domingo, 13 de janeiro de 2013



      A mariposa circulava em torno da lâmpada batendo insistente, ansiosa, contra ela em busca do seu calor. Era uma busca que, eu sabia, causaria a sua própria morte. Eu estava pensando nisso, quando finalmente ele abriu a porta.
      Mas quando entrei, e num último relance a vi caindo fulminada no chão enquanto ele fechava a porta atrás de si, nada fiz até que me perguntasse se eu não queria tirar o meu casaco e se não precisaria de uma toalha para me secar da chuva. E nos sentamos para ver um filme tomando vinho até que amanhecesse, e nós dois dormíssemos nos braços um do outro deitados no sofá depois de fazer amor, e a TV se desligasse sozinha.
      “Sim, nos falamos”, respondi. Ele fechou a porta atrás de mim, enquanto eu já me virava para descer os degraus. Olhei pra baixo: vi uma asa dela escapando da sola do meu tênis. E soube então que carregaria seus restos comigo. Mas se é só assim, pensei, que a gente consegue continuar caminhando

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Meu filho e o amigo dele



     As compras caíram do seu braço e se esparramaram pelo chão. Droga! A gata sempre ficava parada atrás da porta, não tinha culpa se sem querer pisava nela quando chegava!
     “João!”, gritou. “Por que você nunca acende as luzes?”
     Mas não houve resposta.
     “João Vítor! Que saco...”
     Apertou o interruptor ao lado, fechou a porta da entrada e observou o estrago. As laranjas tinham se espalhado pela sala, a sacola estourada.
     “João, vem aqui me ajudar com as compras!”
     Deve estar estudando, pensou. Tinha comprado bastante coisa para fazer um jantar para eles. Sentia que era isso que andava faltando: mais tempo para que ficassem mais próximos, como uma família. E para que João se abrisse mais sobre seus sentimentos. Podia perceber como ele se sentia sozinho enquanto ficava horas trancado em seu quarto, ultimamente mais calado que de costume. Na verdade, isso andava acontecendo desde o divórcio. Tinha até cogitado com seu ex-marido levá-lo a uma terapeuta. Pois, apesar de toda a sua displicência para com os dois, ele também tinha percebido e comentado sobre isso na última vez em que tinham se falado pelo telefone. Mas agora não ligava há mais de uma semana... Melhor assim! Ela podia lidar com a situação sozinha. Não era verdade que nunca tinha deixado faltar nada em casa?, pensou, enquanto tentava tirar uma laranja das garras da gata, que rolava pelo chão brincando com ela, até de súbito arrancá-la. Quando aproximou sua mão para acariciá-la, assustada, ela saltou para longe.
     “Eu não ouvi você chegar, mãe”, ouviu a voz de João atrás de si.
     Virou-se para vê-lo. Mordia um lápis entre os dentes. Devia estar estudando mesmo, ela pensou, observando o olhar cansado e preocupado que ele tinha quando retirava os olhos do livro para olhá-la, como se sua mente ainda se prendesse ao que ele estava lendo. E, apesar da satisfação em se lembrar de que seu filho era um menino estudioso e esforçado, não pôde conter o tom de leve repreensão em sua voz quando perguntou:
     “Você não me ouviu te chamar?”
     “A gente tava concentrado. Desculpa”, ele disse, retirando o lápis dentre os dentes. Era um hábito dele, esse. 
     “Ah, você não tá sozinho?”
     “Eu trouxe um amigo do cursinho pra estudar.”
     “Hum. E eu conheço?”
     “Acho que não. Ele é novo lá. Tá no banheiro agora. Mas ele é legal, depois eu chamo–”
     “Ah!”, ela exclamou, de repente vendo-se apertar o seu filho com força junto de si. “Eu te amo tanto, tanto!”
     E ao olhá-lo, deparou-se com aquele olhar ainda preocupado, mas dessa vez tão parecido com o de seu ex-marido, nos raros momentos em que ele de fato a olhava – isso no começo do casamento, claro – e perguntava: “Tá tudo bem? Você chegou tarde hoje. Fiquei preocupado”, sentindo todo o seu cansaço se dissipar no aperto tímido dos braços dele.
