sexta-feira, 20 de dezembro de 2013


     Quanto mais velhos ficamos, mais as luzes do nosso passado, como as conhecíamos, cada uma delas, pessoas, objetos, lugares que habitavam nós mesmos – de todos os lugares, somos os maiores – vão se apagando, uma a uma... E ficaremos no escuro se não mudarmos de cômodo pra perceber que outras luzes já foram acesas. Viver é como estar numa casa sem que saibamos onde se encontram os interruptores. Seria então a velhice uma vela acesa no peitoril da janela? Mas não quero acreditar que a morte seja apenas uma casa no escuro – não, não. A morte é o olhar, talvez o último, quando, depois que o vento apaga a nossa vela, nos debruçamos na janela e descobrimos que dentro da noite escura podemos encontrar toda a luz de que precisamos. E que isso basta.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013


     Eu acho que algumas pessoas deveriam vir com uma placa fixada na testa, bem acima dos olhos, com o aviso: "Cuidado, você pode se perder dentro de mim". Porque quando você se aproxima de alguém, chega a conhecê-la como pode, e como ela (conscientemente ou não) lhe deixa vê-la, invariavelmente podemos nos ver tão imersos (tentando em vão adivinhar sua profundidade) que acabamos nos esquecendo de nós mesmos. Mas não se trata também de isso ser negativo ou positivo, certo ou errado, algo a ser evitado ou não... Simplesmente aconteceu. Porque – bom, não é justamente essa a questão do que chamam de o Outro? Não importa a profundidade, isso nunca saberemos, mas a travessia. Pois chega o momento em que percebemos que se a gente se perdeu foi para se encontrar. E então emergimos.