sexta-feira, 20 de dezembro de 2013


     Quanto mais velhos ficamos, mais as luzes do nosso passado, como as conhecíamos, cada uma delas, pessoas, objetos, lugares que habitavam nós mesmos – de todos os lugares, somos os maiores – vão se apagando, uma a uma... E ficaremos no escuro se não mudarmos de cômodo pra perceber que outras luzes já foram acesas. Viver é como estar numa casa sem que saibamos onde se encontram os interruptores. Seria então a velhice uma vela acesa no peitoril da janela? Mas não quero acreditar que a morte seja apenas uma casa no escuro – não, não. A morte é o olhar, talvez o último, quando, depois que o vento apaga a nossa vela, nos debruçamos na janela e descobrimos que dentro da noite escura podemos encontrar toda a luz de que precisamos. E que isso basta.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013


     Eu acho que algumas pessoas deveriam vir com uma placa fixada na testa, bem acima dos olhos, com o aviso: "Cuidado, você pode se perder dentro de mim". Porque quando você se aproxima de alguém, chega a conhecê-la como pode, e como ela (conscientemente ou não) lhe deixa vê-la, invariavelmente podemos nos ver tão imersos (tentando em vão adivinhar sua profundidade) que acabamos nos esquecendo de nós mesmos. Mas não se trata também de isso ser negativo ou positivo, certo ou errado, algo a ser evitado ou não... Simplesmente aconteceu. Porque – bom, não é justamente essa a questão do que chamam de o Outro? Não importa a profundidade, isso nunca saberemos, mas a travessia. Pois chega o momento em que percebemos que se a gente se perdeu foi para se encontrar. E então emergimos.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

violão


não me toque
que já escuto
minhas cordas
vibrando
nos arranjos
que sua palinha
ligeira
desafina
(não atina)
na dureza
deste corpo
que ainda sonha
em ser canção.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013



     As cortinas azuis do meu quarto agitavam-se com violência, por causa do vento. Pouca luz entrava por elas. E chovia forte... Será que ela tinha entrado para se proteger? Voando pelas ruas, em busca de um refúgio, tinha visto a janela – ou teria sido levado até ela? – e de repente, num golpe foi atingida pelos panos pesados da cortina – como se mata um inseto e nada mais – de repente. E foi assim que eu a encontrei, ao lado da minha cama ao acordar, caída. Mas uma asa ainda batia... 
     O que eu posso fazer por ela?, pensei. Tinha até pensado em procurar ajuda. Mas – como? Sairia na janela e pediria socorro? Ligaria para algum amigo perguntando o que poderia ser feito? “Tenho uma borboleta”, eu diria ao telefone, mas depois não saberia como continuar – uma borboleta que não morre? Ou que ainda vive? Eu não sabia. E nada fiz. Apenas tomei o cuidado de não pisar nela quando passasse, na esperança de que, cedo ou tarde, como as baratas e lagartixas, ela se recuperasse e saísse voando por aí mais uma vez. E passei o dia dividido entre os afazeres que a vida me exigia e a própria borboleta, cujo único afazer durante todo aquele dia foi bater a mesma asa, e batia cada vez menos a cada vez que eu voltava para ver – como quem nada quer, apenas de passagem – como ela estava. Claro, eu sei que eu poderia simplesmente ter pisado nela e acabado com o seu sofrimento. Mas que controle eu tenho sobre a morte?
     Quando a noite chegou, ao voltar para o meu quarto antes de dormir, percebi por fim que tinha acontecido. Julguei antes, no entanto, ter visto a asa ainda batendo – devagar, lenta, num último espasmo – mas era só o vento que a soprava, folha transparente e delicada. Morta. Finalmente morta. Se a deixasse ali e fosse dormir, pensei, sabia que a esqueceria no dia seguinte, ao acordar, e sem querer pisaria nela, arrancar-lhe-ia uma asa, destroçaria seu corpinho frágil... Não, eu precisava fazer alguma coisa. Tinha de enterrá-la, mas não sabia se seria capaz de fazê-lo. Pois mesmo ela estando ali, morta, permanecia em mim a sensação de que algum milagre ainda poderia acontecer. Foi então que resolvi guarda-la numa caixinha, mantê-la ali, esperar até que a situação se resolvesse. No dia seguinte, pensei, no dia seguinte eu saberia fazer alguma coisa. Mas tão logo fechei a tampa da caixinha, horrorizado vi a mim mesmo, dias, semanas, anos depois finalmente criando coragem para abri-la. E encontraria nada além de restos do que tinha sido antes – o quê? Pois tarde demais eu teria percebido que há muito tempo já não era. Peguei uma caneta e com letras garrafais escrevi sobre a tampa: “Deixe-me ir em paz”, e só então eu fui capaz enterrá-la.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

chamado


pois finalmente sentiu-se livre, saiu para caminhar pela cidade, embriagou-se encostado em carros em frente aos bares, fez amigos, amou-os para sempre, ligou o celular e discou para ele, disse que iria lá naquela hora mesmo, que o levaria dali, que já estava a caminho, que lhe mostraria a noite e lhe diria coisas que ele não queria ouvir, que tinha alguma coisa nele, que não sabia explicar agora o que era, era difícil de explicar, entende, mas que ele ainda era o mesmo, e que estava cruzando ruas e avenidas, mas que agora já tinha chegado, desce logo, vem, e parou sob a árvore, esperou, viu a janela, o vulto sentado à mesa se levantar, o relance sempre irreconhecível no espelho, a luz do quarto se apagar, e rápido vestiu o par de tênis surrados, e a batida dos passos descendo voando os degraus para abrir a porta e mergulhar no céu abrindo-se estrelado de outras luas e faróis na rua deserta, caminhar até sob a árvore, era onde ele deveria estar, era onde ele sempre o tempo todo estivera, desde o começo estivera, não tinha notado?, e respirou fundo, deixou a caneta escorregar por entre os dedos, e sua risada farfalhou entre as folhas acima dele pelo ar da noite, pois finalmente sentiu-se livre, saiu para caminhar pela cidade...

sábado, 16 de novembro de 2013

Intertextualidade


“Eu” – entre 
aspas – sou

que só assim
posso ser:

na travessia que leva
ao outro lado
da palavra

que não é minha
que não é sua
que não é nossa

vivemos 
entre
aspas

Todo mundo 
é todo mundo
ninguém é
ninguém

e qualquer
alguém
não é mera
coincidência

sexta-feira, 15 de novembro de 2013


      Desabou todo o seu peso sobre o banco, colocando a pesada mochila no colo. Agora podia descansar – por quanto tempo? – o quanto o tempo antes da chegada do trem lhe permitir, pensou, sentindo com a mão o zíper para ver se estava bem fechado. Pois a mochila estava tão cheia que tinha medo de que de repente ela tivesse se aberto enquanto corria – desviava-se – das buzinas, do sol incendiando o asfalto, dos membros rígidos lançados sempre adiante pelas ruas, inexoráveis... Suspirou com alívio. E viu ao seu lado um menininho, enrolando com as mãos um pião numa corda. Sua mãe, ao lado, observava o movimento ao redor, distraída. Então, quando terminou, endireitando-se, muito ereto e concentrado ele deu um impulso para trás com o braço e lançou ao chão da plataforma o brinquedo, que passou a girar em círculos, furioso. E agachou-se ao seu lado, os braços apoiados no joelho, as mãos unidas, olhando enquanto ele girava, girava, girava... Os lábios dele vibraram – um sorriso vitorioso abriu-se no rosto – o pião não parava – tinha conseguido. Mas quando o ruído sobre os trilhos chegou aos nossos ouvidos, antes mesmo que o trem parasse, sua mãe de repente o puxou pelos braços e correu com ele para o vagão para que pudessem entrar. E vimos, num último relance, entre pernas e braços, quando o trem já começava a deslizar mais uma vez, o pião abandonado na plataforma, ainda girando, girando, girando mesmo quando tudo já tinha se tornado escuro por trás da janela e nossos olhos depararam-se consigo mesmos ainda observando, em perplexa fixidez, o pião, com a certeza de que ele continuaria a girar por toda a eternidade – e que nunca mais nos seria permitido presenciar a sua queda.

