segunda-feira, 15 de julho de 2013

Pelo avesso


     Os lábios tremeram; a boca entreabriu-se. Algo borbulhava – o que era? – no peito subindo lentamente – um grito, um choro, uma risada? – pelo canal que tinha sido aberto até – era agora – até ele se afastar. 
     Dessa vez foi por pouco, pensou. Mas, mesmo estando de volta, caminhando entre todos os demais ali, se fechasse os olhos ainda visualizava em sua mente a cabeça pendendo quebrada no pescoço, a mão espalmada na boca, os olhos escancarados – e sabia que ainda estariam lá: congelados até que ele voltasse e lhes desse continuidade diante do espelho. 

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Um dia


     Neste dia, quando acordou, encontrou a sua identidade bem diante de si. Tomou-a em comunhão e dançou, dançou, dançou com ela em seus braços, sozinho sob o teto ensolarado do seu quarto. Mas ao abrir a porta para sair, num assalto o vento de repente a descolou de sua pele como uma folha se desprende de uma árvore... Com um grito, correu na chuva atrás dela, tentando alcançá-la, prendê-la no espaço vazio que tinha sido deixado, embora não a enxergasse, não soubesse pra onde ela tinha ido. Perdido na névoa do seu fôlego e na chuva dos seus olhos, foi só ao parar que finalmente a reencontrou: o tempo todo ali, bem debaixo de seus pés, na poça de água, sorrindo mesmo enquanto chovia.