quinta-feira, 24 de outubro de 2013



     Foi só ao sentir a cicatriz na pele que ele de repente percebeu, olhando por trás da camada de si mesmo, que a ferida já não existia  e que existira um corpo. Em que momento tinha sido deixado para trás?, perguntou-se, abrindo caminho pelo matagal que crescera e que ocultava as pegadas que ele não se lembrava de ter dado. Encontraria-o caído onde o deixara  se no meio ou no começo, não sabia , coberto de folhas e gravetos, que lentamente  está morto? , como quem tira os cabelos da fronte, ele afastaria com as mãos para que o ar voltasse a soprar pelas narinas e os olhos se abrissem surpresos com a luz do sol. Era o indivíduo apenas; agora, seria mente-corpo, corpo-mente, mente que é corpo e corpo que é mente, mente corpórea e corpo mental, existindo como numa teia: se um fio do emaranhado bem tecido  fatalmente tecido  de mentes e corpos se rompesse, sabia que não haveria mais vida. Mas a essa altura, no entanto, encontrar-se-ia em algum ponto tão distante de onde tinha estado antes, num ponto tão além da trajetória, que o que era definir-se seria apenas uma questão de ser, aqui e agora, no corpo e nada mais... Em que momento o deixamos para trás?, perguntou-se, deslizando os dedos pela cicatriz.

     Naquela noite dançamos como se fossem nossos corpos que expressassem por si mesmos como sentíamos ser a nossa relação. Pois onde envolvia a possibilidade de amor, lá eu estaria, meu corpo movendo-se lentamente de um lado para o outro, indo para logo voltar, cauteloso, minhas mãos e braços girando em círculos – mas nada rápido, meus movimentos eram lentos – enquanto meus olhos o observavam sem, contudo, nada pedir, nada esperar, embora ansiassem – encapsulando em si mesmos aquele estado como uma forma eterna de se relacionar e sofrer. Que romântico foi – romântico demais. E ele ali, um contraponto, me observando enquanto abria as asas do seu sorriso, como um passarinho em pleno voo e, ainda assim, ciente de que precisa ter um ninho a que vez ou outra retornar, quando precisasse. E tal ninho era eu mesmo, aqui, ainda dançando diante dele, cujos olhos cresciam sobre mim conforme ele avançava – mas não perto demais, não perto demais. Caso contrário, tudo estaria arruinado entre a gente. E ele parou bem a tempo: a música chegou ao fim. E de novo eu soube que, da próxima vez, quando ele levantasse voo, o ninho seria outro...


quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Olhar


Ontem fizemos 
                              amor
                     com
                               meus
                                         olhos.

Escorregaram
                            pela
                  pele
                            do seu 
                                         rosto.

Afogaram-se
                         nos
            pelos
                       da sua
                                    barba.

Dançaram
                      na pon-
                 ta
                       da sua 
                                     boca.

Mas foi nos 
                       olhos 
             seus
                       que esqueci
                                               aqueles,

que eram meus.