     Acendeu o cigarro e escreveu: "Acordei hoje e ainda estava escuro. Tanta coisa eu gostaria de dizer pra você do sonho que eu tive. De como as notas do seu piano flutuaram pela porta aberta do seu quarto  eu ainda via luz acesa  e penduraram-se no ar acima de mim. Tornavam-se indistintas... Juntaram-se como nuvens. E escorreram degrau por degrau até onde eu me encontrava, parado ao pé da escada, sem forma, sem música, líquidas... Não tive coragem de subir. Será que chove hoje?". Pois, claro, sabia que podia ser o calor (podia sempre ser outra coisa). Além disso, gostaria de acrescentar agora, pensou, deixando a caneta de lado, que o ar está tão seco por causa do cigarro aceso que eu, também, no silêncio, sem música, paciente escuto-o queimando enquanto me sufoco em suas cinzas.

     É a ação da faca afiada, porém um pouco cega. É o tiro da arma que dispara de repente. É o sangue lavado da vítima. É a tinta da minha caneta agora. É a opressão do espaço vazio das páginas seguintes. E a ânsia e o desespero das palavras para ocupá-lo. É a falta de espaço. É o proibido. O ilegal. É a loucura, as narinas sangrando, os olhos abertos, as mãos inquietas e a alma errante. É o rascunho. E a preguiça com a necessidade de escrever.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013



     Foi só ao sentir a cicatriz na pele que ele de repente percebeu, olhando por trás da camada de si mesmo, que a ferida já não existia  e que existira um corpo. Em que momento tinha sido deixado para trás?, perguntou-se, abrindo caminho pelo matagal que crescera e que ocultava as pegadas que ele não se lembrava de ter dado. Encontraria-o caído onde o deixara  se no meio ou no começo, não sabia , coberto de folhas e gravetos, que lentamente  está morto? , como quem tira os cabelos da fronte, ele afastaria com as mãos para que o ar voltasse a soprar pelas narinas e os olhos se abrissem surpresos com a luz do sol. Era o indivíduo apenas; agora, seria mente-corpo, corpo-mente, mente que é corpo e corpo que é mente, mente corpórea e corpo mental, existindo como numa teia: se um fio do emaranhado bem tecido  fatalmente tecido  de mentes e corpos se rompesse, sabia que não haveria mais vida. Mas a essa altura, no entanto, encontrar-se-ia em algum ponto tão distante de onde tinha estado antes, num ponto tão além da trajetória, que o que era definir-se seria apenas uma questão de ser, aqui e agora, no corpo e nada mais... Em que momento o deixamos para trás?, perguntou-se, deslizando os dedos pela cicatriz.

     Naquela noite dançamos como se fossem nossos corpos que expressassem por si mesmos como sentíamos ser a nossa relação. Pois onde envolvia a possibilidade de amor, lá eu estaria, meu corpo movendo-se lentamente de um lado para o outro, indo para logo voltar, cauteloso, minhas mãos e braços girando em círculos – mas nada rápido, meus movimentos eram lentos – enquanto meus olhos o observavam sem, contudo, nada pedir, nada esperar, embora ansiassem – encapsulando em si mesmos aquele estado como uma forma eterna de se relacionar e sofrer. Que romântico foi – romântico demais. E ele ali, um contraponto, me observando enquanto abria as asas do seu sorriso, como um passarinho em pleno voo e, ainda assim, ciente de que precisa ter um ninho a que vez ou outra retornar, quando precisasse. E tal ninho era eu mesmo, aqui, ainda dançando diante dele, cujos olhos cresciam sobre mim conforme ele avançava – mas não perto demais, não perto demais. Caso contrário, tudo estaria arruinado entre a gente. E ele parou bem a tempo: a música chegou ao fim. E de novo eu soube que, da próxima vez, quando ele levantasse voo, o ninho seria outro...


quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Olhar


Ontem fizemos 
                              amor
                     com
                               meus
                                         olhos.

Escorregaram
                            pela
                  pele
                            do seu 
                                         rosto.

Afogaram-se
                         nos
            pelos
                       da sua
                                    barba.

Dançaram
                      na pon-
                 ta
                       da sua 
                                     boca.

Mas foi nos 
                       olhos 
             seus
                       que esqueci
                                               aqueles,

que eram meus.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O último cigarro



Sustento ao infinito, para o ausente, o discurso de sua ausência; situação em suma inaudita; o outro está ausente como referente, presente como alocutário. Dessa distorção singular, nasce uma espécie de presente insustentável: fico acuado entre dois tempos, o tempo da referência e o tempo da alocução: você partiu (do que estou me queixando), você está aqui (já que me dirijo a você). Conheço então o que é o presente, este tempo difícil: um puro pedaço de angústia
– R. Barthes, em Fragmentos de um discurso amoroso.


     Eu me lembro de ter ficado muito tempo assim. Mas, na verdade, não deve ter sido mais que uma, no máximo duas, horas. Dando voltas em torno da sala, contornando a parede enquanto media com o olhar o espaço que tinha sido deixado. Havia uma luz forte, eu me lembro bem. Era aquele momento do fim de tarde em que o sol irrompe num último grito lançando com toda a força que ainda lhe resta nos pulmões seus raios, que agora escorriam em agonia sobre o piso branco conforme as sombras já avançavam. Talvez tenha sido por isso que eu o tenha notado ali... Só percebi o que era aquilo depois de ter ficado parado alguns momentos, encostado contra a parede, de frente pra janela, com o olhar se acostumando com a claridade até seus contornos contra o piso tornarem-se distintos para mim.
     “É o último”, ouvi de repente a sua voz. 
     Parecia há tanto tempo agora, pensei, sem perceber que começava a dar passos lentos em direção ao centro da sala. Ao me aproximar, o reconheci imediatamente: a mesma marca – ainda inteiro. Como eu não o tinha notado antes?
     “É o último”, ouvi de novo.
     Segurei-o com cuidado entre o indicador e o polegar, como se tivesse encontrado a prova de um crime. E não sabia o que fazer: apagaria seu rastro ou a guardaria como futura evidência a meu favor? Pois eu nunca mais tive a chance de vê-lo pela última vez. Sabe aquele olhar, aquele último olhar, que nos marca para sempre quando, ao lembrarmos da despedida, visualizamos a imagem em nossa mente? Eu não pude tê-lo. Quando fecho os olhos, nada me vem à mente a não ser a própria ausência – a saudade – a formação de um final que não chega – sem ponto final – reticências. E a cada fechar de olhos eu sei que, ao abri-los, a visão estará sempre incompleta.
     “É o último”, ele disse, lançando o maço vazio sobre a mesa.
     Sobre o cinzeiro, uma montanha de cinzas e cigarros empilhados, desperdiçados, amassados no ímpeto da fúria da finalização de algum argumento, enquanto decidíamos o que faríamos com aquilo que se tornava um espólio cada vez maior entre nós dois. Revezamos o último cigarro passando-o um para a mão do outro. E pensando bem, agora, não me lembro das vezes em que o traguei, só da sensação de segurá-lo por muito tempo, e ele também: raramente encostamos nossos lábios no filtro, como se quiséssemos prolongar a sua existência, sem, contudo, fumarmos. Pois nós dois sabíamos o que aconteceria depois: quando ele saísse pra comprar um maço novo, não voltaria – e eu, claro, decidiria parar de fumar.
     “Quanto tempo se passou?”, eu perguntei.
     E já não acreditava que ele pudesse voltar, quando a campainha tocou. Levantei-me, caminhando devagar até a porta. Era ele? Não podia acreditar, embora eu ainda pudesse sentir o cheiro de fumaça do nosso último cigarro pairando no ar da sala. Mas foi só ao abrir a porta que eu realmente percebi, no rosto tão jovem diante de mim, que eu ainda achava que iria revê-lo. Aquele momento entre nós dois tinha me marcado não como se fosse o último, mas como um ponto a ser mais uma vez contornado, que o tempo tinha transformado em reticências cujos próprios pontos, por sua vez, minuto a minuto, cada um deles, estivesse prenhe da eternidade das grandes esperas que sobrevivem porque temem o próprio fim...
     “Tem mais alguma coisa pra carregar?”
     “Não, aquele era o último”, respondi. Mas quando ele já se encontrava em frente ao elevador: “Espera, moço!”, e perguntei: “Tem fogo?”.
     Fechei a porta e me virei para a sala vazia. Caminhei devagar até o seu centro. A faixa de luz que dividia a sala recuava sobre o piso branco. Escorria pelo vão dos meus dedos. Os últimos suspiros escapavam pela janela aberta para a cidade estrelada. Até que, por fim, tudo se extinguiu na escuridão. Por fim. 

