segunda-feira, 30 de julho de 2012

Coi(n)to interrompido

     E então eu de repente percebi que quero escrever uma história de amor. Mas assim que essa ideia me assalta - e me deixa sem roupa em pele crua - e à espera de ser estuprado, talvez -, percebo que tem de ser um tipo muito específico de amor.        
    Deixemos o pau entrar até o gozo, então. Dois corpos. E toda vez que ele metia ficava confuso quando escutava: mete, Matt, mete, Matt, mete. E se perdia tentando adivinhar a tal ponto que em plena ereção em pleno cu de seu amante que implorava (ou reclamava? Ai, não conseguia dizer com certeza, era difícil e sem querer via-se confuso e) brochava.
 -  Mete, vai, Matt, vai, matt, Mete, Matt, matt, mete... O que aconteceu?    
    Cara engraçado, esse Mateus.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Rosa branca (continuação de "Flor azul")


   



Com agradecimentos a Ronaldo e César.

Ato 1: Morte


            (Noite. São Paulo no horário do rush, uma esquina da Avenida Paulista. Tráfego parado. Som de buzinas de carros, ônibus e da sirene de uma ambulância, em meio a uma reunião de curiosos. Pedro e Paulo estavam caídos no asfalto em uma poça de sangue, mortos.)

-        Pedro?
-        Paulo?
-        Você tá bem?
-        Tô. E você?
-        Eu também.
-        Não estamos mortos.
-        Não, eu não me sinto morto.

            (Pedro e Paulo ainda respiram. Os paramédicos os colocam com muito cuidado na maca para levá-los ao hospital.)

-        Que paramédicos?
-        Não sei do que ele tá falando.
-        Vamos levantar.

            (Pedro e Paulo se levantam. Por um milagre, o acidente não os tinha matado. Mas levantam-se com muito custo e dor, ensanguentados.)

-        Não sentimos nada, já dissemos.
-        E não tem sangue nenhum.
-        Nem dor.
-        Mas tinha uma dor.
-        É... Tinha uma dor.
-        Mas agora
-        não tem nada.
-        Só um jardim de flores azuis.
-        Estamos num jardim de flores azuis. Não na...
-        Onde?
-        Não lembro mais.

            (Pedro e Paulo de repente caem mortos no chão.)

-        O que ele disse!?

            (Eu disse que)

-        Ele disse “Eu disse”!?
-        Disse!

            (Nós dissemos que)

-        Nós!?
-        Quem somos “nós”?

            (Foi dito que)

-        Ahá!
-        “Foi dito que”!


Ato 2: Nada


-        Parece que ele foi embora.
-        É.
-        Mas você ouviu o que ele tinha dito?
-        Ouvi! Mas é estranho... Apesar disso, eu sinto que tô vivo.
-        Eu também.
-        Tipo, apesar de estarmos vendo as flores azuis.
-        Então só há esse jardim de flores azuis?
-        Olhando assim, com nossos olhos...
-        Mas ele não via, ele via outra coisa.
-        Será mesmo que não via?
-        Será mesmo que via?
-        O que é ver,
-        ouvir,
-        respirar,
-        senão
-        simplesmente
-        existir?
-        E então a gente pensa.
-        Esse jardim de flores azuis.
-        Mas é engraçado,
-        conseguimos conviver com elas.
-        Não há dor.
-        Não há nada, então?
-        Não o amor.
-        A cidade.
-        Doutrinas.
-        Religiões.
-        O sistema.
-        Esquerda.
-        Direita.
-        Pra cima.
-        Pra baixo.
-        Nada disso faz sentido agora.
-        Quanto mais falamos, mais ocas essas palavras saem.
-        Elas não querem dizer nada. A gente devia calar a boca.

         (Nem essas flores azuis querem dizer alguma coisa além do fato de que não são. Agora eu entendo.)

-        Ele voltou.
-        Como assim não são?
-        Não são reais?
-        Mas podemos tocá-las.
-        Sim, assim como podemos nos tocar. Me toca, Pedro, me toca!
-        Tô tocando, Paulo, viu? Apesar das flores azuis
-        eu te amo.
-        Eu também.
-        Talvez a gente esteja na cidade.
-        Doutrinas.
-        Religiões.
-        O sistema.
-        Esquerda.
-        Direita.
-        Pra cima.
-        Pra baixo.
-        Mas eu te amo.
-        E eu te amo.
-        E há o bem.
-        E o mal.
-        Então por que ficamos pensando na realização autorrealizante?

            (É o “ficar pensando”.)

-        Você quer dizer que a gente devia ser títeres? Não agentes?
-        Que tudo isso é inevitável?

            (Não, mas a gente tem que sobreviver. Uma gota muito volumosa pode pesar demais sobre a rosa branca. Agora é claro que há uma rosa branca e que)

-        Do que ele tá falando?

            (Pedro e Paulo, sem dor, sem nada, encontram-se em um jardim de flores azuis.)


Ato 3: Desabrochar


-        Quem é você?

            Eu pensei que eu fosse eu mesmo e que pudesse fazê-los ser, mas percebi que simplesmente somos.

-        Agora isso é uma mentira, não?
-        Com certeza! Mas também pode ser uma verdade, não?

            Eles eram diferentes, é claro, terrivelmente diferentes um do outro – mas isso não era importante. No que tangia à existência, antes de nada ou depois de tudo, eles eram. Se isso era um produto ou a matéria-prima, se construção ou realidade, o que importava era

-        Existir.

            Existimos. A palavra flui por todo o nosso corpo como a rosa que desabrocha para o alto com asas brancas de pétalas simplesmente sendo o que é. Ali.


Ato 4: Existir


No jardim
de flores
azuis

A rosa
branca
é.


domingo, 22 de julho de 2012

Flor azul


Ao som de "Candyland",
de CocoRosie.


I

     Nunca achei que alcançaríamos um sentimento assim. No meio de todo esse barulho, ônibus, carro, buzinas, pessoas. Há tanto ruído e apesar disso estamos flutuando no meio de tudo como dois espíritos em harmonia com todo o resto, dois corpos sem matéria permeados por todos os objetos sólidos que nos perpassam sem causar ruptura alguma. Mas, então, o que é que temos? O que é esse sentimento? A flor azul. Sim, a flor azul, apertada contra meu peito enquanto caminhamos em plena Avenida Paulista no horário do rush, de mãos dadas.
     Pela primeira vez nos sentimos vivos. E você? Você consegue ouvir todo o resto? Sim, e você? Sim. E ficamos ouvindo. Caos e ordem. O caos na ordem. Não há ordem sem o caos, mas há a ordem. Há a ordem. Tem de haver. Agora tudo parece tão claro! Tão... tão... (Um grito, uma forte batida de carro em dois corpos sólidos.)

