quinta-feira, 28 de novembro de 2013

violão


não me toque
que já escuto
minhas cordas
vibrando
nos arranjos
que sua palinha
ligeira
desafina
(não atina)
na dureza
deste corpo
que ainda sonha
em ser canção.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013



     As cortinas azuis do meu quarto agitavam-se com violência, por causa do vento. Pouca luz entrava por elas. E chovia forte... Será que ela tinha entrado para se proteger? Voando pelas ruas, em busca de um refúgio, tinha visto a janela – ou teria sido levado até ela? – e de repente, num golpe foi atingida pelos panos pesados da cortina – como se mata um inseto e nada mais – de repente. E foi assim que eu a encontrei, ao lado da minha cama ao acordar, caída. Mas uma asa ainda batia... 
     O que eu posso fazer por ela?, pensei. Tinha até pensado em procurar ajuda. Mas – como? Sairia na janela e pediria socorro? Ligaria para algum amigo perguntando o que poderia ser feito? “Tenho uma borboleta”, eu diria ao telefone, mas depois não saberia como continuar – uma borboleta que não morre? Ou que ainda vive? Eu não sabia. E nada fiz. Apenas tomei o cuidado de não pisar nela quando passasse, na esperança de que, cedo ou tarde, como as baratas e lagartixas, ela se recuperasse e saísse voando por aí mais uma vez. E passei o dia dividido entre os afazeres que a vida me exigia e a própria borboleta, cujo único afazer durante todo aquele dia foi bater a mesma asa, e batia cada vez menos a cada vez que eu voltava para ver – como quem nada quer, apenas de passagem – como ela estava. Claro, eu sei que eu poderia simplesmente ter pisado nela e acabado com o seu sofrimento. Mas que controle eu tenho sobre a morte?
     Quando a noite chegou, ao voltar para o meu quarto antes de dormir, percebi por fim que tinha acontecido. Julguei antes, no entanto, ter visto a asa ainda batendo – devagar, lenta, num último espasmo – mas era só o vento que a soprava, folha transparente e delicada. Morta. Finalmente morta. Se a deixasse ali e fosse dormir, pensei, sabia que a esqueceria no dia seguinte, ao acordar, e sem querer pisaria nela, arrancar-lhe-ia uma asa, destroçaria seu corpinho frágil... Não, eu precisava fazer alguma coisa. Tinha de enterrá-la, mas não sabia se seria capaz de fazê-lo. Pois mesmo ela estando ali, morta, permanecia em mim a sensação de que algum milagre ainda poderia acontecer. Foi então que resolvi guarda-la numa caixinha, mantê-la ali, esperar até que a situação se resolvesse. No dia seguinte, pensei, no dia seguinte eu saberia fazer alguma coisa. Mas tão logo fechei a tampa da caixinha, horrorizado vi a mim mesmo, dias, semanas, anos depois finalmente criando coragem para abri-la. E encontraria nada além de restos do que tinha sido antes – o quê? Pois tarde demais eu teria percebido que há muito tempo já não era. Peguei uma caneta e com letras garrafais escrevi sobre a tampa: “Deixe-me ir em paz”, e só então eu fui capaz enterrá-la.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

chamado


pois finalmente sentiu-se livre, saiu para caminhar pela cidade, embriagou-se encostado em carros em frente aos bares, fez amigos, amou-os para sempre, ligou o celular e discou para ele, disse que iria lá naquela hora mesmo, que o levaria dali, que já estava a caminho, que lhe mostraria a noite e lhe diria coisas que ele não queria ouvir, que tinha alguma coisa nele, que não sabia explicar agora o que era, era difícil de explicar, entende, mas que ele ainda era o mesmo, e que estava cruzando ruas e avenidas, mas que agora já tinha chegado, desce logo, vem, e parou sob a árvore, esperou, viu a janela, o vulto sentado à mesa se levantar, o relance sempre irreconhecível no espelho, a luz do quarto se apagar, e rápido vestiu o par de tênis surrados, e a batida dos passos descendo voando os degraus para abrir a porta e mergulhar no céu abrindo-se estrelado de outras luas e faróis na rua deserta, caminhar até sob a árvore, era onde ele deveria estar, era onde ele sempre o tempo todo estivera, desde o começo estivera, não tinha notado?, e respirou fundo, deixou a caneta escorregar por entre os dedos, e sua risada farfalhou entre as folhas acima dele pelo ar da noite, pois finalmente sentiu-se livre, saiu para caminhar pela cidade...