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Epitáfio diário de um moribundo

(Texto experimental escrito em agosto de 2012.)


Me construa uma cidade, amor, 
e me coloque no último andar do prédio mais alto em um quarto pequeno,
 sozinho e isolado de todos.
Tranca a porta, por favor, dá duas voltas na fechadura.
Mas não joga a chave fora.



(I) Sonho

     A porta se escancara e vejo dois rostos de névoa dizerem, O gato cagou no copo? meu deus, meu deus, o gato cagou no copo!
o quê, gente? eu grito saltando do cobertor.
o gato cagou no copo e
  Acordo. Era só o som do gato miando enquanto estava sozinho na cozinha. Me aproximo e o puxo pra junto de mim, eu-gigante em frente ao gato que mia. 
que braços e mãos me agarram só porque eu mio? Como se miar fosse sintoma de uma necessidade e não uma forma de, como gato, miar? 
mas eu estou sozinho, sozinho. 
tire essas patas de mim, eu-gigante, que eu-gato não quero o querer
mas só 
                                    até                                                                   
                                                                          o meio.


(II) Um novo dia

     Um novo-mesmo dia de novo e eu-de-sempre me levanto pra arrancar sangue das minhas gengivas em frente ao eu-quem? que no espelho me olho sem querer ter acordado. Sangue, mais sangue, eu arranco
e cuspo.


(III) Um momento de lucidez

     O maior desafio é assumir um novo modo de ser porque a mudança é iminente. Como comprar cigarro, abrir o maço e calmamente jogar fora o lacre de plástico ainda que ele grude entre seus dedos
ainda estão suados?
e acender com o isqueiro da banca de jornais
como quem limpa o cu depois de cagar em público
porque você não tem fogo?

(IV) Odisseia

  O choro estridente de uma criança no metrô em mim 
mim-deitado no chão me debatendo
mas percebo chocado que estou caminhando pela calçada. 
Berrando, berrando,
 e todos passando e me olhando
louco louco louco
eles dizem 
mas eu
ainda entro no elevador e vou ao meu cubículo.
consigo sorrir? 
Tento e sai algo meio arranhado
um disco que se arranha na vitrola.
É um milagre, meu chefinho de trabalho diz,
sorrir?
q-que você tenha chegado c-c... 
fala, porra
é...
caralho, solta isso
c-cedo, né?
Eu sorrio.


(V) Ressaca

  Eu não tô muito bem hoje, física e psicologicamente.

Eu Acho Que Todo Mundo Devia Fazer Terapia, 
A Gente Fica Muito Ensimesmado Na Gente Mesmo,
Preso Em Nós Mesmos,
Sem Nos Abrir Para O Mundo.
[eu não sabia que p-p-ênis de gato ficava 
e-e-e-e-e-e-e-e-e-e
e-e-e-e-e-e
e-e-e-e-e-e
-reto.] 
Eu Faço Terapia Há Cinco Anos.

  Tô vendo.


(VI) Eu, aqui, ensimesmado 
(ou Pênis de gato fica ereto)

  Não me julgue se eu tô aqui falando em Odisseia e pensando em fazer uma referência a um Prufrock que em vez de não ousar interferir no universo está impregnado dele até os pelos do cu. Você quer brasilidade, você diz, você quer ser Mais-brasil, brasilidade-europeia, colonizado, é isso, porque não há, não há.
  Eu prefiro então me sentar no colo do Papai Noel e sentir o pau duro dele no meu bumbum sempre de hipoglós, agora, e depois me levantar pra rezar no presépio da minha tia-avó, que ainda (por cima) é natal. Não gosta, né? De ver o menino Jesus cercado de olhares que diziam que ele ia se foder por causa de uns bonequinhos que estavam ali em torno dele – a gente. E ele só queria ser um menino sem estar na cruz e sentar no colo do Papai Noel rebolando com ingenuidade no pau dele.


 (VII) Um adendo

  Não tente me entender, porque eu já me deixei de me fazer hermético.


(VIII) Sambando no ar?

  Posso até estar bêbado demais, mas a ambulância passou atrás de mim e eu senti a sua sirene gritar em meus ouvidos do esquerdo pro direito e eu ir junto. Eu ir junto longe de mim. Mas quando eu fui me deparei com os rostos dos paramédicos me olhando e dizendo Não vai viver, não vai viver, não vai dar tempo.
Tempo, mas tempo pra que se
Não, morre
Eu não sei morrer, me deixa morrer
Morre a não ser que você
que eu o quê?
Adianta tautologia a uma hora dessas, adianta? Adianta dizer se
eu, nada, eu que não quero ser
não sabe morrer?
Esse barulho de merda em meus ouvidos, prefiro morrer

  Mas vejo. Não. Eu não me vejo. A não ser o meu reflexo no vidro do ônibus sacolejando cheio de pecinhas que são todas eu. Gorda-maldita-que-ocupa-espaço. Gatinho-gostoso-que-não-me -encoxa. Criança-infernal-maldita-que-não-para-de-falar. Preto-filho-da-puta-que-não-desliga-essa-porra. Mas eis-me aqui tagarelando.


(IX) Depois do ponto

     Eu sempre durmo depois do
                                             sempre sempre além do
                                                                                  depois do
                                                                                           merda, meu
.
                                                                                                                     passou


(X) De volta ao lar

     E se cada ponto fosse algum do tecido da minha vida, esse mar feito de ondas que são cada uma um dia e que ao chegar em terra firme (será que chegam?) estouram num espasmo – eu teria que desfazer todos os pontos para tecer um novo tecido. E navegaria como quisesse nas ondas. Mas no dia seguinte sei que eu tenho que vestir de novo meu terno e que eu tenho que e eu tenho que. E então ao chegar em casa me a
   f
     o
  g
     o 
     no álcool pra suportar minha morte a.m.a.n.h.ã.

rascunho (I)


     Tirei da minha mochila meu caderninho de notas. Tinha acabado de chegar da minha cidade, no interior, e estava dentro do trem do metrô. Observava as pessoas ao meu redor – todas com os olhos cansados, sérias, recipientes da própria dor: era quarta-feira ainda. Vi um menino da minha idade, da sua blusa quadriculada – preta e cinza, preta e cinza, como os seus dias – o crachá gasto da empresa pendia sobre a barriga. Encostado, a cabeça no vidro, dormia. Uma mão metade no bolso, a outra segurando com abandono uma bolsa que tocava o chão do vagão. Li aflito: "Romantic", e um coração bordado logo embaixo... Cansado e solitário, estava indo para a casa depois do dia de trabalho. Não tinha se importado em tirar o crachá – pra quê? E por acaso ele sabia o que significava o que estava escrito na bolsa? E isso, também, importava de verdade? Não. A minha visão, na tentativa de revelá-lo, o ocultava: eu não sei como ele se sente. E quando o trem parou, ele esfregou os olhos cansados e levantou-se, sorrindo para outro alguém que o esperava na estação e abandonando o vagão em sua trajetória preta e cinza, preta e cinza, preta e cinza como os dias que se seguiriam para mim – pois como posso dizer "para ele"? – nesta cidade.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

quarta-feira, 21 de agosto de 2013


Para Bruna.