II

     Tudo o que Pedro e Paulo sabiam era que era preciso viver. Por quê? Talvez porque era o que se tinha, e nada mais. Tinham alcançado a consciência de que era preciso arrumar um modo de sobreviver, uma brecha através da qual pudessem se esgueirar furtivamente. E de que a morte era o mais sincero dos acontecimentos, pois não havia mistérios por trás dela.
     Contudo, sabiam ser impossível a ausência de interferência na harmonia do encontro de ambos – havia sempre o ruído de fora. De modo que decidiram, assim, dar-lhe as boas-vindas também. Ouviam, enquanto caminhavam como dois recipientes cuja vedação já havia se rompido para sempre, a realidade irromper violenta como uma enchente e transbordar. E embora vez ou outra houvesse tentativas – frustradas e que se tornavam cada vez menos frequentes – de um passo só deles, tinham de algum modo que compassá-lo com todo o resto.
     Pois não era muito comum sentirem-se trapaceados quando, de repente, ao pegar o metrô, por exemplo, percebiam a tolice de tudo o que pensavam? Seria, então, um momento de imersão ideológica?, Paulo se perguntava. Não sei, respondia Pedro. Talvez, ele acrescentou, não tenhamos conseguido superar a estrutura binária das coisas. O quê?, Paulo virou-se surpreso. Tinham acabado de fumar um beck antes de sair de casa. A-es-tru-tu-ra-bi-ná-ria-das-coi-sas, repetiu Pedro lentamente. (Silêncio.) De qualquer forma, é preciso viver, continuou dizendo Pedro, que tinha o hábito engraçado de às vezes puxar Paulo adiante pelas mãos, embora sozinho, Paulo sabia, ele jamais fosse.
     Mas isso era no começo. A verdade (?) agora é que tinham superado a binaridade que constrangia suas mentes e sua relação. É que já tinham sido tanta coisa! Pedro já foi um ativista do Greenpeace, do movimento gay, teve um blog muito interessante sobre a vida, foi voluntário em Moçambique, voltou para o Brasil e decidiu fazer Ciências Sociais, largou o curso, fez Filosofia, largou, e depois, bebeu, fumou, experimentou, e depois. Quanto a Paulo, já não tinha alcançado o estágio mais completo da fé? De fato, às vezes brincava de acreditar entre uma coisa e outra, e dia era budista, dia era ateu, dia era católico ou espírita ou drogado ou prostituto ou. E realmente acreditava.
     E havia a natureza. Pedro tinha o hábito de, enquanto caminhavam, ao topar com uma árvore – de repente arrancou uma folha e a fechou entre as mãos para senti-la consigo. E Paulo tinha o hábito – de repente viu-se esperando o momento em que Pedro iria, enquanto estivesse distraído, fazer cosquinha com a folha em seus ouvidos e ele se irritaria, rindo. Tinham o prazer de possuir e sentir a natureza, mas destruí-la ao mesmo tempo num só gesto.
     Pois não era preciso ser feliz também?, comentavam em silêncio e sem grandes pretensões, lembrando-se do que uma vez tinham dito a eles. Assim, quando perceberam que tudo era uma construção, que também o amor era uma construção, decidiram conscientemente construir. Pois, é claro, a construção é também a realidade. E agora até mesmo “Eu te amo” eles conseguiam dizer um pro outro.
     (À noite, deitados na cama antes de dormir, costumavam sentirem-se protegidos um com o outro na vastidão da madrugada, dos estranhos barulhos e ruídos que ouviam distantes e próximos, sem saber ao certo de onde. Nesse momento, então, eles cresciam dentro do seu pequeno quarto de pensão, cresciam além de todas as paredes e telhado e portas e janelas, além de sua casa, rua e bairro, e abarcavam toda a cidade com seus prédios, a madrugada e seus sons. Mas dormiam e não se lembravam disso no dia seguinte.)
     E então veio a flor azul. Estavam conversando distraídos, caminhando de mãos dadas, quando

III

Você não acha que.
Não sei, eu.
É só que.
Sério?
Por que não?
     (Silêncio. Uma ambulância abre espaço entre os carros e um mendigo sem pernas pede esmola e um homem de terno grita furioso no celular e duas meninas riem chupando duas casquinhas do McDonald’s e fumaça de cigarro e.)
Você acha que chegaremos a algum lugar assim?
Isso importa?
Mas é preciso.
Sim.
     (Pedro e Paulo de repente param. Um muro coberto de flores azuis. E veem. Frágil e delicada uma delas se desprender e cair lentamente sobre a calçada.)

     Pedro, em lágrimas, correu para pegá-la antes que fosse dilacerada pela multidão, enquanto Paulo, tremendo, chorava sem saber o que fazer. É pra você, disse Pedro, oferecendo-a a Paulo. (Soluços.) Mas Paulo não podia aceitar. Ela é nossa, respondeu. (Soluços.) E Pedro, com delicadeza, mal tocando-a entre seus dedos grossos e rígidos, concordou. De modo que eles só podiam, inevitavelmente, compartilhá-la. Afinal, sentiram, o resultado de tudo aquilo era a flor azul, as lágrimas agora escorrendo não de tristeza, mas da emoção que tinha desabrochado da flor que tinham colhido do concreto.

IV

     Mas havia o momento. O momento e a morte. A flor azul.

V

     Se alguém do alto de um prédio visse aqueles dois entre o turbilhão de autômatos inexoráveis, talvez os visse como dois pontinhos luminosos de mãos dadas. Mas não era bem assim – eles eram um só, entre si e entre todos. Eram o barulho e o movimento, e eram eles mesmos também. Eram sintomáticos. E um descuido tão estúpido e pequeno enquanto assim se mantinham revelou-lhes a fatalidade da contingência das coisas.
     Pedro e Paulo, enquanto caminhavam pela Avenida Paulista, encontraram uma flor azul. De mãos dadas, flutuavam juntos sem se darem conta de que o sinal estava fechado para eles. Atravessaram a rua e foram atropelados por um ônibus. Ambos sofreram o choque da batida calados, mas. Não.
                                                                                                                   Diz...
a flor azul
                                                                                                 Estamos morrendo...
apesar do sangue e da dor que eles sentiam
                                                                                           Agonizamos no asfalto, mas...
como continuar, como seguir em frente, quando
                                                                                                          É preciso...
a flor azul, ela
                                                                                                           Diz...
mas dói
                                                                                                     A dor é inevitável...
quando... não... há... saída?
                                                                                                                A flor azul...
ainda a apertamos firme contra nosso peito ensanguentado.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

O término

Com agradecimentos a Nathália, Danilo e Alan.