sábado, 16 de novembro de 2013

Intertextualidade


“Eu” – entre 
aspas – sou

que só assim
posso ser:

na travessia que leva
ao outro lado
da palavra

que não é minha
que não é sua
que não é nossa

vivemos 
entre
aspas

Todo mundo 
é todo mundo
ninguém é
ninguém

e qualquer
alguém
não é mera
coincidência

sexta-feira, 15 de novembro de 2013


      Desabou todo o seu peso sobre o banco, colocando a pesada mochila no colo. Agora podia descansar – por quanto tempo? – o quanto o tempo antes da chegada do trem lhe permitir, pensou, sentindo com a mão o zíper para ver se estava bem fechado. Pois a mochila estava tão cheia que tinha medo de que de repente ela tivesse se aberto enquanto corria – desviava-se – das buzinas, do sol incendiando o asfalto, dos membros rígidos lançados sempre adiante pelas ruas, inexoráveis... Suspirou com alívio. E viu ao seu lado um menininho, enrolando com as mãos um pião numa corda. Sua mãe, ao lado, observava o movimento ao redor, distraída. Então, quando terminou, endireitando-se, muito ereto e concentrado ele deu um impulso para trás com o braço e lançou ao chão da plataforma o brinquedo, que passou a girar em círculos, furioso. E agachou-se ao seu lado, os braços apoiados no joelho, as mãos unidas, olhando enquanto ele girava, girava, girava... Os lábios dele vibraram – um sorriso vitorioso abriu-se no rosto – o pião não parava – tinha conseguido. Mas quando o ruído sobre os trilhos chegou aos nossos ouvidos, antes mesmo que o trem parasse, sua mãe de repente o puxou pelos braços e correu com ele para o vagão para que pudessem entrar. E vimos, num último relance, entre pernas e braços, quando o trem já começava a deslizar mais uma vez, o pião abandonado na plataforma, ainda girando, girando, girando mesmo quando tudo já tinha se tornado escuro por trás da janela e nossos olhos depararam-se consigo mesmos ainda observando, em perplexa fixidez, o pião, com a certeza de que ele continuaria a girar por toda a eternidade – e que nunca mais nos seria permitido presenciar a sua queda.

     Acendeu o cigarro e escreveu: "Acordei hoje e ainda estava escuro. Tanta coisa eu gostaria de dizer pra você do sonho que eu tive. De como as notas do seu piano flutuaram pela porta aberta do seu quarto  eu ainda via luz acesa  e penduraram-se no ar acima de mim. Tornavam-se indistintas... Juntaram-se como nuvens. E escorreram degrau por degrau até onde eu me encontrava, parado ao pé da escada, sem forma, sem música, líquidas... Não tive coragem de subir. Será que chove hoje?". Pois, claro, sabia que podia ser o calor (podia sempre ser outra coisa). Além disso, gostaria de acrescentar agora, pensou, deixando a caneta de lado, que o ar está tão seco por causa do cigarro aceso que eu, também, no silêncio, sem música, paciente escuto-o queimando enquanto me sufoco em suas cinzas.

     É a ação da faca afiada, porém um pouco cega. É o tiro da arma que dispara de repente. É o sangue lavado da vítima. É a tinta da minha caneta agora. É a opressão do espaço vazio das páginas seguintes. E a ânsia e o desespero das palavras para ocupá-lo. É a falta de espaço. É o proibido. O ilegal. É a loucura, as narinas sangrando, os olhos abertos, as mãos inquietas e a alma errante. É o rascunho. E a preguiça com a necessidade de escrever.