terça-feira, 11 de setembro de 2012

Dark room


Com agradecimentos a Marcos.


     Você consegue escutar? Pois no escuro, apagava a sua própria existência para que o desejo que arranhava constante por dentro do seu peito o rasgasse em fiapos. Sim, você escuta. Como um disco arranhado que finalmente tocava... Aqui, no escuro, soa mais alto, não? E ele o escutava.
     Para que tinha vindo?
     Enquanto a música tocava, Miguel se posicionava sempre mais ou menos no centro da pista. Raios de luz – de todas as cores – deslizavam pelo céu como estrelas cadentes para entrar por suas retinas e incendiá-lo – queimando – por dentro. E sentia então como se asas imensas brotassem de suas costas, asas brilhantes e muito sólidas, elevando-o para o limiar da glória. E aquele que fosse beijar, seria Ele. Não é engraçado, então, pensar que quando você era criança você queria ser santo?
     Das alturas lançava olhares e esperava – esperava, esperava, esperava sempre – finalmente encontrá-lo. Para a redenção de todos. Você foi ensinado que nunca devia fazer maldade. Que tinha que ser bom, que tinha que rezar para Deus para protegê-lo das tentações... De quem eram aqueles olhos que agora faiscavam para ele? Mas você sabia, sim, que o tempo todo eu já estava lá. E aqueles lábios que com um sorriso convidavam para saborear o doce em sua boca? E um dia você descobriu que havia uma maneira. Com um ruflar de asas, Miguel se aproximou. Eu podia livrá-lo de todo peso de sua alma. E o beijou.
     Seus corpos se chocaram como se duelassem enquanto lentamente eram deslocados para um canto da pista. Você temia que eu fosse me materializar de um canto escuro, do ralo, debaixo da cama, de dentro do armário. E ali sua mão foi levada para a dura saliência que crescia, crescia... Eu te sufocava como uma fumaça venenosa que você tinha inalado e não conseguia expelir. Ele apertou com força... Você podia lutar, mas desde o começo sabíamos que o único jeito daquilo acabar era você aceitando a sua derrota. E então um desejo: “Quero te foder”. Eu nunca mais deixaria você em paz. E outro: “Então me fode”. E desde então, você nunca mais conseguiu dormir com a luz apagada.
     Sim, era para isso que tinha vindo.
     Sentiu uma língua molhada deslizar pela sua nuca enquanto mãos desabotoavam o botão da sua calça. O zíper e a calça abaixaram-se como se arranca um adesivo de cera quente numa pele já dormente. Quando nos olhamos no espelho você finalmente percebeu que já tinha feito. Algo molhado roçou por suas nádegas. Podia ser uma língua, podia ser um pau. Podia ser a bebida gelada. Mas sentiu ser rasgado – de repente – por dentro – até o talo. Viu? Eu tirei todo o peso de você. Não gritou – sorriu. A água corria incessante da torneira que você tinha aberto sem saber por quê. E então sua boca foi invadida por uma língua molhada. Desabafou seus suspiros na boca do outro. Pois só você pode escutar seus soluços. E quando achou que não havia onde segurar sentiu entre os dedos algo quente e palpitante, roliço, gordo. Suas mãos pequenas se apoiavam na beira da pia. Sabia exatamente o que fazer com aquilo: apertou-o com força enquanto deslizava a mão por ele. E mais um. Enfiou-as sob a água para senti-la correr entre os dedos, à espera. E finalmente, quando achava que não poderia se sentir mais pleno – mais livre –, perfurado em cada extremidade de seu corpo escancarado, sentiu a última martelada quando seu pau desabrochou dentro de uma redoma úmida e apertada. 
     E agora, o que aconteceria? Deus... 
     “Ai!”, exclamou. 
     Pois de repente sentiu outro transpassá-lo por dentro. Deus! Meu Deus... Por que você me abandonou? Mas toda dor era bem-vinda... Eu não sabia o que eu estava fazendo, eu não queria, eu não queria... 
     “Tá doendo!” 
     Já é tarde demais.
     “Tarde demais”, ouviu dizer.
     E ele sabia que era o seu odioso aliado.