     Você é uma ferida não cicatrizada. Sou melodramático e clichê, né? É o que você vai dizer, você sempre disse isso. Mas você é mesmo essa ferida, e não só em mim. É uma ferida em carne viva que caminha pela superfície do mundo, mas que está enraizada nele e foi por ele criada. E é por isso que eu te amo.
    
     Eu preciso me sentir completo. Sei que sou, mas não o sinto. Preciso perceber que sou completo, que tenho minha própria identidade, por mim mesmo. Sem precisar de um outro pra suprir essa falta que sinto em mim. E estar aqui com você é estar num santuário, numa bolha. E foi assim por muito tempo, por culpa minha.

      Não, não foi culpa sua. Quando nos conhecemos, eu vi no seu corpo frágil e magro de menino a iminência de um rompimento que com o meu, de homem robusto e maduro, pretendia envolver, proteger, e evitar. Quando você falava, sentia no timbre da sua voz o tremor da insegurança de quem não está pronto pra enfrentar a vida sozinho.

     – Eu vou cuidar de você.

     E você me ouviu, enfiando-se por entre meus braços abertos que, no fundo, procuravam a matéria de que você era feito e que eu tinha perdido. E também eu me ouvi, ouvi, como se não fosse minha, minha própria voz prometendo, mesmo já sabendo que aquilo era algo que eu jamais poderia ter cumprido.

     A culpa é de nós dois, na verdade. Mas, de qualquer forma, essa bolha não existe mais pra mim. Rompeu-se faz tempo.

      Sim, você sempre pretendeu um amor pleno, você dizia. Um amor em que nada entrasse no meio, nada atrapalhasse. Dia e noite, éramos só eu e você, e o mundo que se fodesse. Percebendo, mas sem querer não percebendo, que tudo isso era uma fuga que você tinha criado, deixei assim estar. E, ao mesmo tempo, entendia. Tentei, então, mantê-lo nesse mundo de todas as maneiras, enquanto via lentamente toda a estrutura que você tinha criado com suas ilusões desmoronar. Fui cruel? Deveria tê-lo ajudado a enfrentar tudo isso? Mas me parecia que, a cada passo que tomava nessa direção, mais fazia-o mergulhar em toda essa ilusão, e tornava-me cúmplice de uma fuga que, com o tempo, percebi que não era só sua. Sabia o que era necessário, mas tive medo.

     Fiquei encantado com você porque achei que você ainda era o mesmo de antes, do seu passado que você me contou brevemente uma vez, que lutava pelo que acreditava e via uma possibilidade fora de tudo isso. O tempo todo, enquanto estava com você, esperava para ver o momento em que esses sentimentos desabrochariam e, juntos, pudéssemos plantar um jardim no asfalto.

     Mas você não entendia.

     E então finalmente percebi que na verdade ao redor de você você criava uma parafernália de objetos orbitantes, um verdadeiro arsenal para que eu não te alcançasse. Mas esse era você, pois somos também a construção. Agora percebo isso. Parecia que você era o que você tinha, toda a mercadoria que você podia oferecer, menos para os outros do que para si mesmo, em troca do que tinha perdido.

     Eu sei, eu sei. Mas é que não dá pra simplesmente deitar em sua cama e fechar os olhos esperando com ingenuidade que você vai adormecer momentaneamente. Precisei de remédios: lexotam, diazepan e o caralho-a-quatro. Algo tinha se perdido para a minha geração. Eu fui como você, e queria que você fosse como eu, ao mesmo tempo desejando que eu fosse como você. Louco isso, né? Mas era assim que eu me sentia. Um pouco de você em mim, e um pouco de mim em você. Mas talvez isso tudo seja muito egoísmo de minha parte e que minha motivação tenha sido tê-lo para, sob mim, calá-lo. Pois vi em você um pedaço de mim que eu tinha perdido, pedaço que sabia que, inevitavelmente, se perderia em você também. Acho que quis segurá-lo antes da queda.

     E, ao mesmo tempo, inconscientemente, eu admito, era tudo muito calculado por você para que eu não percebesse que no escuro vazio por trás de todo esse equipamento havia dois olhos insones e constantemente cheios de lágrimas que, não importa o quanto você tente secá-las, nunca param de cair. Tô errado?

      Tá, eu respondi. Mas não tava. E eu ainda o escuto gritando em meus ouvidos tudo o que você tinha dito, e procuro pôr um ponto final nessa narrativa, mas você aparece sempre antes de cada desfecho, antes de cada peripécia, para me mostrar que, na minha vida, desde que você se foi, não há peripécias.

     Não me procure mais, por favor. Tudo isso é uma construção, e não sei mais quem sou. Mas é preciso lidar, é preciso lidar.

      Você repetiu isso para si mesmo várias vezes.

     Se você não me escuta e me cala, se em você você nega essa voz que não é só minha, mas que também é sua, eu não me calarei.

      Na verdade, você nunca se calava, e o resultado era desastroso. Era tudo fora do lugar, distorcido, inadequado. Você não sabia se expressar. Era assim como um conteúdo sem forma. Sempre senti que em você havia um turbilhão que seu corpo frágil de menino não ia aguentar por muito tempo e a qualquer momento se romperia, sua pele toda se rasgaria, você explodiria e seus ossos e tripas se espalhariam pelo chão, pedaços do que antes tinha sido um todo pretensamente uno.

     Adeus. Pode ser que nessa busca eu sucumba. Pode ser que, quando achar que esteja encontrando meu caminho, me veja em mais uma armadilha que eu mesmo tenha criado. Pode ser até que eu, como você, seja uma geração que buscou e desistiu, mas preciso tentar encontrar. E pode ser que nosso diferencial seja que você tinha caído num mundo em que os ideais estavam ali, e o caminho supostamente traçado... Quanto a mim, não há nada, eu cheguei e as coisas já estavam assim, sem caminhos além de trilhas estreitas que devo abrir no meio dessa mata fechada e que podem me levar a um abismo. Mas, nem que seja sozinho, é preciso tentar.

