxima, pois lá mora um velho que tinha se casado com a própria Morte e agora, diziam, estava condenado a jamais morrer. Mas, se ousassem se aproximar, entretanto, ouviriam a mais bela e mórbida história de amor entre dois homens, só que um deles, morto. Não...
     “Está na hora”, ele de repente ouviu a voz do padre soar alta no velório.
     Não, não! Não conseguia controlar suas lágrimas, não podia suportar vê-lo ser levado assim pra longe, pra sob a terra. Não queria vê-lo morto!
     Enoque correu para fora do velório, correu pelas ruas chorando sem parar, correu até chegar em casa. Pulou a janela do seu quarto e deitou-se em sua cama, condenado a chorar por toda a eternidade por uma vida que ele tinha perdido sem ter.
     Mas, de repente, sentiu um toque quente nas mãos. Um calor sobre a pele. Lentamente abriu os olhos e demorou a se acostumar com a claridade do sol que via entrar pela janela do seu quarto. Amanhecia.