     "Mas acho que o que eu mais quero", ela disse, "é que as pessoas sintam quando lerem meu mangá", e virou-se mais para si mesma do que para a quem dizia: "Eu sei que cada uma vai sentir algo diferente, mas, enfim", e suspirou, tirando um cigarro do maço. "Não sei explicar isso", acendeu-o, "mas deixa eu ver", tragou fundo e lentamente, olhando para a luz amarela do abajur que envolvia os dois ali, soltou a fumaça. "Sabe quando você lê alguma coisa, ou ouve alguma música, e você se sente abraçado por elas?" A fumaça do seu cigarro circulava entre eles, sob o círculo de luz. "Tipo quando eu leio Cecília Meireles, eu me sinto muito abraçada pelas palavras dela, e por ela. Eu sei que é meio estranho", e parou, observando a fumaça dissipar-se no ar. "Mas até mesmo quando escuto algumas músicas eu sinto essa sensação de abraço." E então, encostando-se nas almofadas, com o cigarro pendendo abandonado entre os dedos, fechou os olhos e viu a luz amarela fixada em suas retinas. "Agora, por exemplo, eu tô escutando uma que me faz sentir assim."

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Pelo avesso


     Os lábios tremeram; a boca entreabriu-se. Algo borbulhava – o que era? – no peito subindo lentamente – um grito, um choro, uma risada? – pelo canal que tinha sido aberto até – era agora – até ele se afastar. 
     Dessa vez foi por pouco, pensou. Mas, mesmo estando de volta, caminhando entre todos os demais ali, se fechasse os olhos ainda visualizava em sua mente a cabeça pendendo quebrada no pescoço, a mão espalmada na boca, os olhos escancarados – e sabia que ainda estariam lá: congelados até que ele voltasse e lhes desse continuidade diante do espelho. 

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Um dia


     Neste dia, quando acordou, encontrou a sua identidade bem diante de si. Tomou-a em comunhão e dançou, dançou, dançou com ela em seus braços, sozinho sob o teto ensolarado do seu quarto. Mas ao abrir a porta para sair, num assalto o vento de repente a descolou de sua pele como uma folha se desprende de uma árvore... Com um grito, correu na chuva atrás dela, tentando alcançá-la, prendê-la no espaço vazio que tinha sido deixado, embora não a enxergasse, não soubesse pra onde ela tinha ido. Perdido na névoa do seu fôlego e na chuva dos seus olhos, foi só ao parar que finalmente a reencontrou: o tempo todo ali, bem debaixo de seus pés, na poça de água, sorrindo mesmo enquanto chovia. 

terça-feira, 18 de junho de 2013

Ao vencedor as batatas?


     Caminhavam entre gritos, apitos, pulos, palmas e sorrisos. Muitos cartazes, oscilando entre o asfalto e os arranhas-céus, da realidade ao seu simulacro, dos vinte centavos à corrupção, temperados vez ou outra com vinagre. E as bandeiras também oscilavam: muitas, em verde e amarelo, embalavam esplendidamente os corpos daqueles que, sonâmbulos, caminhavam enquanto dormiam. Já outras carregavam o emblema do posicionamento crítico, ancorados no real, mas que lhes impingia o estigma diante dos olhos remelentos dos primeiros, que, embora sonhassem – e talvez justamente por isso –, desejavam controlar a narrativa do próprio sonho: egos embalsamados na bandeira que queriam impedir a todo custo que o inconsciente a rasgasse e o pesadelo, na figura do Outro, irrompesse.
     Caminhar por ali era caminhar sob o risco então de a qualquer momento ter o pé sugado num redemoinho – era preciso cautela. Mas ao passar diante dos espelhos de um prédio, por exemplo, ou mesmo subir no alto de uma árvore, e observar a quantidade de pessoas – quem são eles? – que estavam envolvidas no que estava acontecendo – o que está acontecendo? – era impossível não lançar as boias para longe e permitir-se mergulhar.
     E quando passávamos em frente aos carros da PM com que nos deparávamos pelo caminho, tão potencialmente repressores em seus uniformes inchados e com as mãos másculas sobre as armas, gritávamos: “Ah, que coincidência, sem polícia, não tem violência!”. E não notamos que na verdade eles estavam o tempo todo ali, ainda que mantivessem – ou talvez agora seja a memória cooptando as lembranças – o olhar distante e vago em algum ponto meio torto no horizonte da paisagem, o único a que eles deviam prestar atenção naquele momento. 
     Pois foi exatamente assim que no final nos vimos ser levados para campos vazios, vastos, risonhos e lindos campos floridos – pastos a serem ocupados por nós mesmos. Resta saber agora, gados confusos, se nos alimentaremos para o abate que longe daqui se tornará banquete – ao vencedor as batatas? – para aqueles que sentirão o gosto de espetar o garfo na massa abatida de carne mal passada, vendo o sangue transbordar, antes de mastigarem de boca aberta, pois estarão rindo entre si de boca cheia.


     Fazendo a baldeação como sempre no metrô hoje. Tava tão cansado que sem querer esqueci. De repente ouço gritos atrás de mim – instintivamente me viro assustado, alerta. Então palmas, sorrisos, pulos: todo mundo se congratulando sem dizer nada. E eu também, tendo agora me lembrado de que a partir de hoje não pode ser como sempre. Não dá pra se sentir sozinho quando a gente percebe que cada um de nós, aqui, no lugar que ocupa, é diverso, mas não alheio.

domingo, 16 de junho de 2013

Vênus entrou em Câncer


     “Vênus entrou em Câncer”, o seu amigo lhe diz. Agora tudo faz sentido, você pensa, deitando-se na cama após acender um incenso e pensando que mão poderia repousar sobre o seu peito, ofegante, o seu peito, dizendo-lhe: Calma, eu tô aqui, e você dorme – até acordar num sobressalto porque alguém bate na porta do seu quarto. Você levanta, olha o incenso ainda aceso, Mal dormi, pensa, e abre a porta: é ele. Você o deixa entrar, fecha a porta ofegante, ele põe a mão no seu peito e diz: Calma, eu tô aqui, sim, é exatamente o que ele diz, mas ao deitarem-se na cama e tirarem a roupa, você sabe que depois será deixado nu, enquanto ele se vai vestido. E se lembrará então de que Vênus entrou em Câncer e acordará sobressaltado do pesadelo, depois cansado e triste, enrolando-se na coberta e sentindo seus próprios braços em torno do corpo. Mas enquanto sonha, finalmente desperto, verá os planetas transitarem pelas órbitas do seu eixo: seus olhos, dois sóis. 

