quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Pra variar: três poeminhas

Conta-gotas

"Três gotas antes de dormir."
Só.
     .
     . três?
              :
              :
              :
              :
              :
              :


Procrastinação

Queixo
                  na mão,
têmpora
                  no indica-dor.

Todo o peso do mundo
oscilando
                    sobre
             as
                    pálpebras.

"Bora tomar uma breja?"

E chuto-o para o

                         

                                    céu.


Ideologia

Ele _____ o nariz.
     (torceu?)
     (revirou?)
     (revolveu...?)

He twitched his nose like a rabbit's.

"Que cheiro é esse?", e então me perguntou.

A maçã mordida

E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer,
e agradável aos olhos,
e a árvore desejável para dar entendimento;
tomou do seu fruto, e comeu,
e deu também a seu marido, e ele comeu com ela. 
– Gênesis 3,6.

  
     Ele tinha vindo de longe. Enquanto subia a colina, embora de vez em quando sentisse alguns espinhos na sola dos pés e pisasse sem querer num formigueiro – e por ter destruído o lar das metódicas formigas, vermelhas de raiva elas cobririam todo o seu corpo se ele não corresse o máximo que podia, agitando os seus pés para livrar-se de suas picadas rancorosas –, ele erguia os olhos e via a silhueta cada vez mais próxima do garoto recortada pelo sol nascente.
     Esse garoto andava de um lado para o outro, impaciente, no alto da colina, sob uma macieira. Quando o viu se aproximar, parou. Não sorriu, não acenou de volta. Ficou parado, vendo-o enquanto ele se aproximava com os olhos fechados, sorrindo, porque já podia sentir o cheiro das maçãs fresquinhas que comeriam juntos. 
     Mas o garoto imediatamente deu um passo à frente, impedindo-o de se aproximar. E ele então parou. Seu corpo tornou-se pequeno diante da sombra que de repente se ergueu ameaçadora dele. Tentou segurar em suas mãos, mas foi empurrado colina abaixo, e rolou silencioso...  
     Não tem problema, não tem problema, ele pensou lá de baixo. Uma gotinha acabou escapando do seu olho, descendo pela bochecha, mas ele esticou a língua e engoliu-a rápido antes que caísse. E, sorrindo, subiu tudo de novo.
     Mas, quando lá chegou, outra sombra se ergueu sobre ele. Era uma garota. Tinha estado ali o tempo todo, ela disse, entre os galhos da árvore, colhendo uma maçã que agora segurava entre as mãos. Só a gente pode comer, disse o garoto, você não. E a beijou, mantendo um olho aberto para ter certeza de que ele estava vendo.
     Ah, ele estava vendo, sim. Pois embora dessa vez não tivesse saído do lugar, via-os cada vez maiores enquanto rolava colina abaixo de novo, até cair de joelhos exausto. Então, de repente, lá de cima, eles arremessaram a maçã, que bateu dura contra o seu rosto. E ele ouviu seus passos leves se distanciando pelo outro lado da colina, ele rindo muito, ela ainda mastigando o último pedaço da maçã, que jazia a poucos passos dele toda mordida, sobre a grama verde. Apenas o caroço. 
     Engatinhou até ele, como um moribundo no deserto. Segurou-o entre os dentes, enquanto rolava até a árvore. Mordiscou as últimas lascas. A casquinha de cima e a de baixo. Sugou o caroço. Sugava com força. Ficou sugando. Sugando, enquanto o dia passava... 
     Os raios do sol romperiam entre as folhas e os galhos e queimariam os seus olhos, mas ele não se moveria. Sem piscar continuaria sugando o caroço até que ele secasse em sua boca. E com o tempo a árvore também secaria, pois nunca mais daria nenhum fruto, e também a grama cresceria a tal ponto que esconderia todo o seu corpo até que, quando a noite chegasse, alguém desprevenido – talvez buscando solidão – subisse a colina, já há muito tempo não pisada por pés humanos. E ao ouvir os ossos se estilhaçando sob seus pés, perceberia que tinha pisado em seu crânio. Mas então veria assustado que os dentes ainda estavam inteiros, cravados em algo que jamais saberia o que era – porque, na verdade, nunca foi.
     De repente, ele sentiu na palma da mão uma forma redonda. Abriu os olhos. Um garoto olhava-o de cima.  
     Joga fora isso, tem bastante lá, ele disse, apontando para muitas outras maçãs, grandes e muito vermelhas, penduradas bem diante de seus olhos.
     Levantou-se. Escalou a árvore até um galho, puxou uma maçã e desceu até o lado do garoto, que imediatamente deu um passo para trás. Já não sorria, nem acenava. Mas também ele não sorria, também ele nem acenava. E o sol estava tão alto que nenhum dos dois fazia sombra. Assim, segurando numa das mãos a maçã que tinha recebido, ele – o nosso garoto – ofereceu a que tinha colhido para o outro. E ficaram comendo juntos no alto da colina até o pôr do sol.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