      A gente sempre está só, quis dizer. Mas com o bater da porta percebi que você já sabia. Caminhei então até o quarto, deitei-me na cama e, sem ingenuidade, sem idealismo, tomei todo o meu arsenal. E durmo.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Eu me apaixonei por um menino morto


Inspirado pela música de mesmo título,
"I fell in love with a dead boy",
de Antony and the Johnsons.


     “A morte é o acontecimento mais extraordinário da vida”, pensava Enoque. Pois quem não gostaria de não ser? É o estágio mais completo da existência. Pois ele sabia que a única graça de estarmos vivos é sabermos que vamos morrer. E ansiava por isso, de modo que todo dia vivia na iminência do Grande Acontecimento.
     “A morte é a coisa mais bela pra se viver”, costumava dizer, mas ninguém entendia.
     Sua mãe retrucava dizendo que ele devia parar de pensar em besteira. Afinal, ele ainda era um mocinho e tinha uma longa vida pela frente. Devia sair mais com o irmão, fazer amigos, paquerar meninas. 
     Mas Enoque não precisava de nada disso. Não ousava revelar a ninguém, mas já tinha uma amiga e amante secreta. Ele a sentia roçar diariamente por sua pele, seu tato cálido e seu hálito frio lhe davam arrepios de volúpia, ao passar correndo em frente a um carro ou ônibus, o mais próximo possível – e inexplicavelmente sempre conseguir se safar, sentindo o vento do carro passar atrás de si. Ou ao ficar deitado sobre o trilho do trem esperando-o se aproximar. Não se levantava, não se levantaria se ele chegasse. Mas sempre vinha alguém que o fazia sair dali, ou ele de repente se lembrava que tinha algo muito urgente a ser resolvido antes de sua morte, que não podia ser deixado para trás de jeito nenhum, embora logo em seguida não conseguisse lembrar ao certo o que era. E havia os acidentes também: sabia que podia a qualquer momento sofrer um ataque cardíaco, pois já tinha ouvido falar de garotos da sua idade que tinham passado por isso – e então se entupia de batatas fritas e lanches; podia morrer num assalto – então toda a noite pulava a janela de seu quarto e saía pra caminhar na madrugada. E até mesmo um piano podia cair de repente do alto de um prédio em notas trágicas sobre sua cabeça.
     Às vezes, sem perceber, deslizava seus dedos pela virilha e brincava com seus pelos púberes como se fosse ela quem o roçasse sem nunca tocá-lo plenamente. Ansiava por seu cortejo, deitando-se sobre o piso frio do seu quarto banhado pela luz transparente da lua que penetrava pela janela. Nesses momentos, sentia-se mais próximo que nunca dela.
     Tinha alguns hábitos incomuns, é verdade. Gostava, por exemplo, de capturar sapos, deixá-los dentro de um pote até que morressem e, depois, dissecá-los para tentar então compor um novo ordenamento dos órgãos para criar outro tipo de ser. E sentia prazer em chorar pela morte do sapo enquanto tentava restaurar-lhe uma nova vida no lugar da antiga que ele mesmo tinha tirado. Além disso, gostava de flores. Quando sua mãe jogava fora as que tinham morrido nos vasos que ela deixava sobre os móveis da casa, Enoque ia sorrateiramente até o lixo, antes que o lixeiro passasse, para resgatá-las para decorar seu quarto. Pois era um menino sensível, vestindo-se de preto e mantendo seus longos cabelos oleosos, tão loiros que quase sem cor, cobrindo-lhe o rosto pálido, de modo que a sua aparência refletisse o seu estado interior. Sim, estava morto por dentro.
     Foi então que um dia, finalmente, em uma de suas andanças pelas ruas de sua cidade de madrugada, Enoque encontrou a Morte pessoalmente.
     Tinha dias em que, enquanto caminhava, ele enxergava ao longe a luz dentro do velório acesa. Corria até lá e olhava para dentro: se estivesse cheio, entrava, pois assim passaria despercebido. Gostava muito de estar ali. Sentia-se muito à vontade para chorar junto aos outros, sem causar nenhum espanto a ninguém por seu excesso de lágrimas. E pensava sempre ansioso quando seria a sua vez. Imaginava a si mesmo morrendo, toda a sua família, pais e irmão, avós, tias, primos, todos chorando pela sua morte enquanto ele ali estaria deitado no caixão vivenciando o seu tão esperado momento. E então chorava mais ainda.
     Mas quem está ali agora? Aproximou-se lentamente, aos poucos parando, enxugando uma lágrima aqui, outra ali, até que, quando chegou bem perto, viu.
     Ela devia ter a sua idade. Seus cabelos pretos e compridos caindo ao redor do rosto já frio e pálido, enrijecido, mas seus lábios ainda muito vermelhos, delicados, fechados naquela superioridade póstuma de quem não tinha mais o que viver e nada podia esperar a não ser o fim. Seu estado estava em harmonia com sua aparência: era tão bela, as mãos finas gentilmente dobradas em paz, indiferente às lágrimas ao seu redor, o estágio mais completo da existência, flutuando sobre as flores brancas que cobriam todo o contorno de seu corpo.
     Enoque chegou mais perto, sem se importar com as pessoas ao seu redor. Nunca tinha visto algo tão lindo. Era como se fosse a própria Morte, ali, deitada, exatamente como ele tinha imaginado em seus devaneios mórbidos.
     Tocou gentilmente as suas mãos. Seu toque frio o fez estremecer.
     “Qual é o seu nome?”
     Mas ela não respondeu.
     “Vocês eram amigos?”, ouviu de repente uma voz feminina embargada de choro ao seu lado. “Desculpa, é que ele tinha muitos amigos e–
     Sua mão se afastou. Ele recuou sem responder.
     “É um menino?”, exclamou consigo mesmo, com aquele tom muito peculiar de surpresa que fazemos quando encontramos por acaso algum conhecido que não víamos há anos. Há tanto tempo que parece ser outra pessoa – mudou o corte do cabelo? Sim, gostou? Prefiro você como antes, mas o que se pode fazer... Já está cortado – diria alguém mais sincero. Mas Enoque acrescentou rápido para si mesmo: “Mas é um menino morto. Tá morto”.
     Quando chegasse em casa, pensou, contaria à sua família tudo sobre ele, com os olhos cheios de lágrimas. E com um sorriso gentil cheio de recordações de toda uma vida, diria: “Queria que vocês tivessem conhecido ele”.
     Pois já se conheciam há muito tempo, é claro. Desde sempre. É verdade, passaram algum tempo afastados, ele tinha se mudado pra longe em algum momento de sua vida. Mas então tinha voltado. No dia do reencontro, foram ao cemitério juntos e de mãos dadas contemplaram a luz da lua sobre os túmulos agora cor de pérola. E brancos como a cera de uma vela tocaram um ao outro com sua chama.
     Andaram, também, por toda a cidade e descobriram coisas juntos sobre si mesmos que sozinhos jamais saberiam. Aprenderam a lidar com os defeitos dos outros e, acima de tudo, de si mesmos: ele não gostava de dissecar sapos, nem de chorar fechado em seu quarto, nem de flores murchas. Toda vida, ele dizia, devia ser prezada.
     “Olhe pra mim”, dizia, “Posso até estar morto, mas quero continuar vivo.”
     Os anos então se passaram, eles cresceram e formaram uma família. Tiveram um jardim em que criaram sapos e não deixaram nenhuma flor morrer. E embora toda noite, antes de dormirem juntos, conforme envelheciam, pensassem empolgados que poderiam acordar mortos (pois de que outra maneira poderiam morrer?), ao acordarem cantavam e batiam suas imensas asas para voarem juntos ao longo do dia.
     Toda uma vida juntos. Toda uma vida juntos e então ele se foi. Chorou por semanas, meses, anos, sabendo que jamais amaria novamente. E agora mora em um solitário casebre à beira de um penhasco, sobre um mar de ondas que foram formadas por suas próprias lágrimas de anos, batendo tristes e silenciosas contra os rochedos. E ninguém da cidade se aproxima, pois lá mora um velho que tinha se casado com a própria Morte e agora, diziam, estava condenado a jamais morrer. Mas, se ousassem se aproximar, entretanto, ouviriam a mais bela e mórbida história de amor entre dois homens, só que um deles, morto. Não...
     “Está na hora”, ele de repente ouviu a voz do padre soar alta no velório.
     Não, não! Não conseguia controlar suas lágrimas, não podia suportar vê-lo ser levado assim pra longe, pra sob a terra. Não queria vê-lo morto!
     Enoque correu para fora do velório, correu pelas ruas chorando sem parar, correu até chegar em casa. Pulou a janela do seu quarto e deitou-se em sua cama, condenado a chorar por toda a eternidade por uma vida que ele tinha perdido sem ter.
     Mas, de repente, sentiu um toque quente nas mãos. Um calor sobre a pele. Lentamente abriu os olhos e demorou a se acostumar com a claridade do sol que via entrar pela janela do seu quarto. Amanhecia.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Meu pai morreu