     “Sim, tá. Eu passei no mercado, comprei bastante coisa pra gente. Hoje vou cozinhar, e amanhã é o meu dia de folga e pensei em passarmos mais tempo juntos. O que você acha?”, perguntou, beijando-lhe a testa, ainda o apertando entre os seios.
     “Mas você não tá muito cansada pra cozinhar?”
     “Não, eu quero, filho. Quero passar mais tempo com você.”
     De repente, ela ouviu a porta do quarto dele se abrir e ali, no final do corredor ainda escuro, a silhueta de alguém aparecer. Era o amigo dele. Ao ser flagrado observando um momento tão íntimo entre os dois, ela percebeu satisfeita, ele ergueu uma das mãos num breve aceno e entrou mais uma vez no quarto, fechando a porta.
     “Vou voltar pros estudos, mãe”, João disse. “Posso chamar ele pra jantar com a gente, também?” 
     “Claro que pode, João”, ela respondeu. “Que pergunta, filho!”, e sorriu.
  
     Ela sabia que João adorava a sua lasanha. E há tanto tempo não fazia para ele! Resolveu ir até o seu quarto e colocar uma roupa mais leve, enquanto o molho fervia um pouco. Tinha que ser rápida – logo ele começaria a espirrar, e tinha perdido a tampa daquela panela. O fogão ia ficar uma sujeira, pensou. Mas, andando rápida pelo corredor, viu a porta do quarto dele fechada. Nenhum som vinha de lá. Deviam mesmo estar concentrados, pensou, e não pôde conter o desejo de abrir a porta para ver o que faziam. Ao se aproximar, no entanto, percebeu que uma fresta estava aberta. 
     “Em que ano começou a Primeira Guerra Mundial?”, ela ouviu a voz do amigo dele perguntando.
     “Ah, mas isso não cai em nenhuma prova!”, João respondeu. 
     Ele estava rindo.
     “Você esqueceu, né?”, o outro perguntou com sarcasmo.
     “Não, começou em 28 de julho de 1914. E acabou no dia 11 de novembro de 1918”, e acrescentou rápido, num tom competitivo: “Minha vez: e quais foram as causas?”.
     Tinha puxado isso, dela. Ela também era muito competitiva.
     “Todas?”, ele perguntou. “Tá: corrida armamentista, imperialismo, nacionalismo, autocracia... Ah, não dá responder assim!”
     João riu de novo. Parecia estar se divertindo.
     “Tem razão, peguei pesado. Vamos fazer assim: a gente escolhe alguma questão que caiu e daí perguntamos um pro outro, e o outro responde com o melhor que puder. Só pra praticar...” 
     Era melhor não interrompê-los. Mas, virando-se para sair, de repente a porta se abriu mais, e João percebeu que ela estava ali parada, observando-os surpresa. Era a gata que tinha passado por baixo dela e aberto mais a porta para entrar.
     “Desculpa, filho, não queria interromper vocês”, disse, sem graça. “Só queria perguntar se seu amigo gosta de pimentão. Eu sempre coloco, mas nem todo mundo gosta, né, então...”
     “Ah, não tem problema...”, ouviu a voz do amigo dele responder, oculto atrás da porta. 
     “Mas você não gosta?”, João perguntou, tirando o lápis dentre os dentes.
     “Não muito, mas não me importo, mesmo”, ele disse mais uma vez.
     “Ah, que bom!”, ela exclamou. “É que eu já tinha colocado, depois que eu pensei nisso. Que bom, então!”, e saiu, vendo os olhos de João a acompanharem um pouco surpresos.