sexta-feira, 7 de junho de 2013

O lutador

     
     “Quase dois meses?”, ele perguntou, sentando-se enquanto eu abria o vinho.
     “Acho que sim – aceita?”, perguntei logo em seguida, indicando-lhe o copo. “Não tenho taça”, disse.
     “Não posso, amanhã eu vou acordar cedo.”
     Bebi um grande gole, e enchi mais. Na cozinha, ouvíamos o som que vinha do meu quarto. “Oh, kinder ways to your garden”, tocava.
     “Tá olhando o quê?”, ele perguntou.
     Eu estava olhando pra ele? Não tinha notado.
     “Você”, respondi, embora o que ele era eu nunca pude saber. Desviei meu olhar.
     “Vamos pra música?”, ele disse, levantando-se.
     Tão logo entramos no meu quarto e eu fechei a porta, suas mãos envolveram a minha cintura e puxaram-me para perto dele. E embora eu já tivesse tirado minha camisa, tive o cuidado de não lhe mostrar as marcas que tinham sido deixadas depois de cada partida. Pois lentamente, sim, mais lentamente que nossa disposição nos momentos da luta aconteceram os nocautes que levei. O último tinha sido há quase dois meses. Assim éramos nós dois: lutadores que se esforçavam em vão para desviar-se dos golpes um do outro. Ou talvez, pensando melhor agora, essa metáfora não fosse minha. Esportista, atlético, lembro bem quando ele tinha dito que gostava de lutar. E eu, claro, já na primeira vez mostrei-me disposto a ser imobilizado, nocauteado, deixado ainda no ringue – o tempo todo estive no ringue – até que ele voltasse mais uma vez.
     “Pode gozar, acho que não vou conseguir”, eu disse enquanto sentia todo o peso do seu corpo em cima do meu.
     “Gosto de gozar junto, eu espero”, ele respondeu.
     Mas eu não conseguia. E ele então parou. Tirou a camisinha e lançou-a sobre o chão.
     “Você ficou estranho do nada”, ele disse.
     E de repente eu me senti como um lutador que, em pleno round, recebe a notícia de que a luta tinha que ser cancelada. Sem saber o que fazer agora, via do lado de fora do ringue as luvas que ele mesmo tinha lançado ao chão.
     Depois que ele se despediu, voltei para o meu quarto pensando até quando, meu deus, até quando então eu teria que aguentar essas marcas no meu corpo. Será que um dia iriam embora?, perguntei-me, parando diante do espelho para checá-las. Tirei a camisa. Com a luz do quarto apagada, mal dava pra notar. Talvez ele não tenha notado então. Seria diferente, por exemplo, se a luz estivesse acesa – tateei a parede em busca do interruptor ao lado do espelho – ficariam tão nítidas aos seus olhos – encontrei e acendi – e me observei de cima a baixo, perplexo com o fato de que não havia marca nenhuma. Pois se nunca houve adversário, tampouco houve luta.
     Deitado na cama antes de dormir, senti que se ele voltasse novamente eu ainda estaria aqui, mas dessa vez a metáfora não seria só dele: eu também gosto de gozar junto.

quinta-feira, 30 de maio de 2013


     Nas alturas de nossa embriaguez, ele continuava dizendo que todo mundo é louco, e eu lhe dizia que sim, sim – todo mundo é louco. As pessoas são incompreensíveis, nada é como esperamos que seja. E enquanto observávamos, preocupados demais com a qualidade do metal que encontraríamos sob a terra, no final nos vimos no meio de uma terra que nós mesmos devastamos. A festa tinha acabado então. Pois se todo mundo é louco, eu lhe dizia na volta, com os bolsos vazios, isso nos torna mais loucos ainda.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Um buraquinho pequeno desses


Culturalmente, não se olha pra quem está com roupa rasgada – eles não existem
– Maria Elisa Cevasco.   


     Um buraquinho pequeno desses, ninguém notaria. As mentes que ocupavam aquelas ruas, por exemplo. Estavam ocupadas demais consigo mesmas. Pois se não notam nem mesmo os trapos desse homem, coitado – antes mesmo que abra o buraco negro e sem dentes dou-lhe alguns trocados –, que fica diante do prédio, dia após dia, um buraquinho desses...
    “Bom trabalho”, ouvi um colega dizer quando eu descia do elevador. “Ah, não sei se percebeu, mas sua roupa tá rasgadinha atrás.” 
     Tão logo a porta do elevador se fechou atrás de mim, saí correndo como se um buraquinho pequeno desses pudesse se escancarar a qualquer momento e me engolir, como um buraco negro e sem dentes, antes mesmo que eu chegasse a minha sala.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Devaneio solitário (II)


     Nesse horário costuma estar vazio. Os olhos dos prédios se acendiam sonolentos, os motores dos carros bocejavam no ar frio da manhã, os autômatos pelas calçadas ainda friccionando os membros para tirar a ferrugem da noite anterior, embora pela janela eu visse apenas o interior vazio do ônibus. 
     Por um momento, então, ele parou. A porta se abriu. E um passageiro apareceu, passou pelo cobrador que dormia – sua cabeça pendia abandonada ao ritmo espasmódico dos freios – e chegou tão perto de mim que pensei que fosse se sentar ao meu lado. 
     Mas ainda bem, meu deus, que nesse horário costuma estar vazio.

Devaneio solitário (I)

     
     Quando fico acordado de madrugada sem conseguir dormir, tomo uma xícara de chá, sentado à mesa da cozinha. E de repente, da porta dos fundos, um ladrão se destaca da escuridão e me encontra aqui, sozinho... Mas então por que, em vez de seguir com seu intento, ele não se senta ao meu lado e aceita também uma xícara? 
     “Aposto que você nunca teve uma experiência desse tipo”, eu lhe diria, indicando uma cadeira.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

ovo


     Pouco importa se o que veio antes foi o ovo ou a galinha, ele tinha dito então. O fato é que quando o pintinho sai, o ovo já não existe. E quando a galinha se forma, pouco da experiência de ser pintinho lhe resta na memória... Não há origem nenhuma! A verdade é que nós nunca superaremos nosso próprio nascimento. 
     E dizendo isso, todos avançaram sobre ele, arrancaram-lhe as penas, quebraram-lhe o pescoço e degolaram-no. E eu os encontrei mordiscando a pontinha de uma pena enquanto observavam o sangue do corpo pendurado de cabeça pra baixo cair, gota a gota, sobre uma bacia. Saí exasperado de lá, mas quando me virei para um último olhar, vi cascas de ovo sobre o chão. E percebi, chocado, que penas já me escapavam pelas mangas da camisa. Era tarde demais então: tinha cacarejado, e eles me viram.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Mais-valia


     Tão doce, pensei, acariciando com o indicador meu nome que ele tinha escrito no copo – com “h”?, ele perguntou; tão gentil, pensei, saboreando nossa lembrança devagar para que nunca acabasse – com um pequeno acréscimo você leva o grande, ele disse –; tão romântico que só depois do último gole percebi, enjoado, que meu amor pelo jovem atendente apenas foi possível porque teve o preço excessivo de meio litro do meu amor próprio – vendido ou comprado?

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Escritomancia


     Se eu decidir continuar seguindo estas linhas, aqui, vou adivinhar nosso destino? Borrão aguado sobre as letras, palavras espumantes sobre o papel – mas tão rápidas elas diluem depois da queda! E a caneta, exausta, vai-se embora pelos vãos dos meus dedos. Porque, meu querido, por mais que eu esprema, não adianta: desta tinta eu não quero o seu amor.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Velório


Não sinto nada... 
Sinto as minhas sensações como uma coisa que se sente...
Quem é que eu estou sendo?...
Quem é que está falando com a minha voz?...
Ah, escutai...
– trecho de O marinheiro,
de Fernando Pessoa.