     “É sua mãe no telefone, Marcos”, disse a telefonista na empresa.
     “Minha mãe?”, perguntou, surpreso. Ela quase nunca ligava.
     “Ela disse que é importante”, acrescentou a... mulher. Qual era o nome dela mesmo? Sempre esquecia.
     “Pode pôr na linha, por favor.”
     “Marcos?”, ele imediatamente ouviu a voz da sua mãe do outro lado. Mas estava diferente, mais frágil.
    “Mãe?”
     “Seu pai morreu”, ela disse simplesmente.
     Houve um soluço? Sim, houve, e agora ela chorava do outro lado da linha. Mas... Seu pai tinha morrido. Se-u pa-i ti-nha mo-rri-do. Seu-pai-tinha-morrido! Levantou-se, sentiu-se tonto, sentou-se. Seu peito doía.
     “Marcos, você tá aí?”
     “Sim, mãe”, respondeu, sua voz tremendo, podia sentir. E não sabia o que dizer.
     “Eu sei que vocês... Que vocês não se davam bem e que... Mas você vem, né?”
     “Sim.”
     Precisava dizer algo mais.
     “Com certeza, mãe. Claro que eu vou.”
     “O velório vai ser amanhã às três da tarde, filho.”
     A voz dela estava embargada de choro, quando disse “filho”. Quis dizer algo mais. “Eu te amo.” Ou: “Não chora, não chora, mãe”.
     “Eu vou estar aí amanhã bem cedo.”
     Mas ela já tinha desligado.
     O que havia para sentir, exatamente? Seu escritório alaranjado pela luz do fim de tarde que entrava pela parede de vidro atrás de si, aquela luz que ele tanto gostava e trazia a sensação de o dia estar acabando, estar no fim. No fim... E o que era aquele sentimento no peito que doía, como se algo apertasse o seu coração com mãos de ferro, e torcesse, espremesse, como se espreme uma laranja para que algum suco saia? Estava seca? Poderia alguma lágrima ter escorrido? Mas não conseguia – não conseguia. E ficou sentado, imóvel, sentindo a luz se extinguir lentamente e tudo se tornar indistinto, lentamente as cores e as formas se esvanecendo conforme a escuridão avançava dos cantos, frestas e fendas – e fendas – de seu escritório para que ele então, finalmente, só então – finalmente – chorasse.