     Entrou em seu quarto, pegando um vestido qualquer para voltar à cozinha. Que ideia, pimentão! Mas não pôde pensar em outra coisa. Não deviam tê-la visto. Estavam empenhados estudando. Talvez ela pudesse ajudá-lo também, caso ele precisasse. Conseguia se lembrar de algumas coisas sobre a Primeira Guerra Mundial... E queria muito que ele conseguisse passar no vestibular, já era a sua segunda tentativa, embora não pudesse deixar de sentir um frio na barriga ao pensar na ideia. 
     Claro, ela sabia que isso seria importante para seu amadurecimento. Pra ela mesma foi, quando saiu da casa dos seus pais para fazer faculdade, quando era mais comum homens fazerem faculdade e mulheres ficarem em casa. Lembrava-se das inúmeras cartas que sua mãe lhe mandava, cheia de saudades e lágrimas e apelos insensíveis para que voltasse... Isso ela não faria com ele. Não queria ser esse tipo de mãe, embora entendesse a saudade que a sua sentia.
     Na verdade, já sentia cada vez mais, conforme João crescia, que os dois se tornavam mais distantes. E sabia, como já ouvira da própria mãe, que “a gente cria os filhos para o mundo”. Para a vida..., pensou, observando-se no espelho e de repente atentando para as rugas de preocupação que se tornavam cada vez mais distintas no canto dos olhos. Não queria acabar velha, sozinha. Não que ansiasse por se casar novamente, também. Por um bom tempo queria ainda viver para si mesma e, afinal, ainda era jovem. Um dia, quem sabe, encontraria um companheiro para lutar ao lado dela na dura batalha que é a vida. Batalhas, na verdade... Como uma guerra, mesmo, pensou, rindo do próprio pensamento dramático, enquanto fechava a porta do quarto atrás de si e caminhava pelo corredor. E quanto a João, não importava o que fizesse, ele teria as suas próprias batalhas, e algumas, ela sabia, ele teria de lutar sozinho, por mais que lhe doesse pensar assim. Mas ela tentaria estar sempre ao lado dele.
     Foi quando, então, da porta entreaberta, viu a gata deitada sobre os livros, com a barriga para cima. Podia ouvi-la ronronando enquanto João acariciava os pelos brancos rajados de amarelo, os olhos dela fechados enquanto se movimentava se esfregando nas páginas dos livros. E viu a mão do amigo dele se aproximar lentamente para acariciá-la.
      “Ela é tão geniosa”, João disse. “Adora carinho, mas só quando quer. Daí vem e pede.”      
     “Que fofinha”, disse o amigo dele. “Dizem que gatos e cachorros pegam a personalidade dos donos.”
     A mão dele se aproximou à de João, tocando-se ambas sobre a barriga da gata. Ainda podia ouvir a última frase do menino, dita em tom manso, afagando com o olhar que ela não podia ver, mas que de repente pôde visualizar em sua mente, o seu filho. Mas ele não tinha percebido. Olhava para a gata, acariciando-a agora com as duas mãos. E de repente havia tantas mãos sobre ela que era inevitável que uma não roçasse na outra...
     Afastou-se da porta sem fazer barulho. Por que aquilo a incomodou? Eles apenas acariciavam a gata, só isso. Mas alguma coisa se agitava dentro dela, ela sentia, e com um grito de desespero correu para desligar o fogão, pois o molho vermelho espirrava para todos os lados.
     “Aconteceu alguma coisa, mãe?”, João gritou do quarto.
     “Não é nada!”, mas ouviu sua voz saindo rouca. “Não foi nada, filho”, repetiu com mais força. “Eu acabei derrubando um pouco de molho na minha roupa.”
     Não é nada, repetiu para si mesma. Mas nada explicaria tudo isso, a solidão de João, o fato de ser um menino tão fechado, esse inesperado amigo que de repente surgiu com tanta intimidade com seu filho bem dentro da sua casa...! E de repente avançou sobre seus pensamentos a lembrança do aniversário de sete anos dele. Como nunca tinha percebido antes?
