quinta-feira, 15 de maio de 2014


     Tão jovem, eu tão velho, um quadro desbotando na sua frente enquanto você fica aí, desperdiçando vida em abundância, mas fazer o quê, eu também o fiz, eu também desejei, eu também ainda desejo, sim, não se engane, ainda continuo vivo, ainda que você me tire da sua parede, pinte por cima da marca deixada atrás de mim e coloque um novo quadro, me jogue num sotão para acumular poeira, um dia – mais um dia – outro dia – um dia você se lembrará de mim, limpará a poeira de cima de mim, parecia tão bonito, coitado, tinha potencial – e assim se descobre vida no que já morreu. Não que eu esteja morto, veja bem. Pois sei que naquele prego – não, do que eu estou falando? O prego é novo agora, aquele já enferrujou. Mas naquele espaço o quadro agora é outro – e já desbota, como eu desbotei, antes de vir parar aqui. Mas, meu amigo, meu carrasco, meu desejo, eu te digo, pois sou a prova viva disso: ainda restam cores, palavras, tinta. Só vive quem já morreu.

segunda-feira, 17 de março de 2014

rascunho (III)


     Que bom que agora posso falar com você. Tá vendo aquela estrela, ali? Ali, bem do lado daquele prédio, o maior, no fundo. Poderia até ser um castelo. Sob esse céu... Não acha? Mas um castelo, aqui? É verdade, tem razão, tem toda a razão. Falemos então da estrela. Se ela chega até aqui, é porque brilha mais forte do que tudo isso aqui embaixo. Da sua janela sei que você vê também. Escolhi uma cujo ângulo fosse favorável para que você a visse comigo. Agora vai vir me falar de estrela no céu? Olha pra baixo. Pra-ba-i-xo. Pra baixo? Macabéa, agonizando no asfalto. Ai, lá vem, Clarice, de novo? A estrela piscando no céu, Macabéa, aiai. “Na prosa, há muita narrativa sobre narrativa, que refere livros e vidas dos autores célebres, as quais funcionam como piscadelas cúmplices para o leitor amigo capaz de identificar as referências.” Só quis dizer de um jeito que você entendesse, ué. Mas eu posso entender do seu jeito. Meu jeito? Sim, cadê a sua estrela? É aquela ali, ó. Não consegue ver daí? Não. Então ela pisca só pra mim. É minha estrela. Ninguém a vê como a eu vejo, aqui, da minha janela. Principalmente se considerado o preço que se paga por isso, e não falo só do valor absurdo do aluguel. Aposto que daí você também vê a sua, não? Não? Oi, tá me escutando? Foi dormir. Apagou a luz, acabei de ver. Uma pena. E agora começou a ventar. Acho que vai chover. Uma nuvem já tapou a lua, daqui a pouco nem estrela mais vai ter. Acho que vou dormir também, preciso levantar cedo... Melhor fechar a janela. Será que tem estrela no céu amanhã?

rascunho (II)


     Mas as flores não são vivas, nem mortas. Uma pétala abandonada ao vento não é menos viva que as de uma primavera, e muito menos seriam estas mais mortas do que um broto. Pois a pétala carrega em si a consciência de que foi, é e será – o quê? Poeira no vento que entra pela janela e se funde às coisas, que entra pelas narinas, do corpo e da cidade, cheiro de vida e morte. E se tudo se renova a cada fôlego, a cada palavra, sôfrego, eu tento, eu continuo tentando, sigo escrevendo, adiante, como o ônibus que daqui escuto avançando em solavancos pela cidade, ou como o primeiro abrir de olhos para mais um dia (dentro?) do corpo. Digo o primeiro abrir de olhos porque depois costumamos voltar a dormir, ainda que de olhos abertos, cada um em um recipiente que se julga bem lacrado, num espaço e tempo próprios, até que mais um solavanco nos desprenda dessa segunda pele que ousamos chamar de Eu. E assim abandonados ao vento, podemos então nos deparar com aquele homem cego mascando chiclete de que falava Clarice e sentir (não sem incômodo) a vida escorrendo numa abundância insuspeitada da sacola de ovos quebrados. O que eu quero dizer, clariceanamente, é que cada um tem uma barata a mastigar. E de qualquer forma, constato agora que tudo isso dá um belo de um omelete. Pois no frigir dos ovos, apesar dos solavancos, a verdade é que eles não se quebraram: eu os vejo diante de mim, no prato, aqui, em cima da mesa, decorada com aquelas mesmas flores, nem vivas nem mortas, enquanto tento mastigar.