     O pensamento é suspenso no azul-vazio desse céu, o sol não aquece do vento frio do final desta tarde. Mas lá dentro, o ar parado pulsa em ondas – é possível vê-las – que vêm quentes pela porta escancarada, convidando a entrar quem está em seu limiar. Pois ali, o corpo.
     É um lugar abafado. As velas acesas refletem nos ladrilhos cinzentos das paredes e do chão um calor morno. Meia dúzia de pessoas sentadas nos bancos. Suas mãos se revezam entre o terço e o lenço, o terço e o lenço. A mão que toca o terço é a mesma que sente a prova irrefutável da materialidade do corpo escorrer entre seus dedos. E assim ocupados, não viam ninguém se aproximar. Pois ali, o corpo.
     Mas há vozes. Vozes sussurrando, vozes sussurrando no silêncio. O que dizem – o que dizem? São três senhoras. A primeira é igual à segunda que é igual à terceira. E tão desconexas estão entre si que insistem em se encontrar, entre pequenos gestos e olhares insistentes uma para a outra, inevitavelmente por meio de sussurros. 
     “Foi melhor assim”, emenda a primeira.
     “Ninguém sabia como ela estava...”, diz a segunda, receosa. 
     “Sim, ela era sozinha...”, vacila a terceira.
     “Como ela deve estar agora?”, pergunta a segunda.
     “Ela queria morrer”, diz a primeira.
     “Ela queria morrer”, repete a segunda. 
     “Mas por quê?”, pergunta a terceira.
     Mas ali...
     “Ela deve estar melhor agora”, arrisca a segunda.
     “A gente tem que acreditar”, insiste a terceira.
     “Só assim isso faz sentido”, conclui a primeira.
     Tudo assim assentado, agora, as três senhoras empunham seus terços e incidem os olhares bruxuleantes para velar, ali, o corpo. Cercado de flores brancas que o ocultavam, pronto para ser levado para – para – para onde? Pois ali, o corpo. O corpo, apenas...
     Oco! – o quê? – é oco!, grita a voz – de quem, agora? Pois os buracos – tantos buracos – que contrastavam com a palidez baça – sim, baça! – nem cuidadosamente tapados – uma gota seca de sangue no canto de uma narina, as pálpebras estiradas sobre os globos salientes na cavidade negra ao seu redor, a cola enrijecida entre os lábios para sempre cerrados – nem cuidadosamente tapados escondem o escuro-vazio por trás da casca. Pois ali, o corpo. 
     É oco!, grita a voz. Mas ninguém escuta. Ninguém escuta... É preciso fazer alguma coisa com ele, pois as velas queimam a si mesmas apenas para serem consumidas até o fim. É preciso – oco! – tirá-lo daqui. É preciso – oco! – resgatá-lo... Eu então mergulho dentro dele, escorrego por suas cavidades – por quê? – porque escuto, porque vejo: oco! oco! oco! 

     O pensamento é suspenso no escuro-vazio desse céu, a lua não ilumina o caminho até em casa nesta noite. Mas lá dentro, as velas insistem no artifício – é possível vê-las – que as faz queimar mesmo não havendo enterro nenhum. Pois eu, aqui, no corpo.

sábado, 13 de abril de 2013

Labirinto

     
     Eu poderia dizer algo sobre aquela luz amarela, ali, brilhando no escuro. É só o que eu posso enxergar, aqui, sabe? Posso tentar me aproximar dela, roçar sua pele translúcida com alguma palavra qualquer, tal como: “eixo”. Pois os pelos de minha mão se arrepiam, apontando para o seu centro – é isto: “centro”. 
     Se me aproximo, me vejo, se me distancio, meu corpo se esfacela no escuro e passo a ser apenas uma presença no negro interior desta página em branco – pois quanto mais se roça, mais escura fica. É sério, eu já fiz a experiência. É o que esconde toda página em branco. E de repente percebo que já está acontecendo, claro. É assim: se resolvo me calar, morri; se começo a escrever, vejo a luz amarela, ali, brilhando no escuro. Há sempre dois caminhos: ou toco, e alguma coisa acontece, ou me distancio, andando por algum caminho qualquer, pois é constante, aqui, correntes de ar que indicam na escuridão que posso seguir para qualquer lado que quiser. Mas sempre tão frias, as correntes, que não me afasto muito da luz, embora, é claro, sem nunca tocá-la. Apenas roço: “eixo”, “centro”, como numa espécie de limbo – é isto: “limbo”.  
     É engraçado. Sempre, nunca, agora, de repente, percebo que aqui é sempre ou nunca a primeira e a última vez. Pois as coisas acontecem aqui também. Sinto agora uma forma esférica em minhas mãos, mas nunca ousei aproximá-la da luz para saber o que é. No escuro, deslizo a pontinha do indicador por sua superfície e sinto-a um tanto fria; aperto-a então fechando as duas mãos em torno dela, até ficar bem quentinha; cheiro, e isso me dá desejo; mordo um pedaço – que gosto tem? – continuo comendo – parece familiar – devoro até o caroço como nunca. É sempre assim. É o que me faz continuar aqui. De repente, sinto que estou comendo escondido, embora esteja aqui há tanto tempo que sei que não tem ninguém de quem esconder – mas tenho medo e apenas roço: “eixo”, “centro”, “limbo”, sozinho, falando comigo mesmo – é isto: “comigo”.
     Talvez seja isso que me dê medo. A luz, ali, por exemplo. Quanto mais me aproximo, mais me vejo, daí que, estando comigo, sei exatamente o que estou querendo dizer enquanto digo. Caso contrário, sai isso. E então me canso e, tudo devidamente devorado e roçado, eixo-centro-limbo-comigo, finalmente, paro. Mas não acaba aqui: de repente sei por que paro: não havia outra saída a não ser tocar a luz, ali, brilhando no escuro. Mas como saber, se eu apenas roço? – é isto: eu apenas roço.
     Agora assim, depois de tudo dito, acho que eu entendo. Sei o que eu tenho que fazer. Desarmado de palavras, toco a luz – é isto.
     
     As pessoas eram estátuas de mármore que se erguiam para observá-lo do alto como gárgulas. Elas sabiam – e ele podia saber por isso, confirmar todos os seus medos e inseguranças para então poder esperar o cuidado – pois inevitável, fatal, incontornável ponto do que se chama “a minha personalidade”, pensava – do outro. Ainda que, é verdade, tal ponto era nada mais nada menos que– mas antes que soubesse ele o contornava inevitavelmente, para a sua própria fatalidade: dava voltas em torno dele, erguendo árvores e flores – tantas flores – laboriosamente, sim, em torno dele, estendendo tapetes de relva e amanhecendo ou anoitecendo conforme o sono desse outro, erguendo luas e sóis de papel presos num cabo de madeira que ele segurava – julgava – com muita discrição. Como uma criança brincando de faz-de-conta, tinha talento para tornar as coisas eternas: inventava estações, prolongando primaveras e invernos, fazendo chover a seu bel-prazer, para esconder as imperfeições do tempo em seu cenário.

domingo, 24 de março de 2013

Rito da comunhão

     
     E ali ele se prostava nu e pálido, as pálpebras fechadas enquanto as luzes verdes azuis vermelhas amarelas deslizavam pelo seu corpo. E de suas mãos estendidas dolorosas flores se derramavam em abundância – oferendas do seu próprio sacrifício. Era como uma figura num vitral; ninguém duvidaria de que ele estava ali para redimir a humanidade de seus pecados.
     “Venham colher das minhas flores.”
     Um dia, é claro, vieram. Mas sem cuidado. Pois se colocando assim tão rico, tão aflorado e abundante, o seu corpo era um imenso jardim, à espera de um jardineiro que não plantava, que não podia plantar: era sempre tempo da colheita. Vivia, sim, numa eterna primavera. E como tal, estendido enquanto se sentia ser deflorado até o fundo – Cristo-passivo –, quando ele se foi tornou-se terra seca e dura, além do poder restaurador de qualquer outra estação.

domingo, 17 de março de 2013

Tá tudo OK?

     
     Nas cadeiras de plástico da sala de espera do hospital esperávamos todos o atendimento. Eu ouvia a voz da enfermeira idosa que caminhava entre as macas dos feridos, convalescentes e enfermos perguntando: “Tá tudo OK?”. 
     Um senhor levantou-se ao ser chamado, caminhando muito devagar, meio manco – ao passar pela janela de vidro sua sombra anuviou os rostos das duas crianças que por um momento não riram mais – elas também esperavam – até ele entrar. A luz do final da tarde voltou a bater sobre o piso frio e esterilizado. E elas voltaram a brincar, rindo. 
     “Tá tudo OK?”, ouvi distante.
     Mas eu fiquei pensando o que eu poderia fazer com essa coisa gorda e inchada, aqui, jogada sobre o meu colo, cheia de músculos e nervos, pedindo – cardíaca – pelo meu próprio sangue para que começasse a bater.

sábado, 2 de março de 2013

     Não de novo. Levanto, coloco uma música qualquer pra abrir a manhã – a luz mal entra no quarto quando abro as cortinas – céu cinza é mar de ressaca – bebi demais ontem. Mas há alguma coisa, sinto, e ponho a mão num ombro como se o massageasse. Um café, vou fazer um café. Mas não consigo me lembrar, embora saiba que há alguma coisa ainda – o que é? Não sei, não sei, penso, deixando a pia jorrar ao máximo enquanto lavo a garrafa térmica do café pra água apagar o rastro da lágrima da noite anterior.

