sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Enquanto jazo aqui

     Estou sonhando ou acordado? Eu estava, me lembro, em frente à minha mesa de escrever quando comecei. Agora, como se o mundo tivesse se apagado, como se meus olhos tivessem sido toldados por pálpebras que eu insistia em deixar abertas, como se o vendedor tivesse de repente fechado a porta da loja correndo-a de cima a baixo para sempre para que nenhum cliente pudesse passar pelas minhas retinas – não devo nunca mais vender –, eu não consigo enxergar para saber onde estou.
     Sinto cheiro de flores. Talvez já esteja morto, e essa sensação de se estar se rasgando em fiapos por dentro – de decomposição – sejam os vermes que fazem carnaval sob minha carne – aqui. Enterrado vivo, o silêncio pesa como quilos – toneladas – de terra sobre minha boca escancarada num grito agora sufocado. Talvez seja por ela que eles tenham entrado, os vermes.
     Mas eu ainda sinto cheiro de flores.
     “Por favor, me deixa acordar”, eu ousei dizer em voz alta, mas só eu mesmo posso ouvir minha própria voz.
     Foi quando de repente senti meu celular vibrar no bolso da minha calça e o segurei entre as mãos. Era um milagre que entre tanta terra ele ainda funcionasse. Eu atendi.
     “Não vou poder te encontrar hoje. Eu não consigo sair de casa, eu... Eu não consigo.”
    “Onde você tá?”, eu perguntei, sentindo um olho tremer quando um verme escorreu molhado do canto dele. Se eles ao menos parassem de se multiplicar, talvez isso acabasse logo.
     “Em casa, em frente ao portão”, ele respondeu. “Eu tô com medo. Eu não consigo.”
     “Flores”, eu disse.
     “O quê?”
     “Eu sinto cheiro de flores.” 
     “Flores?”, ouvi meu amigo perguntar com a voz crescendo em pânico. “O que você quer dizer, me diz! O quê?”
     “Eu não sei.”
     Ele chorava do outro lado da linha. Tremia. Berrava. Tuu-tuu-tuu. Desligou.
    Gostaria de saber dizer a ele o que as flores são. Mas agora eu sou todo vermes. Sinto-os me despedaçarem por dentro com muita lentidão, um pedacinho de cada vez, ceia pútrida cujo prato principal não tinha chegado ainda. Não, não tinha chegado ainda.
     Mas enquanto jazo aqui, o cheiro das flores em algum lugar não vai deixar que eu sucumba. Por mais que eu queira, por mais que eu deseje me deixar ser devorado até o fim, acredito que no final elas finalmente vão desabrochar para a superfície e eu vou saber dizer ao meu amigo, a todos, a mim mesmo, o que elas querem dizer.   

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Um quarto esterilizado

    Quando um vento frio bateu era como se esterilizasse todo o calor. Eu, também, me senti esterilizado – como um quarto de hospital é depois que o cadáver  – que descanse em paz  – é retirado. Será que consigo chorar pelo corpo, agora que ele se foi? É claro que vez ou outra me lembrarei, mas com o tempo se tornará cada vez mais um rosto esfumaçado – lembra-se daquela vez em que
qual? 

já não consegue se lembrar ao certo, embora ainda leve flores para o túmulo em dias de cinzas, quando reconhece que, sem sua existência e morte, não seria o que é hoje – e que pode morrer a qualquer momento, antes até mesmo que essas flores em suas mãos murchem. Pois o que mede o tempo senão cada respiração-segundo enquanto nos julgamos – estamos? – vivos?
     Mas a sensação estéril não é boa também, percebeu. De alguma forma é a ausência. E como, agora, ocupar o quarto vazio e habitá-lo?  

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

As flores


    E então ela se viu em um lindo jardim colorido por muitas flores de todas as cores, margaridas, gerânios, violetas, rosas, girassóis, crisântemos, orquídeas, nastúrcios. Como sabia o nome de todas elas? Apenas sabia. E enquanto entrava a caminhar entre elas, uma brisa suave fazia-as se inclinar gentilmente para o lado e roçar em suas pernas. E agora elas não estavam sussurrando? Estavam, por todos os lados, doces sussurros entre si, uma linguagem que ela não podia entender. O segredo do que as fazia tão belas, tão encantadoras. Belas, suas pétalas recebiam o calor do sol e brilhavam vistosas, em flor. E cada chuva era sentida por elas como uma benção – não lavava nada, não havia nada para ser lavado. E cada gota que, depois que o sol surgia, pendia cristalina delas, para logo cair sobre a terra, lentas, delicadas, como lágrimas – se de tristeza ou alegria, não importava – era belo, belo, e toda aquela beleza garantia algo a elas, embora ela mesma não soubesse ao certo o quê.
     O que ela estava fazendo ali? Como tinha ido parar ali? O jardim se estendia imenso por todos os lados, e já não podia dizer como exatamente tinha chegado lá. Mas tanto fazia. Lá estava, e isso é só o que se deve saber. Sem perguntas, sem perguntas. As coisas são assim.
    Ela deitou-se, sentindo as flores ao seu redor acariciarem todo o seu corpo, altas, cercando-a como paredes que, apesar de frágeis, ninguém ousaria transpor. Mas acima o céu estava azul, ela podia vê-lo, azul e distante, e ainda assim tão perto, tão perto... Se esticasse as mãos, será que o alcançaria?
    Mas não podia. Gentilmente, tão gentilmente com seus caules elas envolveram o seu pulso enquanto erguia a mão, e trouxeram-na para a terra mais uma vez. E ainda mais gentilmente ela sentiu o toque de seus caules em torno de seus braços e pernas, crescendo delicadas por todo o seu corpo. E se esperasse, conheceria o seu segredo...
     Mas o céu ainda estava azul, tão azul.
    O que elas estavam sussurrando? Agora assim, tão próxima, ela podia ouvir fiapos de frases inteligíveis, sussurros quase compreensíveis, quase audíveis, quase reais... Cercada por todas elas, que agora se debruçavam sobre si, como rostos de curiosos que olham de cima para uma estranha que acabara de desmaiar na rua, e você é essa estranha. E como tal, levante-se e finja que não foi nada, que foi apenas um momento de fraqueza, que está tudo, tudo muito bem – mas já era tarde.  As flores faziam parte dela, agora.  
      Flores demais, flores demais, ela repetia, flores demais... 
    De fato, havia tantas flores que ela também criou consciência de ser uma flor. A princípio sentiu seus braços moles como folhas, seus cabelos abrirem-se como pétalas, e parecia que seu pescoço e tronco e pernas se esticavam enrijecidos e formavam um caule. Então, ela já não podia se mexer. E passou a vida curta que lhe restava a vegetar, dependendo que a aguassem para manter a sua beleza.