domingo, 2 de março de 2014


fica aí, com essa cara
ocupada demais
fingindo que vive

coleciona num cinzeiro
as bitucas dos cigarros
que fumou e não sentiu

mas, ai!
quem sou eu pra falar?
eu, que também vivo de revés,

como você, enviesado,
que vive correndo atrás do tempo,
tempo que julga perdido quando parou

pra olhar aquelas flores, quando parou
pra poder amar mais, quando parou
pra sair por aquela porta, quando parou

pra voar mais alto, quando parou
pra sentir o mundo na pele, quando parou
pra viver na cidade, quando parou

pra competir por espaço, quando parou
pra se tornar adulto, quando parou
pra se tornar mais um, quando parou.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

(des)conforto


é esse calor, o ventilador constante no peito, costas, agora peito, costas de novo. é abrir os olhos. é levantar-se da cama com o desconforto de não saber mais como continuar dormindo. pois a verdade (como ouso?) era que até mesmo os sonhos compunham apenas um tecido que lentamente se desfiava... fios soltos da minha vela, sendo lançados ao mar de ressaca em que agora me encontro. há sol, mas a maré tá braba, depois da tempestade. o que, aliás, qualquer navegador menos indolente saberia ser previsível. e no entanto meu único conforto (além das metáforas, veja bem) é ter descoberto que ainda é possível chover. olha aí, tá na superfície das águas. por isso hoje deixo o navegante sentar-se no convés, à deriva, sem vela, e vigiar o céu com estes olhos, que tenho aqui agora, e que ontem mesmo choveram.

domingo, 12 de janeiro de 2014


     Domingo ama o sábado, como se tivesse perdido um amor ou ainda lamentasse o fim de uma boa época de sua vida. Domingo pode ser inverno, dia de se recolher e se preparar para a terrível segunda, que promete não ter piedade, como alguém que, depois de dar um soco na cara, resolve dar mais um uma segunda vez, só pra garantir que machucou. Vem, bate, eu aguento, você pode dizer. Ou não – mas de qualquer forma lá ela vai estar, punhos em riste, no ringue. E então vem terça – o que é a terça? Não está perto do fim, mas está perto do meio. O meio é um consolo. Já que cheguei até aqui, acho que posso aguentar. E você sabe que só pode avançar, depois da metade. Mas e o tempo, pode retroceder? De qualquer maneira, a terça mostra que você pode sobreviver à segunda. E quarta, bem, chegamos ao meio. E embora a segunda e terça possam ter sido duras, o fato de que você está no meio traz a esperança de que a semana chegará a um fim. Já a quinta é como terça, mas ao contrário. Se a terça mostra que você pode sobreviver depois de ter passado por algo ruim, a quinta mostra que você pode sobreviver porque algo bom virá – e sexta é o limite. Sexta é o dia contado, o dia em que, depois desse árduo itinerário de dor e horários e rotina, você terá finalmente o seu descanso, o seu tempo livre e sem compromisso, pra fazer o que você quiser: o sábado. Sim, o sábado, aquele dia em que não importa o que você faça, você terá o domingo para que, durante o dia, você diga: Não importa, amanhã ainda é domingo. E um dia descobrimos: o tempo retrocede. Pois amanhã vai ser domingo, e você sabe que o dia seguinte é segunda, e tudo volta mais uma vez. Assim também é a história. 
     Então, hoje, eu pergunto, embora saiba que seja quarta, que dia da semana realmente é? E neste momento, onde você está: numa quarta ou num domingo? Pois às vezes, quando acordo, acho que é segunda, mas de repente, quando recebo a ligação ou mensagem de um amigo, por exemplo, é quarta, indo pro sábado. Já as noites podem oscilar entre sábado e domingo... A linha é tênue. Mas, assim como a história, a semana contida em nossos dias ou - por que não? - o mês contido em nossa semana ou mesmo o ano em nosso mês, enfim - tudo isso tem o peso que resolvemos lhes dar. É preciso que se pense por que segunda é segunda, quarta é quarta, domingo é domingo, para, assim como na história, começar, quem sabe, uma revolução - de dentro pra fora. Porque a semana ainda não acabou.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Rubrica para uma tragédia de amor