abraço

o vento entrando sob a sua camisa larga dançando em torno dos contornos da sua pele, braços pêlos axilas cintura. gostaria de por um momento ser aquele vento. mas também ele, ao senti-lo, não estaria tendo a sensação de amplitude que o meu abraço estreitaria? ou seria possível que, num abraço meu, estivéssemos tão conectados como se fôssemos um, a ponto de não haver estreitamento nenhum mas uma amplificação ainda maior, como se tivéssemos construído um espaço vasto que somente nós dois habitaríamos? mas não consigo deixar de imaginar que esse mesmo espaço possa se mostrar amplo demais, amplo demais. e num só abraço, podemos nos sentir como dois estranhos na cidade acenando, além de prédios, becos e avenidas, um para o outro numa distância incomensurável e fatal.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Dois passarinhos


Ao som de Little Joy. 
E com agradecimentos a Bruna e Alan.


     Tinha caído uma tempestade tão forte que, entre as folhas de um galho de uma árvore qualquer na cidade, os passarinhos sacudiam as suas penas para se secarem dentro de seu ninho. Uma cachoeira de repente deslizou de alguma folha acima deles e se espatifou sobre suas cabeças, e tiveram que eriçar suas penas mais uma vez como que sincronizados. E o ninho que tinham construído com tanto cuidado para chocarem seus ovos agora tinha buracos por todos os lados. Felizmente, no entanto, os ovos estavam intactos. Protegeram-nos com seus corpos trêmulos durante toda a tempestade.
     De repente, um vento frio entrou pelos buracos do ninho quando uma janela, em cujo vidro o galho da árvore roçava, se abriu. Um jovem olhou para o céu ainda coberto de nuvens depois da tempestade. Voltou-se para trás de si, onde outro tinha uma bandeja sobre o colo, sentado numa cama de casal. Quase como um convalescente, ele lentamente levou a xícara aos lábios. E o primeiro, com um suspiro, sentou-se ao seu lado e pegou um pedaço de bolo da bandeja com as mãos, sem mordê-lo.
     Estavam cansados. Tinham dormido mal na noite passada, depois de ficarem horas deitados em silêncio, fitando o teto que se tornava cada vez mais nítido na escuridão. E as letras em vermelho e muito grandes flutuavam diante deles: 

