terça-feira, 30 de abril de 2013

Velório


Não sinto nada... 
Sinto as minhas sensações como uma coisa que se sente...
Quem é que eu estou sendo?...
Quem é que está falando com a minha voz?...
Ah, escutai...
– trecho de O marinheiro,
de Fernando Pessoa.


     O pensamento é suspenso no azul-vazio desse céu, o sol não aquece do vento frio do final desta tarde. Mas lá dentro, o ar parado pulsa em ondas – é possível vê-las – que vêm quentes pela porta escancarada, convidando a entrar quem está em seu limiar. Pois ali, o corpo.
     É um lugar abafado. As velas acesas refletem nos ladrilhos cinzentos das paredes e do chão um calor morno. Meia dúzia de pessoas sentadas nos bancos. Suas mãos se revezam entre o terço e o lenço, o terço e o lenço. A mão que toca o terço é a mesma que sente a prova irrefutável da materialidade do corpo escorrer entre seus dedos. E assim ocupados, não viam ninguém se aproximar. Pois ali, o corpo.
     Mas há vozes. Vozes sussurrando, vozes sussurrando no silêncio. O que dizem – o que dizem? São três senhoras. A primeira é igual à segunda que é igual à terceira. E tão desconexas estão entre si que insistem em se encontrar, entre pequenos gestos e olhares insistentes uma para a outra, inevitavelmente por meio de sussurros. 
     “Foi melhor assim”, emenda a primeira.
     “Ninguém sabia como ela estava...”, diz a segunda, receosa. 
     “Sim, ela era sozinha...”, vacila a terceira.
     “Como ela deve estar agora?”, pergunta a segunda.
     “Ela queria morrer”, diz a primeira.
     “Ela queria morrer”, repete a segunda. 
     “Mas por quê?”, pergunta a terceira.
     Mas ali...
     “Ela deve estar melhor agora”, arrisca a segunda.
     “A gente tem que acreditar”, insiste a terceira.
     “Só assim isso faz sentido”, conclui a primeira.
     Tudo assim assentado, agora, as três senhoras empunham seus terços e incidem os olhares bruxuleantes para velar, ali, o corpo. Cercado de flores brancas que o ocultavam, pronto para ser levado para – para – para onde? Pois ali, o corpo. O corpo, apenas...
     Oco! – o quê? – é oco!, grita a voz – de quem, agora? Pois os buracos – tantos buracos – que contrastavam com a palidez baça – sim, baça! – nem cuidadosamente tapados – uma gota seca de sangue no canto de uma narina, as pálpebras estiradas sobre os globos salientes na cavidade negra ao seu redor, a cola enrijecida entre os lábios para sempre cerrados – nem cuidadosamente tapados escondem o escuro-vazio por trás da casca. Pois ali, o corpo. 
     É oco!, grita a voz. Mas ninguém escuta. Ninguém escuta... É preciso fazer alguma coisa com ele, pois as velas queimam a si mesmas apenas para serem consumidas até o fim. É preciso – oco! – tirá-lo daqui. É preciso – oco! – resgatá-lo... Eu então mergulho dentro dele, escorrego por suas cavidades – por quê? – porque escuto, porque vejo: oco! oco! oco! 

     O pensamento é suspenso no escuro-vazio desse céu, a lua não ilumina o caminho até em casa nesta noite. Mas lá dentro, as velas insistem no artifício – é possível vê-las – que as faz queimar mesmo não havendo enterro nenhum. Pois eu, aqui, no corpo.

sábado, 13 de abril de 2013

Labirinto

     
     Eu poderia dizer algo sobre aquela luz amarela, ali, brilhando no escuro. É só o que eu posso enxergar, aqui, sabe? Posso tentar me aproximar dela, roçar sua pele translúcida com alguma palavra qualquer, tal como: “eixo”. Pois os pelos de minha mão se arrepiam, apontando para o seu centro – é isto: “centro”. 
     Se me aproximo, me vejo, se me distancio, meu corpo se esfacela no escuro e passo a ser apenas uma presença no negro interior desta página em branco – pois quanto mais se roça, mais escura fica. É sério, eu já fiz a experiência. É o que esconde toda página em branco. E de repente percebo que já está acontecendo, claro. É assim: se resolvo me calar, morri; se começo a escrever, vejo a luz amarela, ali, brilhando no escuro. Há sempre dois caminhos: ou toco, e alguma coisa acontece, ou me distancio, andando por algum caminho qualquer, pois é constante, aqui, correntes de ar que indicam na escuridão que posso seguir para qualquer lado que quiser. Mas sempre tão frias, as correntes, que não me afasto muito da luz, embora, é claro, sem nunca tocá-la. Apenas roço: “eixo”, “centro”, como numa espécie de limbo – é isto: “limbo”.  
     É engraçado. Sempre, nunca, agora, de repente, percebo que aqui é sempre ou nunca a primeira e a última vez. Pois as coisas acontecem aqui também. Sinto agora uma forma esférica em minhas mãos, mas nunca ousei aproximá-la da luz para saber o que é. No escuro, deslizo a pontinha do indicador por sua superfície e sinto-a um tanto fria; aperto-a então fechando as duas mãos em torno dela, até ficar bem quentinha; cheiro, e isso me dá desejo; mordo um pedaço – que gosto tem? – continuo comendo – parece familiar – devoro até o caroço como nunca. É sempre assim. É o que me faz continuar aqui. De repente, sinto que estou comendo escondido, embora esteja aqui há tanto tempo que sei que não tem ninguém de quem esconder – mas tenho medo e apenas roço: “eixo”, “centro”, “limbo”, sozinho, falando comigo mesmo – é isto: “comigo”.
     Talvez seja isso que me dê medo. A luz, ali, por exemplo. Quanto mais me aproximo, mais me vejo, daí que, estando comigo, sei exatamente o que estou querendo dizer enquanto digo. Caso contrário, sai isso. E então me canso e, tudo devidamente devorado e roçado, eixo-centro-limbo-comigo, finalmente, paro. Mas não acaba aqui: de repente sei por que paro: não havia outra saída a não ser tocar a luz, ali, brilhando no escuro. Mas como saber, se eu apenas roço? – é isto: eu apenas roço.
     Agora assim, depois de tudo dito, acho que eu entendo. Sei o que eu tenho que fazer. Desarmado de palavras, toco a luz – é isto.
     
     As pessoas eram estátuas de mármore que se erguiam para observá-lo do alto como gárgulas. Elas sabiam – e ele podia saber por isso, confirmar todos os seus medos e inseguranças para então poder esperar o cuidado – pois inevitável, fatal, incontornável ponto do que se chama “a minha personalidade”, pensava – do outro. Ainda que, é verdade, tal ponto era nada mais nada menos que– mas antes que soubesse ele o contornava inevitavelmente, para a sua própria fatalidade: dava voltas em torno dele, erguendo árvores e flores – tantas flores – laboriosamente, sim, em torno dele, estendendo tapetes de relva e amanhecendo ou anoitecendo conforme o sono desse outro, erguendo luas e sóis de papel presos num cabo de madeira que ele segurava – julgava – com muita discrição. Como uma criança brincando de faz-de-conta, tinha talento para tornar as coisas eternas: inventava estações, prolongando primaveras e invernos, fazendo chover a seu bel-prazer, para esconder as imperfeições do tempo em seu cenário.