     Amanhã queria levantar cedo, bem cedo, amanhã. Isto é, se conseguisse dormir. Mas tinha que sair cedo, de qualquer forma – demoraria umas três horas para chegar à sua cidade, sem trânsito. Assim que chegasse em casa, já ia deixar suas malas arrumadas. Nem ia tomar café quando levantasse. Queria passar o máximo de tempo possível com seu pai – que tinha morrido. Seu pai que tinha morrido. Fechou os olhos agora, no sinal que estava fechado, vermelho – podia, tinha acabado de fechar –, e sentiu como se fosse chorar, iria chorar agora, tinha certeza – seu pai tinha morrido –, mas não chorou.
     Em vez disso, lembrou-se sem querer de quando tinha conseguido sua carteira de motorista e saiu para dirigir, com seu pai ao seu lado – seu pai, que estava vivo então. E de como ele vigiava até mesmo o modo como ele passava a marcha. Cada detalhe. Até mesmo isso. E aquele seu olhar de reprovação. Sempre, o olhar de reprovação. O último olhar que recebeu dele, antes de partir. E então veio à sua mente a imagem de seu pai olhando-o com reprovação – mas seu pai que já tinha morrido, olhando-o com reprovação do caixão.
     A buzina do carro atrás do seu o despertou, o sinal já estava verde, ele não tinha percebido.
     Sim, aquele olhar de reprovação. Aquele olhar que dizia que agora, meu filho, isso é tudo o que você vai ter de mim – já é tarde demais, tarde demais. Ele então apertou com força o volante entre as mãos, e passou a marcha do jeito que ele sabia que seu pai não gostava, e pegou no câmbio com gosto.
     E mais uma vez lembrou-se daquela vez na piscina, e de como seu pai o tinha forçado a desligar o botão do registro (que fazia com que o jato saísse na água da piscina), depois que tinha saído da água, molhado, junto com seus primos. E de como todo mundo, os seus primos, olhava para você com pena, porque seu pai, embora você dissesse que estivesse dando choque – “Tá dando choque, pai!” –, forçava-o a desligar. E você no chão, tentando apertar o botão, e ele no alto, imenso, ameaçador, os olhos injetados de algo que você não sabia o que era então, forçando-o a ser o que você não era e queria que você fosse. Assim como com sua mãe.
     Minha mãe, Marcos pensou, lembrando-se das vezes em que o macho, como um parasita, drenava toda a força dela, para que se fizesse mais macho. De como sua mãe, como uma flor indefesa, esperava para que ele ali estivesse e para que ele a aguasse e ela pudesse existir. Pois, para ela, ele tinha que ser o único jardineiro – e nós todos, flores. Nós, todos flores.
     “Me dê água, meu bem.”
     “Me dê água, pai.”
     “Mas um filho não pode ser uma flor”, diria meu pai, quando fosse a minha vez.
     Pois minha mãe – eu te amo, mãe – foi a única que me entendeu, e mais tarde entendeu também toda a loucura desse sistema de irrigação que foi criado na minha família e que a fazia ser uma frágil flor quando poderia ser, também ela, uma jardineira – ou o que quer que quisesse –, e seu filho, uma flor – ou, também ele, o que quer que quisesse. Mas depois da esquina do entendimento – finalmente estou chegando em casa, agora – repousa a autossobrevivência. E, embora ela já soubesse que não precisava ser uma flor, já era tarde para abandonar o seu canteiro, pensou Marcos, entrando agora na garagem do prédio.
     Pedir, insistir. Alguém dá, alguém recebe. É sempre assim? E então o que ele falaria pro Gui, agora? Que seu pai tinha morrido? Sim, ele tinha que dizer isso. Sim, sim, tremendo, sozinho, como se até mesmo aquele ventinho gostoso que sempre vinha da janela aberta da sala e que eles tanto gostavam fosse demais, como se com aquele ventinho a sensação piorasse – era tristeza, solidão, abandono? –, como se só com aquilo ele se sentisse como se não quisesse sentir mais nada, a não ser algo – ou alguém? – que só o Gui poderia trazer agora, ele tinha que dizer: “Meu pai morreu”.

     “Onde você tava?”, perguntou Gui, assim que ele entrou em casa. “Fiquei preocupado, já são quase nove.”
     Será que ele já sabia?
     “Quase nove? Acho que perdi a noção das horas no trabalho, desculpa”, disse, fingindo um sorriso.
     “Dia puxado?”, perguntou Gui, aproximando-se.
     Ajudou-o a tirar a gravata, que ainda apertava o seu pescoço. E sorriu, o Gui.
     “Sim.”
     “Meu pai morreu”, quase disse, mas ficou em silêncio.
     “Ai, o meu foi horrível!”, exclamou Gui de repente, abraçando-o e quase chorando.
     “O que aconteceu?”, perguntou Marcos, acariciando a cabeça dele e sorrindo, o mesmo sorriso.
     “O mesmo de sempre, no trabalho. Ai, eu não aguento mais!”, chorou Gui, mas, ao olhá-lo, acrescentou: “Deixa pra lá, amor. E aí, já comeu?”.
     Sim, esses eram eles. Gui pedia, ele dava. Mas Gui pedia por hábito, e ele também dava por hábito. Todo relacionamento, Marcos pensava, todo relacionamento, depois de tanto tempo, cria certos hábitos que somente o conhecimento recíproco cancela quando necessário. Pois essa é a dádiva: hábitos e conhecimento recíproco, aqueles para a sobrevivência, este para a salvação. Suspirou aliviado.
     “Tô sem fome”, disse. “Só quero tomar um banho agora.”
     “Quer companhia?”, perguntou Gui, com aquele sorrisinho que conhecia bem e que tanto gostava em outras ocasiões.
     Mas agora...
     “É que eu tô muito cansado.”
     E por que ele não dizia nada? Tinha medo? Não queria? Não, não era isso. Só não sabia como. Como dizer que seu pai tinha morrido, como dizer que era ele, agora, quem precisava receber? Pois não tinha mais o que dar. Não tinha, não agora. Além da dor, era seu pai quem tinha morrido.
     Quando saiu do chuveiro, encontrou Gui sentado na cama.
     “Tá tudo bem mesmo?”, perguntou ele.
     Ele tinha percebido.
     “Sim, por quê?”, disse em vão, enxugando-se distraidamente, e torcendo para que seu pênis exposto, balançando, distraísse de alguma forma a atenção de Gui.
     Mas Gui continuou:
     “Você sempre chega com fome, e hoje não comeu. Você nunca rejeita um banho comigo, também”, ele disse, sério. “E você não me beijou quando chegou”, acrescentou, baixando os olhos.
     “É verdade.”
     Não conseguia dizer mais nada. Mas acrescentou (precisava acrescentar algo, era o Gui):
     “Vem cá, vem dormir comigo. Amanhã eu vou estar melhor.”
     Os dois se deitaram juntos. Gui virou-se de costas para ele, que agora devia abraçá-lo, era o hábito. Mas ele não abraçou, e também se virou de costas. Não queria abraçar. Ainda de costas, Gui percebeu, puxou-o pelas mãos para que fosse abraçado, mas ele ainda continuou imóvel. Um ventinho vinha da janela do quarto, e ele tremia, ele se esvanecia, e Gui não conseguiu mais tocar as suas mãos para ser abraçado.
     A cama rangeu, Gui se virou, e ele sentiu as mãos dele em torno de sua barriga.
     “O que foi, Marcos?”
     Mas ele não respondeu – não ainda. O ventinho vinha, mas Gui apertava-o com as mãos – suadas, preocupadas, as mãos do Gui – e o protegia. Sentia todo o corpo dele quente em suas costas.
     Estava seguro.
     “Meu pai morreu.”
     Ouviu Gui se surpreender e, em vez de falar, abraçá-lo em silêncio, apenas. Não falou nada, apenas o abraçou. Suas mãos de delicadas tinham se tornado másculas em torno de si, envolvendo-o como pétalas envolvem uma flor. E então, de repente, Marcos segurou entre os dedos o pênis palpitante de Guilherme e o colocou dentro de si, fazendo-o deslizar por entre seus pelos mal aparados, pela primeira vez.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Advertising