FORA VIADOS – APARTAMENTO 101

     Nem desceram do elevador. Indignados, apertaram o botão para subir ao andar do síndico para que ele tomasse imediatamente alguma providência para descobrir quem foi. Mas com a mão na porta, sem abri-la totalmente, ele levantou os ombros e sorriu como se dissesse debochado: “Eu avisei”. Mas na verdade ele disse que não tinha nada que pudesse fazer. O elevador não tinha câmeras. Mas isso não se repetiria. Ele sentia muito. Boa noite.
     Quando entraram em casa, a sós, conversaram e tomaram a decisão de denunciar o ato. Mas conforme a noite avançava, cada um em sua cabeça, decidiram em silêncio esquecer aquilo. É que não queriam arrumar encrenca com os vizinhos, eram novos no prédio. Na verdade, pensaram, era exatamente aquilo que eles desejavam que fizessem. Não, não dariam esse gosto a eles. 
     Tinham se mudado há menos de um mês. Estavam juntos há cinco anos já, se conheciam muito bem, e ficaram empolgados com a ideia de juntos dividirem um lar. Não, é claro, que acreditassem no amor ideal, em almas gêmeas. De fato, assim que se apaixonaram logo perceberam que o amor como tinha sido apresentado para eles não daria certo. Ambos eram independentes demais, livres demais para dependerem um do outro – e, ainda assim, amavam-se e precisavam um do outro em suas vidas. 
     Bruno era um artista plástico. Forrava as paredes da casa com seus quadros, estes pintados especialmente para ela com o que tinha de mais seu, embora soubesse que jamais conseguiria dar tudo o que desejava, assim como recebia por seus quadros menos do que achava que merecia. Rodrigo, por sua vez, era um engenheiro: tinha a mente prática, cuidava para que toda a base do lar não fosse construída num terreno traiçoeiro, e muitas vezes era ele quem achava alguma saliência ou uma parte mais frágil no terreno e, acenando para Bruno, batia nela com o pé e dizia: “Aqui, viu?”. Talvez porque Rodrigo fosse um pouco mais velho, Bruno pensava, ou quem sabe menos emotivo, embora achasse que ele sempre acertava nas molduras que fazia para os seus quadros.
     E ali estavam os dois agora. Tinham decidido não sair de casa naquele dia. Rodrigo decidiu preparar o café da manhã para comerem juntos na cama – há tanto tempo não fazia isso! –, abrindo a janela para acordar Bruno, que costumava dormir demais. E o dia parecia mesmo ideal para ficar em casa, sentiram, o cheiro de umidade e folhas molhadas entrando com o vento pela janela do quarto, enquanto afogavam o biscoito no café com leite antes de levá-lo um até a boca do outro. Pois acordaram amorosos naquele dia, desejosos de exercer toda a liberdade que podiam dentro espaço que tinham construído para si mesmos.
     “A gente devia cozinhar hoje”, Rodrigo disse.
     “Hum... Acho uma boa”, respondeu Bruno, com a boca cheia.
     “A gente tem o que em casa?”
     “Nada, eu acho... Tem que sair pra comprar.”
     Os dois não se olharam até colocarem no rosto um sorriso que acabou saindo como um par de asas que se esforçava em vão para levantar voo.
     “Ah, tem um lugar que eu ouvi dizer que é ótimo. A gente podia pedir.”
     “É, acho que eu também tô com preguiça de cozinhar.”
