domingo, 24 de março de 2013

Rito da comunhão

     
     E ali ele se prostava nu e pálido, as pálpebras fechadas enquanto as luzes verdes azuis vermelhas amarelas deslizavam pelo seu corpo. E de suas mãos estendidas dolorosas flores se derramavam em abundância – oferendas do seu próprio sacrifício. Era como uma figura num vitral; ninguém duvidaria de que ele estava ali para redimir a humanidade de seus pecados.
     “Venham colher das minhas flores.”
     Um dia, é claro, vieram. Mas sem cuidado. Pois se colocando assim tão rico, tão aflorado e abundante, o seu corpo era um imenso jardim, à espera de um jardineiro que não plantava, que não podia plantar: era sempre tempo da colheita. Vivia, sim, numa eterna primavera. E como tal, estendido enquanto se sentia ser deflorado até o fundo – Cristo-passivo –, quando ele se foi tornou-se terra seca e dura, além do poder restaurador de qualquer outra estação.

domingo, 17 de março de 2013

Tá tudo OK?

     
     Nas cadeiras de plástico da sala de espera do hospital esperávamos todos o atendimento. Eu ouvia a voz da enfermeira idosa que caminhava entre as macas dos feridos, convalescentes e enfermos perguntando: “Tá tudo OK?”. 
     Um senhor levantou-se ao ser chamado, caminhando muito devagar, meio manco – ao passar pela janela de vidro sua sombra anuviou os rostos das duas crianças que por um momento não riram mais – elas também esperavam – até ele entrar. A luz do final da tarde voltou a bater sobre o piso frio e esterilizado. E elas voltaram a brincar, rindo. 
     “Tá tudo OK?”, ouvi distante.
     Mas eu fiquei pensando o que eu poderia fazer com essa coisa gorda e inchada, aqui, jogada sobre o meu colo, cheia de músculos e nervos, pedindo – cardíaca – pelo meu próprio sangue para que começasse a bater.

sábado, 2 de março de 2013

     Não de novo. Levanto, coloco uma música qualquer pra abrir a manhã – a luz mal entra no quarto quando abro as cortinas – céu cinza é mar de ressaca – bebi demais ontem. Mas há alguma coisa, sinto, e ponho a mão num ombro como se o massageasse. Um café, vou fazer um café. Mas não consigo me lembrar, embora saiba que há alguma coisa ainda – o que é? Não sei, não sei, penso, deixando a pia jorrar ao máximo enquanto lavo a garrafa térmica do café pra água apagar o rastro da lágrima da noite anterior.