     Ele tinha pedido a ela uma festa de aniversário da Branca de Neve. Lembrava-se de ter lutado muito contra o seu marido, que disse que não queria que “filho dele” fosse objeto de piadas não só das outras crianças, mas até mesmo dos adultos. Mas ela foi firme. Disse que uma criança precisa expressar os seus desejos. Que um aniversário da Branca de Neve não mudaria o que ele pudesse ser ou não num futuro... Sua mãe, também, tinha dito: “Você vai deixar que esse menino se transforme em um gay?”. Mas a sua palavra foi final. E lembrou-se envergonhada de que tinha achado que se saíra vitoriosa: todos ficaram surpresos quando João apareceu para a sua festa vestido não como Branca de Neve, mas como Dengoso, um dos anões, que era o seu personagem favorito do desenho.
     Mas agora, que via isso tão claramente, depois de observar os dois juntos acariciando a gata no quarto, percebeu que no fundo sempre soube, talvez apenas não quisesse olhar. Sim, já sabia. Mas, ainda assim, agora... Tinha que saber da boca dele. Saberia suportar a verdade, se ele fosse mesmo. Aceitaria, ainda que pudesse ser apenas uma fase... E mais uma vez ela o defenderia diante do seu ex-marido, e da sua mãe, e de todos que ousassem interferir na felicidade do seu filho. Pois seria uma batalha dura, a que viria pela frente. E ela não o deixaria sozinho nessa guerra. 
     Ele passaria no vestibular, iria para uma cidade desconhecida, conheceria pessoas novas. Ele e o amigo dele... E se combinaram de entrar na mesma faculdade, morarem juntos? Viu os dois diante de todos os outros alunos, professores, vizinhos do apartamento que dividiriam, como dois soldados que se erguem de mãos dadas para enfrentar uma guerra contra o mundo todo.
     Anos se passariam, enquanto com o coração pesado ela pensaria nos horrores pelos quais ele estava passando, sem ela por perto para protegê-lo. Então um dia, quando já estava velha e definhando por dentro, pois tinha perdido a coisa que lhe era mais preciosa, a campainha soaria e ela abriria a porta para alguém irreconhecível. O rosto desfigurado, o olhar endurecido pelos horrores da guerra, ele gritaria exausto: “Mãe!”, abraçando-a com força, mas ela – ah, o horror! – ela não o reconheceria.
     Não era mais o seu filho.
     Percebeu que suas mãos tremiam enquanto levantava as camadas da lasanha. Tinha que saber. Tinha que conversar com ele, perguntar se era mesmo verdade. Se ele era mesmo...
     “Mãe.” 
     Mas não conseguiu virar o rosto para encará-lo. Talvez já fosse tarde demais.
    “Mãe?”
     Ouviu-o se aproximar ao seu lado. Ao olhá-lo, viu aquela queda vaga, mas rápida, de um olhar que de repente focaliza um aspecto diferente da mesma visão. Com seus olhos moles e ingênuos, ele a via como se não a reconhecesse.
     “Mãe, o que foi?”
     “Nada”, ela se virou, continuando a jogar o molho vermelho sobre a lasanha. Suas mãos ainda tremiam. 
     “O pai dele ligou, disse que vai passar daqui a pouco pra buscar”, João disse. “Queria saber se você pode levar ele depois, pra gente estudar mais. E ele quer experimentar a sua lasanha, eu falei muito bem dela pra ele”, e riu.
     “Eu estou muito cansada, João Vítor.”
     Seria a sua chance se ele fosse embora. E João ficou em silêncio. Ouviu seus passos se afastando cada vez mais, até que por um momento pararam sob a porta da cozinha.
     “Mãe? Eu também te amo muito, tá?”
     “João!”, ela gritou quando ele já se encontrava no corredor. “Fala pra ele que eu posso levar ele embora, sim.”
     Depois que terminou de montar a lasanha, encostou-se na bancada da cozinha apoiando-se nas mãos. De repente, sentiu algo macio deslizar por sua perna. Era a gata. 
     “Como você é!”, explodiu, erguendo-a de súbito e apertando-a com paixão contra os seios, enquanto enxugava nos pelos as lágrimas que caíam.