quinta-feira, 30 de maio de 2013


     Nas alturas de nossa embriaguez, ele continuava dizendo que todo mundo é louco, e eu lhe dizia que sim, sim – todo mundo é louco. As pessoas são incompreensíveis, nada é como esperamos que seja. E enquanto observávamos, preocupados demais com a qualidade do metal que encontraríamos sob a terra, no final nos vimos no meio de uma terra que nós mesmos devastamos. A festa tinha acabado então. Pois se todo mundo é louco, eu lhe dizia na volta, com os bolsos vazios, isso nos torna mais loucos ainda.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Um buraquinho pequeno desses


Culturalmente, não se olha pra quem está com roupa rasgada – eles não existem
– Maria Elisa Cevasco.   


     Um buraquinho pequeno desses, ninguém notaria. As mentes que ocupavam aquelas ruas, por exemplo. Estavam ocupadas demais consigo mesmas. Pois se não notam nem mesmo os trapos desse homem, coitado – antes mesmo que abra o buraco negro e sem dentes dou-lhe alguns trocados –, que fica diante do prédio, dia após dia, um buraquinho desses...
    “Bom trabalho”, ouvi um colega dizer quando eu descia do elevador. “Ah, não sei se percebeu, mas sua roupa tá rasgadinha atrás.” 
     Tão logo a porta do elevador se fechou atrás de mim, saí correndo como se um buraquinho pequeno desses pudesse se escancarar a qualquer momento e me engolir, como um buraco negro e sem dentes, antes mesmo que eu chegasse a minha sala.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Devaneio solitário (II)


     Nesse horário costuma estar vazio. Os olhos dos prédios se acendiam sonolentos, os motores dos carros bocejavam no ar frio da manhã, os autômatos pelas calçadas ainda friccionando os membros para tirar a ferrugem da noite anterior, embora pela janela eu visse apenas o interior vazio do ônibus. 
     Por um momento, então, ele parou. A porta se abriu. E um passageiro apareceu, passou pelo cobrador que dormia – sua cabeça pendia abandonada ao ritmo espasmódico dos freios – e chegou tão perto de mim que pensei que fosse se sentar ao meu lado. 
     Mas ainda bem, meu deus, que nesse horário costuma estar vazio.

Devaneio solitário (I)

     
     Quando fico acordado de madrugada sem conseguir dormir, tomo uma xícara de chá, sentado à mesa da cozinha. E de repente, da porta dos fundos, um ladrão se destaca da escuridão e me encontra aqui, sozinho... Mas então por que, em vez de seguir com seu intento, ele não se senta ao meu lado e aceita também uma xícara? 
     “Aposto que você nunca teve uma experiência desse tipo”, eu lhe diria, indicando uma cadeira.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

ovo


     Pouco importa se o que veio antes foi o ovo ou a galinha, ele tinha dito então. O fato é que quando o pintinho sai, o ovo já não existe. E quando a galinha se forma, pouco da experiência de ser pintinho lhe resta na memória... Não há origem nenhuma! A verdade é que nós nunca superaremos nosso próprio nascimento. 
     E dizendo isso, todos avançaram sobre ele, arrancaram-lhe as penas, quebraram-lhe o pescoço e degolaram-no. E eu os encontrei mordiscando a pontinha de uma pena enquanto observavam o sangue do corpo pendurado de cabeça pra baixo cair, gota a gota, sobre uma bacia. Saí exasperado de lá, mas quando me virei para um último olhar, vi cascas de ovo sobre o chão. E percebi, chocado, que penas já me escapavam pelas mangas da camisa. Era tarde demais então: tinha cacarejado, e eles me viram.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Mais-valia


     Tão doce, pensei, acariciando com o indicador meu nome que ele tinha escrito no copo – com “h”?, ele perguntou; tão gentil, pensei, saboreando nossa lembrança devagar para que nunca acabasse – com um pequeno acréscimo você leva o grande, ele disse –; tão romântico que só depois do último gole percebi, enjoado, que meu amor pelo jovem atendente apenas foi possível porque teve o preço excessivo de meio litro do meu amor próprio – vendido ou comprado?

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Escritomancia


     Se eu decidir continuar seguindo estas linhas, aqui, vou adivinhar nosso destino? Borrão aguado sobre as letras, palavras espumantes sobre o papel – mas tão rápidas elas diluem depois da queda! E a caneta, exausta, vai-se embora pelos vãos dos meus dedos. Porque, meu querido, por mais que eu esprema, não adianta: desta tinta eu não quero o seu amor.