     Continuaram comendo em silêncio, até que Rodrigo de repente se lembrou que tinham marcado de ir ao cinema com o pessoal hoje. Bruno sem querer soltou um suspiro, olhando pela janela, e apenas disse: “O tempo hoje tá feio”.
     “É, né? Melhor a gente ficar em casa. Vamos marcar pra outro dia.”
     Sentindo então uma inquietação, uma vontade de sacudir não sabia o quê, depois que tomou o último gole da sua xícara Rodrigo disse:
     “Você tá quieto.”
     “Tô pensando”, Bruno respondeu, observando na parede diante dele o quadro que tinha pintado há pouco tempo atrás.
     “Hum”, Rodrigo fez apenas, temendo o que poderia ser. Mas sem que perguntasse, Bruno respondeu:
     “Eu gostei bastante dessa sua moldura.”
     Rodrigo esperou para ver aonde ele ia chegar. Não agora, pensou. Mas o seu olhar fez Bruno pensar por que ele às vezes o olhava como se de repente ele estivesse prestes a: “Lembra aquela vez que eu disse que só pintar não adiantava? Parece que eu nunca consigo expressar tudo. Foi isso que eu tentei, nesse quadro. E daí também pensei em você enquanto eu fazia, não só como observador. Queria que você participasse, entendeu? Mas acho que eu não consegui”.
     Rodrigo observou a moldura que tinha feito. Lembrou-se que queria que ela se diluísse na pintura, não se impusesse. E de repente se surpreendeu com o tom de agressividade em sua voz quando sem querer respondeu: “Mas você por acaso me perguntou o que eu achei?”.
     “Não...”, Bruno respondeu surpreso. É verdade, ele não tinha perguntado. “Fiquei esperando você dizer.”
     Depois disso, inevitavelmente os dois ficaram em silêncio mais uma vez, observando o quadro na parede... Mas Rodrigo não sabia o que era aquilo que Bruno tinha pintado. De fato, quantas vezes, ao se deparar com alguma pintura sua, não conseguia entender o que ele quis dizer? E quando ele finalizava uma nova, Rodrigo se aproximava e o via sentado diante dela, até receber um olhar furtivo e trêmulo dele, cujo peso ainda podia sentir como se um ponto de interrogação de repente tivesse sido enganchado em seu pescoço. E mesmo se ele tivesse dito: “Gostei”, Bruno ouvia apenas um murmúrio qualquer abafado pela porta que ele tinha acabado de fechar atrás de si, sendo atacado de repente por cadeiras, mesas, sofás e tapetes imóveis sobre o piso frio do chão da sala. “Precisamos mudar a disposição dos móveis amanhã”, ele então suspirava. Pois nem mesmo ele sabia exatamente o que queria dizer com o que pintava.
     Sem que percebessem, a mão de um apalpava sobre o lençol da cama em busca da mão do outro, e quando se encontraram tocaram-se de leve na ponta dos dedos. Olharam-se surpresos.
     “Que filme é mesmo?”, Bruno perguntou.
     “Não lembro, mas”, Rodrigo vacilou.
     “Você quer ir?”
     “Você quer?”
     “Vamos?”
     “Vamos.” 
     E os dois beijaram-se gentilmente por um tempo, até Rodrigo se levantar para fechar as cortinas da janela, enquanto Bruno depositava a bandeja do café da manhã ao lado da cama. Uma rajada de vento fez a cortina inflar e, num último relance, dois pés se entrelaçaram antes que ela voltasse a repousar num suspiro de alívio. 
     No galho à janela, os passarinhos cantavam pelos raios de sol que penetravam entre as folhas, reconstruindo seu ninho para esperar os ovos finalmente chocarem, em uma árvore qualquer na cidade.  