domingo, 13 de janeiro de 2013



      A mariposa circulava em torno da lâmpada batendo insistente, ansiosa, contra ela em busca do seu calor. Era uma busca que, eu sabia, causaria a sua própria morte. Eu estava pensando nisso, quando finalmente ele abriu a porta.
      Mas quando entrei, e num último relance a vi caindo fulminada no chão enquanto ele fechava a porta atrás de si, nada fiz até que me perguntasse se eu não queria tirar o meu casaco e se não precisaria de uma toalha para me secar da chuva. E nos sentamos para ver um filme tomando vinho até que amanhecesse, e nós dois dormíssemos nos braços um do outro deitados no sofá depois de fazer amor, e a TV se desligasse sozinha.
      “Sim, nos falamos”, respondi. Ele fechou a porta atrás de mim, enquanto eu já me virava para descer os degraus. Olhei pra baixo: vi uma asa dela escapando da sola do meu tênis. E soube então que carregaria seus restos comigo. Mas se é só assim, pensei, que a gente consegue continuar caminhando

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Meu filho e o amigo dele



     As compras caíram do seu braço e se esparramaram pelo chão. Droga! A gata sempre ficava parada atrás da porta, não tinha culpa se sem querer pisava nela quando chegava!
     “João!”, gritou. “Por que você nunca acende as luzes?”
     Mas não houve resposta.
     “João Vítor! Que saco...”
     Apertou o interruptor ao lado, fechou a porta da entrada e observou o estrago. As laranjas tinham se espalhado pela sala, a sacola estourada.
     “João, vem aqui me ajudar com as compras!”
     Deve estar estudando, pensou. Tinha comprado bastante coisa para fazer um jantar para eles. Sentia que era isso que andava faltando: mais tempo para que ficassem mais próximos, como uma família. E para que João se abrisse mais sobre seus sentimentos. Podia perceber como ele se sentia sozinho enquanto ficava horas trancado em seu quarto, ultimamente mais calado que de costume. Na verdade, isso andava acontecendo desde o divórcio. Tinha até cogitado com seu ex-marido levá-lo a uma terapeuta. Pois, apesar de toda a sua displicência para com os dois, ele também tinha percebido e comentado sobre isso na última vez em que tinham se falado pelo telefone. Mas agora não ligava há mais de uma semana... Melhor assim! Ela podia lidar com a situação sozinha. Não era verdade que nunca tinha deixado faltar nada em casa?, pensou, enquanto tentava tirar uma laranja das garras da gata, que rolava pelo chão brincando com ela, até de súbito arrancá-la. Quando aproximou sua mão para acariciá-la, assustada, ela saltou para longe.
     “Eu não ouvi você chegar, mãe”, ouviu a voz de João atrás de si.
     Virou-se para vê-lo. Mordia um lápis entre os dentes. Devia estar estudando mesmo, ela pensou, observando o olhar cansado e preocupado que ele tinha quando retirava os olhos do livro para olhá-la, como se sua mente ainda se prendesse ao que ele estava lendo. E, apesar da satisfação em se lembrar de que seu filho era um menino estudioso e esforçado, não pôde conter o tom de leve repreensão em sua voz quando perguntou:
     “Você não me ouviu te chamar?”
     “A gente tava concentrado. Desculpa”, ele disse, retirando o lápis dentre os dentes. Era um hábito dele, esse. 
     “Ah, você não tá sozinho?”
     “Eu trouxe um amigo do cursinho pra estudar.”
     “Hum. E eu conheço?”
     “Acho que não. Ele é novo lá. Tá no banheiro agora. Mas ele é legal, depois eu chamo–”
     “Ah!”, ela exclamou, de repente vendo-se apertar o seu filho com força junto de si. “Eu te amo tanto, tanto!”
     E ao olhá-lo, deparou-se com aquele olhar ainda preocupado, mas dessa vez tão parecido com o de seu ex-marido, nos raros momentos em que ele de fato a olhava – isso no começo do casamento, claro – e perguntava: “Tá tudo bem? Você chegou tarde hoje. Fiquei preocupado”, sentindo todo o seu cansaço se dissipar no aperto tímido dos braços dele.
     “Sim, tá. Eu passei no mercado, comprei bastante coisa pra gente. Hoje vou cozinhar, e amanhã é o meu dia de folga e pensei em passarmos mais tempo juntos. O que você acha?”, perguntou, beijando-lhe a testa, ainda o apertando entre os seios.
     “Mas você não tá muito cansada pra cozinhar?”
     “Não, eu quero, filho. Quero passar mais tempo com você.”
     De repente, ela ouviu a porta do quarto dele se abrir e ali, no final do corredor ainda escuro, a silhueta de alguém aparecer. Era o amigo dele. Ao ser flagrado observando um momento tão íntimo entre os dois, ela percebeu satisfeita, ele ergueu uma das mãos num breve aceno e entrou mais uma vez no quarto, fechando a porta.
     “Vou voltar pros estudos, mãe”, João disse. “Posso chamar ele pra jantar com a gente, também?” 
     “Claro que pode, João”, ela respondeu. “Que pergunta, filho!”, e sorriu.
  