     Um rosto sorrindo como se a plenitude estivesse em seu sorriso e olhar vagamente - só vagamente - estrábicos. Era como uma moldura preenchida por algo que se fazia passar por tudo sendo nada. E não era uma máscara - não, era exatamente aquilo: pleno, feliz, luminoso sob a luz que incidia em cheio sobre seu rosto corado de satisfação, mas estreito, incabível por não se caber e, ainda assim, cabendo.
     "Você é o que você faz", dizia o anúncio.
     E por um momento ele fechou seus olhos cansados por nunca estarem despertos e viu a si mesmo sentado em seu cubículo de escritório sendo. E chorou.

terça-feira, 10 de julho de 2012

O assalto

          Agora eu só sinto essa sensação de impotência que me faz querer rasgar em pedaços aqueles filhos de uma puta que me assaltaram mais uma vez. Na primeira vez em que fui assaltado, eu chorei, me senti nu, um lixo, uma sensação terrível de fragilidade e exposição que me fazia querer retirar-me no meu próprio casulo e esperar que tudo passasse para que eu finalmente pudesse sair de novo. Só que não passava, estava aqui dentro. É preciso lidar: o mundo, eu sempre penso, é um lugar terrível. E mesmo sabendo que há desigualdade, que o mundo é injusto também com os meninos que me assaltaram, agora eu só sinto ódio. E se estivesse em meu poder, botaria fogo onde eles vieram. Todo o escrúpulo, toda a consciência, toda a percepção de que, no fundo, não é culpa deles, se vai quando somos nós mesmos que estamos em jogo.
            E isso é horrível. Penso neles, nascendo em uma favela, passando a infância cercados por caminhos que já estavam abertos pra eles e mais fáceis de serem trilhados do que em comparação com aqueles que eles viam, de relance, passando velozes no canto de seus olhos, fugidios e intangíveis, os caminhos dos meninos que passam dentro de carros nas ruas, caminhavam pela Paulista fumando um cigarro e com um tênis grande e luminoso que marcava presença, eles achavam. Só que não podiam. E mesmo na escola, que supostamente deveria lhes mostrar o caminho, a eles era apresentado apenas um beco sem saída.
            “Vocês nunca vão ser alguém na vida!”, já esguelava a velha professora filha da puta que mais de uma vez os tinha mandado para Diretoria, Maicou e Clélio.
            Maicou e Clélio – esses poderiam ser o nome deles. Maicou dói, não? É tão feio, é tão... Me causa certo incômodo. Então esse é o caminho. Sair de mim mesmo, sair desse egoísmo que flui a cada pulsação de meu sangue por todo o corpo e me faz desejar neste exato momento que Maicou, o preto tingido de loiro que me segurou pelos braços, e Clélio, o outro macaco de moleton de mano que supostamente tinha uma arma e arrancou de minhas costas minha mochila com tudo de que eu precisava dizendo “filho-da-puta-cala-a-boca-senão-te-estóro!” – Maicou e Clélio, mortos. Mas não.
            Primeiramente, sem clichês. Eu estava bem até então. Maicou e Clélio – nascidos na favela, ao perceberem que para eles não havia caminho para o que o sistema lhes prometia, resolveram consegui-lo por suas próprias mãos. Eram pequenos furtos no começo: entre a multidão no centro ou dentro de algum ônibus, corres que faziam pra outros brothers. “Brothers” – será que eles usam isso? Tenho amigos que usam isso, eu às vezes também, mas não os vejo usando. Não, não os vejo usando. Espera, isso é uma falha. Isso quer dizer que eu de alguma forma me acho superior a eles, quero causar um distanciamento – eu falhei, aqui. OK, brothers.
            “Bora fazer um corre lá pro bróder nosso lá na Remo?”, Clélio disse a Maicou, que estava de boa fumando um com seus brothers num beco qualquer – com quantos anos? – doze, treze?
            “Porra, aquele filho da puta que demorou pra dar nossa grana?”, Maicou, o mais agressivo, exclamou.
            “Porra, mano, mas ele pagou no final! Ele vai dar uma arma pra gente agora, tá ligado?”
            E foi assim que eles pegaram numa arma pela primeira vez.
  Espera, está horrível, isso. Vou começar tudo de novo. Vai ser assim: nada do passado de Maicou e Clélio, quero só eles saindo da favela até o meu encontro. E por toda essa trajetória todas as justificativas terão de estar nas entrelinhas de modo que, durante o assalto, ninguém sinta ódio deles por estarem me assaltando. Será apenas uma consequência lógica. E agora eu me retiro.