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Dentes brancos


Com agradecimentos a César e Maurício.


     Isso daqui não é um conto. Quer dizer, é, mas não é pra ser. Porque ele é real. Mas é difícil nesse espaço em que o coloco agora mostrá-lo de modo que não sejam meus dedos sobre a tecla que lhe deem vida, mas que a vida irradie dele mesmo – sem meus holofotes em cima, nem através. Eu aqui não quero mais estar, é isso o que quero deixar claro antes de me calar.

*

      Num dia quente e abafado, daqueles dias secos na cidade em que o nariz escorre e a garganta resseca – sem que o líquido viscoso do nariz entre pela boca para lubrificar a garganta – ele endurece no meio do caminho –, a única maneira seria deixar o pau entrar goela abaixo e a porra, ainda quente, lubrificar. Porque na verdade não chovia há dias. E porque na verdade isso era tudo o que tipos como ele recebiam dia a dia nas ruas – pau na boca como se fosse o cu, empurrando a merda para baixo a tal ponto que, sufocados, já não pudessem mais falar. E a merda tinha que descer em silêncio – em algum canto escuro da cidade, em suas entranhas mais podres –, a não ser por convulsões do cu que vibrava ruidoso.
     Mas com ele era diferente. Todos os outros faziam como se aquilo lhes fosse merecido, como se a sociedade os tivesse excluído porque não cumpriram a expectativa, não fizeram o que tinha e podia ser feito. Mas não ele. De lugar nenhum, eles mudaram-se para um apartamento em dezenas, pouco a pouco chegando, e sem se saber de onde nem como ele de repente já estava ali. Todos se surpreenderam quando viram, ao lado de seus trapos imundos, um copinho de plástico e uma escova de dente muito limpos, como um altar se elevando puro em meio a tanta sujeira. E ele não levava pau na boca porque, quando a cabeça ameaçava uma investida babando como um cão raivoso, no meio de seu rosto sujo abria-se um sorriso de canto a canto mostrando dentes inesperadamente brancos.
     Não demorou muito tempo para a polícia bater no prédio para retirá-los todos de lá, dos três andares que ocupavam. Mas quando ele surgiu à porta, emporcalhado, a barba como uma teia de aranha em que tudo grudava e um umbigo sujo como um buraco negro na barriga saltada para fora do trapo rasgado, seus dentes brancos brilharam. Os policiais o olharam atordoados, ficaram de pau mole, enfiaram-no de volta às calças e foram embora impotentes com a sensação de terem sido agredidos.
     Ele logo arrumou um canto na calçada para ficar sentado todos os dias, com uma caixa de papelão ao seu lado para que lhe dessem esmolas. Uma senhora muito bem vestida e elegante passou, olhou-o e, sentindo pena, tirou de sua bolsinha uma moeda. Ele mostrou seus dentes brancos. Quando os viu, ela se sentiu muito escandalizada e de sua bolsa retirou mais uma moeda. E os dentes brancos brilharam mais uma vez. E ela então lhe deu mais uma. E os dentes brancos.
     As mãos da senhora tremiam, horrorizada com aqueles dentes brancos que a cada moeda que ela dava insistiam no rosto encardido. E todo mundo que passou ali, quando o viu, também fez o mesmo. Mas com um sorriso os dentes brancos concordavam apenas. As pessoas despejaram celulares, carteiras inteiras, bolsas com tudo dentro, apavoradas com os dentes que tinham resolvido nunca mais sair dali. Algumas em prantos, outras tremendo e aos berros, foram embora para a casa desesperadas.
     Apesar disso, ninguém do prédio sabia o que ele fazia com o que ganhava. Isso permaneceu um mistério. No dia seguinte, lá estava ele mais uma vez na calçada, a mesma caixa de papelão ao seu lado. E os dentes brancos.
     Em poucos dias ele se tornou conhecido em toda a cidade. Por onde caminhava, os dentes brancos flutuavam em seu rosto sujo com tal obscenidade que todos que o viam não conseguiam deixar de virar o rosto. Mas já era tarde demais: os dentes brancos tinham se fixado em suas retinas. 
     Ao ligarem a TV de suas casas, viam a apresentadora do telejornal gritar obscenidades e reclamar da sua vida sexual e mandar seu chefe pra puta-que-o-pariu, sem perceber em seu furor que o apresentador ao seu lado chupava seus peitos. Os dentes brancos pairando no vídeo atrás deles. 
     E então, mães de repente começaram a esfaquear, enforcar, jogar do alto de seus apartamentos os seus filhos para que não vivessem neste mundo. E se suicidavam em seguida. Os homens rangiam os dentes e como cães passaram a andar de quatro, brigando entre si, com arranhões e mordidas, pela merda que tinham feito nas praças, shoppings, restaurantes e sarjetas. 
     E cheios de culpa, freiras vinham esfregar a buceta na sua cara implorando pelo amor da Virgem Maria para serem chupadas e fodidas por ele, enquanto padres chegavam de pau duro erguendo as suas batinas e se posicionando de quatro com o cu piscando por perdão. E até as prostitutas chegavam chorando para adorar os dentes brancos e dar a ele tudo o que tinham conseguido na noite anterior. 
     “Dentes-brancos-dentes-brancos-dentes-brancos...”, todos repetiam como um refrão em meio ao vômito, à merda, às lágrimas e ao sangue de seus corpos.
     Carros abandonados no meio da rua, corpos cruzando-se como animais, casas abandonadas ou em chamas, lojas saqueadas por todos os lados por andarilhos que não conseguiam entender como as coisas tinham ficado assim. Quando perguntaram a ele, ouviram-no pela primeira vez falar, cada sílaba estalando como ossos que se moviam a custo depois de muito tempo em sono profundo: “Eles esqueceram seu papel”, e nunca mais disse palavra.
     Finalmente um dia, com ternos e gravatas, arrancaram-no do seu prédio e o algemaram. Os olhos injetados e a boca espumando, gritavam e berravam enquanto cuspiam nele. E ergueram os punhos e fizeram-no soltar sangue pela boca. Mas ele sorria, os dentes,       . E ao vê-lo na rua caminhando entre socos e chutes de homens engravatados, todos os outros de repente levantaram-se sobre duas pernas e juntaram-se a eles, fazendo um corredor conforme ele caminhava entre a multidão feroz, todos os sobreviventes, mais lúcidos do que nunca em sua loucura. Mas ele ainda sorria, os dentes,      . Levaram-no até uma praça, milhares em torno dele, até que ele finalmente desmoronou, com uma lágrima dançando por um momento no canto dos olhos antes perder-se entre a massa de carne informe que tinha sido seu rosto. Mas os dentes