     Ela sabia que João adorava a sua lasanha. E há tanto tempo não fazia para ele! Resolveu ir até o seu quarto e colocar uma roupa mais leve, enquanto o molho fervia um pouco. Tinha que ser rápida – logo ele começaria a espirrar, e tinha perdido a tampa daquela panela. O fogão ia ficar uma sujeira, pensou. Mas, andando rápida pelo corredor, viu a porta do quarto dele fechada. Nenhum som vinha de lá. Deviam mesmo estar concentrados, pensou, e não pôde conter o desejo de abrir a porta para ver o que faziam. Ao se aproximar, no entanto, percebeu que uma fresta estava aberta. 
     “Em que ano começou a Primeira Guerra Mundial?”, ela ouviu a voz do amigo dele perguntando.
     “Ah, mas isso não cai em nenhuma prova!”, João respondeu. 
     Ele estava rindo.
     “Você esqueceu, né?”, o outro perguntou com sarcasmo.
     “Não, começou em 28 de julho de 1914. E acabou no dia 11 de novembro de 1918”, e acrescentou rápido, num tom competitivo: “Minha vez: e quais foram as causas?”.
     Tinha puxado isso, dela. Ela também era muito competitiva.
     “Todas?”, ele perguntou. “Tá: corrida armamentista, imperialismo, nacionalismo, autocracia... Ah, não dá responder assim!”
     João riu de novo. Parecia estar se divertindo.
     “Tem razão, peguei pesado. Vamos fazer assim: a gente escolhe alguma questão que caiu e daí perguntamos um pro outro, e o outro responde com o melhor que puder. Só pra praticar...” 
     Era melhor não interrompê-los. Mas, virando-se para sair, de repente a porta se abriu mais, e João percebeu que ela estava ali parada, observando-os surpresa. Era a gata que tinha passado por baixo dela e aberto mais a porta para entrar.
     “Desculpa, filho, não queria interromper vocês”, disse, sem graça. “Só queria perguntar se seu amigo gosta de pimentão. Eu sempre coloco, mas nem todo mundo gosta, né, então...”
     “Ah, não tem problema...”, ouviu a voz do amigo dele responder, oculto atrás da porta. 
     “Mas você não gosta?”, João perguntou, tirando o lápis dentre os dentes.
     “Não muito, mas não me importo, mesmo”, ele disse mais uma vez.
     “Ah, que bom!”, ela exclamou. “É que eu já tinha colocado, depois que eu pensei nisso. Que bom, então!”, e saiu, vendo os olhos de João a acompanharem um pouco surpresos.
     Entrou em seu quarto, pegando um vestido qualquer para voltar à cozinha. Que ideia, pimentão! Mas não pôde pensar em outra coisa. Não deviam tê-la visto. Estavam empenhados estudando. Talvez ela pudesse ajudá-lo também, caso ele precisasse. Conseguia se lembrar de algumas coisas sobre a Primeira Guerra Mundial... E queria muito que ele conseguisse passar no vestibular, já era a sua segunda tentativa, embora não pudesse deixar de sentir um frio na barriga ao pensar na ideia. 
     Claro, ela sabia que isso seria importante para seu amadurecimento. Pra ela mesma foi, quando saiu da casa dos seus pais para fazer faculdade, quando era mais comum homens fazerem faculdade e mulheres ficarem em casa. Lembrava-se das inúmeras cartas que sua mãe lhe mandava, cheia de saudades e lágrimas e apelos insensíveis para que voltasse... Isso ela não faria com ele. Não queria ser esse tipo de mãe, embora entendesse a saudade que a sua sentia.
     Na verdade, já sentia cada vez mais, conforme João crescia, que os dois se tornavam mais distantes. E sabia, como já ouvira da própria mãe, que “a gente cria os filhos para o mundo”. Para a vida..., pensou, observando-se no espelho e de repente atentando para as rugas de preocupação que se tornavam cada vez mais distintas no canto dos olhos. Não queria acabar velha, sozinha. Não que ansiasse por se casar novamente, também. Por um bom tempo queria ainda viver para si mesma e, afinal, ainda era jovem. Um dia, quem sabe, encontraria um companheiro para lutar ao lado dela na dura batalha que é a vida. Batalhas, na verdade... Como uma guerra, mesmo, pensou, rindo do próprio pensamento dramático, enquanto fechava a porta do quarto atrás de si e caminhava pelo corredor. E quanto a João, não importava o que fizesse, ele teria as suas próprias batalhas, e algumas, ela sabia, ele teria de lutar sozinho, por mais que lhe doesse pensar assim. Mas ela tentaria estar sempre ao lado dele.
     Foi quando, então, da porta entreaberta, viu a gata deitada sobre os livros, com a barriga para cima. Podia ouvi-la ronronando enquanto João acariciava os pelos brancos rajados de amarelo, os olhos dela fechados enquanto se movimentava se esfregando nas páginas dos livros. E viu a mão do amigo dele se aproximar lentamente para acariciá-la.
      “Ela é tão geniosa”, João disse. “Adora carinho, mas só quando quer. Daí vem e pede.”      
     “Que fofinha”, disse o amigo dele. “Dizem que gatos e cachorros pegam a personalidade dos donos.”
     A mão dele se aproximou à de João, tocando-se ambas sobre a barriga da gata. Ainda podia ouvir a última frase do menino, dita em tom manso, afagando com o olhar que ela não podia ver, mas que de repente pôde visualizar em sua mente, o seu filho. Mas ele não tinha percebido. Olhava para a gata, acariciando-a agora com as duas mãos. E de repente havia tantas mãos sobre ela que era inevitável que uma não roçasse na outra...
     Afastou-se da porta sem fazer barulho. Por que aquilo a incomodou? Eles apenas acariciavam a gata, só isso. Mas alguma coisa se agitava dentro dela, ela sentia, e com um grito de desespero correu para desligar o fogão, pois o molho vermelho espirrava para todos os lados.
     “Aconteceu alguma coisa, mãe?”, João gritou do quarto.
     “Não é nada!”, mas ouviu sua voz saindo rouca. “Não foi nada, filho”, repetiu com mais força. “Eu acabei derrubando um pouco de molho na minha roupa.”
     Não é nada, repetiu para si mesma. Mas nada explicaria tudo isso, a solidão de João, o fato de ser um menino tão fechado, esse inesperado amigo que de repente surgiu com tanta intimidade com seu filho bem dentro da sua casa...! E de repente avançou sobre seus pensamentos a lembrança do aniversário de sete anos dele. Como nunca tinha percebido antes?
     Ele tinha pedido a ela uma festa de aniversário da Branca de Neve. Lembrava-se de ter lutado muito contra o seu marido, que disse que não queria que “filho dele” fosse objeto de piadas não só das outras crianças, mas até mesmo dos adultos. Mas ela foi firme. Disse que uma criança precisa expressar os seus desejos. Que um aniversário da Branca de Neve não mudaria o que ele pudesse ser ou não num futuro... Sua mãe, também, tinha dito: “Você vai deixar que esse menino se transforme em um gay?”. Mas a sua palavra foi final. E lembrou-se envergonhada de que tinha achado que se saíra vitoriosa: todos ficaram surpresos quando João apareceu para a sua festa vestido não como Branca de Neve, mas como Dengoso, um dos anões, que era o seu personagem favorito do desenho.
     Mas agora, que via isso tão claramente, depois de observar os dois juntos acariciando a gata no quarto, percebeu que no fundo sempre soube, talvez apenas não quisesse olhar. Sim, já sabia. Mas, ainda assim, agora... Tinha que saber da boca dele. Saberia suportar a verdade, se ele fosse mesmo. Aceitaria, ainda que pudesse ser apenas uma fase... E mais uma vez ela o defenderia diante do seu ex-marido, e da sua mãe, e de todos que ousassem interferir na felicidade do seu filho. Pois seria uma batalha dura, a que viria pela frente. E ela não o deixaria sozinho nessa guerra. 
     Ele passaria no vestibular, iria para uma cidade desconhecida, conheceria pessoas novas. Ele e o amigo dele... E se combinaram de entrar na mesma faculdade, morarem juntos? Viu os dois diante de todos os outros alunos, professores, vizinhos do apartamento que dividiriam, como dois soldados que se erguem de mãos dadas para enfrentar uma guerra contra o mundo todo.
     Anos se passariam, enquanto com o coração pesado ela pensaria nos horrores pelos quais ele estava passando, sem ela por perto para protegê-lo. Então um dia, quando já estava velha e definhando por dentro, pois tinha perdido a coisa que lhe era mais preciosa, a campainha soaria e ela abriria a porta para alguém irreconhecível. O rosto desfigurado, o olhar endurecido pelos horrores da guerra, ele gritaria exausto: “Mãe!”, abraçando-a com força, mas ela – ah, o horror! – ela não o reconheceria.
     Não era mais o seu filho.
     Percebeu que suas mãos tremiam enquanto levantava as camadas da lasanha. Tinha que saber. Tinha que conversar com ele, perguntar se era mesmo verdade. Se ele era mesmo...
     “Mãe.” 
     Mas não conseguiu virar o rosto para encará-lo. Talvez já fosse tarde demais.
    “Mãe?”
     Ouviu-o se aproximar ao seu lado. Ao olhá-lo, viu aquela queda vaga, mas rápida, de um olhar que de repente focaliza um aspecto diferente da mesma visão. Com seus olhos moles e ingênuos, ele a via como se não a reconhecesse.
     “Mãe, o que foi?”
     “Nada”, ela se virou, continuando a jogar o molho vermelho sobre a lasanha. Suas mãos ainda tremiam. 
     “O pai dele ligou, disse que vai passar daqui a pouco pra buscar”, João disse. “Queria saber se você pode levar ele depois, pra gente estudar mais. E ele quer experimentar a sua lasanha, eu falei muito bem dela pra ele”, e riu.
     “Eu estou muito cansada, João Vítor.”
     Seria a sua chance se ele fosse embora. E João ficou em silêncio. Ouviu seus passos se afastando cada vez mais, até que por um momento pararam sob a porta da cozinha.
     “Mãe? Eu também te amo muito, tá?”
     “João!”, ela gritou quando ele já se encontrava no corredor. “Fala pra ele que eu posso levar ele embora, sim.”
     Depois que terminou de montar a lasanha, encostou-se na bancada da cozinha apoiando-se nas mãos. De repente, sentiu algo macio deslizar por sua perna. Era a gata. 
     “Como você é!”, explodiu, erguendo-a de súbito e apertando-a com paixão contra os seios, enquanto enxugava nos pelos as lágrimas que caíam.