***

            A favela era um mundo completamente à parte de toda a cidade. Era onde nasceram, onde viveram, onde aprenderam a segurar uma arma e a atirar, onde aos poucos conquistaram o direito de se inserir no mundo conseguindo o que queriam à força. E naquele dia eles resolveram, os dois, saírem em busca de alguém de quem pudesse roubar.
            Pois era fácil. Se tivessem uma arma, tudo viria naturalmente em suas mãos. E não havia peso na consciência – por que haveria? Há muito tempo tinham criado consciência de que não eram piores que ninguém e que, já que não lhes abriam portas, iriam arrombar-lhas com os próprios pés. Além disso, se algumas coisas tinham surgido facilmente para muitos playboyzinhos de merda que viam por aí, por que para eles tinha que ser diferente? Queriam a facilidade, também. Eram justos.
            Odiavam ter de pensar que o faziam pela sua família. Era uma questão de orgulho – sentiam que se o fizessem era o mesmo que provocar pena nos outros e uma justificativa de que não precisavam. Era tudo muito claro já. E sentiam-se ofendidos quando suas mães voltavam do trabalho na casa de uma patroa trazendo sobras do almoço ou do jantar –cansadas do caminho de ônibus ou que faziam a pé, mas com um sorriso de conforto ao saberem que ela e seus filhos teriam o que comer. Não, não. Eles queriam trazer o que comer, eles, que não podiam dizer que roubavam e assaltavam para elas, e que para fazê-lo diziam que tinham arrumado um bom emprego e o caralho-a-quatro. Mas roubar, jamais! Deus não queria isso, Jesus castigaria, a gente tem que saber que alguns nascem ricos e outros pobres e que as coisas são assim, ouviam suas mães dizerem.
            Jesus, Deus? Porra, o único Jesus que conheciam era aquele que lhes dava a sorte de encontrarem alguém com uma mochila com notebook ou iPad. Davam uma grana do caralho, essas coisas.
            Toda noite saíam de carro e alternavam o ponto onde fariam o assalto. Também a hora. Tinha uma ladeira a alguns quarteirões de distância da favela que era mó esquema, e pelo menos uma vez por semana o motorista parava o carro pra que eles descessem a ladeira pra assaltar o primeiro mané que viesse – porque lá pela onze da noite não tinha ninguém lá. Até tinha um segurança da rua numa cabininha, mas o cara se cagava todo com eles. Nem arma tinha.
            É, tinha um motorista. Na real, eles trabalhavam prum cara, que dava pra eles tipo uma comissão dependendo do que eles roubavam no dia, tá ligado? O cara curtia.
            “Cês são os melhores, moleques!”, ouviam o chefe dizer, os dentes de ouro brilhando entre a fumaça da maconha.
            E os dois se enchiam de orgulho, porque eram bons em alguma coisa. E eram mesmo. Maicou era sempre o mais agressivo, o que segurava quando era preciso, mas Clélio sempre carregava a arma porque atirava melhor e era mais controlado. Uma vez Maicou quebrou os dentes de um maluco aí que tava fazendo cu doce e tinha carro vindo. O cara veio com papinho de que era filho do delegado da puta-que-o-pariu e que eles estavam fodidos se eles o roubasse.
            “Tá querendo a boca cheia de formiga, maluco?”
            Maicou puxou o cara prum canto embaixo do viaduto e Clélio meteu três balas pelo cu dele. Quando contaram pro chefe levaram bronca, mas foda-se. Tem gente que pede pra morrer, mano. Mas nem deu nada depois, foi suave.
            Naquele dia desceram a ladeira e encontraram um mané. Era um moleque de óculos que devia estar voltando da faculdade, com cara de filhinho de papai que teve tudo na mão pra estar com a mochilinha com os livros e o mp3 no ouvido. Tem neguinho que assim que vê já levanta a mão porque sabe que vai ser assaltado. Foi papo.
            “Filho-da-puta cala a boca senão te estóro!”, Clélio gritou.
            E Maicou já segurava o cara pelo braço e arrancava a mochila das costas dele. De resto era só vazar dali e falar pro maluco seguir outro caminho e calar a boca senão iam meter bala na cabeça dele...
            Só que o mané que roubavam era o mesmo narrador deste conto.
            Maicou e Clélio subiam a ladeira achando que o mané tinha ficado pra trás, então não viram que ele correu até o segurança que se cagava todo na cabininha e pegou a arma dele. É, o cara tinha uma arma.
            Eu dei primeiro um tiro nas costas do Clélio, que caiu, e então logo depois um na perna do Maicou. Os dois não esperavam. Não deixei pegarem a arma, cheguei e chutei pra longe. Então meti primeiro uma bala na cabeça do Maicou: deixei o cabelo dele vermelho, ficou bem melhor. Foi gostoso ouvir ele me xingar de filho-da-puta enquanto eu já apontava a arma pro focinho do desgraçado. O outro nem conseguia se mexer, então foi fácil brincar com ele: um tiro no pau, outro na outra perna e, enquanto ele chorava e gritava, esperei um pouco até mandar um na cabeça.
            Ouvi o barulho do carro que os tinha trazido de longe, então saí correndo, com minha mochila de volta.
         
            Admito que falhei, mas não pude evitar. E apesar de me sentir melhor, agora me sinto mais nu do que antes. E vocês?
         

Florzinhas e cactos

   Eu fui a uma floricultura. Não. Eu fui comprar verduras e no caminho de volta eu passei em frente a uma floricultura e comprei flores. Se não passasse em frente não compraria. E se passasse também não. É que ninguém eleela poucos compram flores hoje em dia a não ser pra dar pra namorad–. No caminho de volta eu comprei e quem me visse na rua cheirando cheirando com força aquelas rosas que meu nariz de fumante não deixava sentir todo o cheiro, que desespero!, quem me visse me acharia um romântico andando pela rua com flores pra dar pra namorada(o?).
   Não, foi assim: eu passei em frente à floricultura e achei que devia florear a minha vida. Então entrei e senti aquele cheiro de flores misturadas e disse pra senhora florista que lá tinha um cheiro muito bom e ela disse com um muxoxo, ai nem sinto mais. É que nem hospital, quem trabalha lá nem sente o cheiro, ela disse, e eu disse, é.
   - Queria comprar uma flor que não precisasse aguar muito, que durasse, sabe? Além de cactos, quais tem?
   - Tem essas aí. (Ela disse apontando pra umas bonitinhas florzinhas rosavermelhoamarelas.) Elas duram um pouco mais. Assim.
   - Ah.
   Olhei para os cactos. Um tinha um formato fálico que nem pinto duro. Nem quis. Gosto de pinto duro mas não tava na vibe, queria florear. Uns outros tinham um formato meio assim estranhos, formato de nada. Eram feios. Uns outros tipo assim vários cactos numa cestinha de barro mas deviam ser caros, eu pensei.
   - É que cactos são feios, né?
   - Ah. Eles não são feios. (Ela disse aguando umas bonitinhas florzinhas.) Eles são assim.
   - É.
   Saí da loja e não comprei nada. Mas uns cinco ou seis passos depois, sete, acho, eu ainda ouvia ela dizendo que eles eram assim. Voltei.
   - Oi, vou querer um cacto.
   Comprei um pequeno cacto e pra completar o troco comprei rosas e umas florzinhas amarelas e brancas. Cheguei em casa e pus todas em garrafas de vinho vazias com água. O cacto ficou no vasinho. Agora vejo as rosas e florzinhas amarelas e brancas e elas estão morrendo. O cacto ainda está lá, duro, rijo, e nem tem formato fálico que nem pinto duro.