     (No meio de um lago de luz, ergue-se como rochedo uma cadeira escura de alto respaldo e, sobre ela, um estojo de violino. Estamos todos, todos sentados na plateia. Sedentos por um pouco de pathos, não ousamos perturbar aquelas águas – nenhum sussurro pode perturbá-las. Silêncio. O violinista se aproxima pela lateral do palco. Segura com delicadeza o estojo nas mãos, tão compenetrado no objeto que mal o vemos sentar-se. E antes de abri-lo acaricia com o toque de suas mãos a superfície polida, lisa de madeira... Ajusta-o a suas próprias curvas, com os dedos posicionados firmes, hábeis demais – como se o dominasse – e a primeira nota explode. Suspiros. O arco desliza por sua superfície tensa, ela vibra por fazê-lo deslizar. Se vibra é porque deslizo, se desliza é porque vibro. Os dedos, aqui, sinta!, dão a segurança de que você precisa. E entre tanto êxtase o violino não nota a chegada do clímax – nosso maior desejo. E a cada nota arrancada mais a boca se arrebenta em garganta, os nervos se partem, as veias explodem e nos tornamos o próprio violino, no meio de um lago de sangue, sobre uma cadeira escura de alto respaldo que se ergue como um rochedo, um corpo dilacerado, agonizando, chorando o pathos desperdiçado. Cortinas.)  

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014


não segure as cinzas
do seu cigarro
por tempo demais:

deixe
que 
caia,

e se dissolva.

pois uma eternidade
é a fatal medida
da sua tragada:

serpente
que
adentra,

e se envenena.

o fumante
tem o tempo
do cigarro:

queimam
no mesmo
fogo,

e se apagam.

     Há o Sobrevivente. Ele me manda e-mails, que eu respondo. Não o conheço, nunca o vi, e também não sei como ele me encontrou. Mas assim que recebi o e-mail dele, com a notícia de que se encontrava preso numa casa, que o tinham deixado para trás, e que precisava se comunicar com alguém, pois o apocalipse zumbi já tinha acontecido, eu respondi tentando acalmá-lo, perguntando quem ele era, e que por aqui, onde eu estava, estava tudo bem. Todos estão vivos. Ele respondeu: Tem certeza? Pois que comigo poderia estar muito bem, que sorte eu tinha, como eu estava fazendo pra sobreviver?, mas que ele estava cercado por zumbis – não posso sair! um arranhão, uma mordida e eu estou contaminado! – onde se encontrava e não sabia se seria possível ver a luz do dia de novo. Acho, na verdade, que é alguém se divertindo, e eu também me envolvi na sua diversão com o máximo de verossimilhança possível: mas onde você está? Como podemos encontrar você para ajuda-lo, digo, eu e os outros sobreviventes? (Ia perguntar também como ele conseguia mandar e-mails para mim, em pleno apocalipse zumbi, mas achei que isso arruinaria a verossimilhança de toda a história, e eu não queria, já então, que ele parasse de se comunicar comigo. Por quê? Porque, embora ele pudesse ser um louco, eu já sentia que eu o entendia.) Mas ele não sabia onde se encontrava – quando deu por si já estava lá. De qualquer maneira, ele disse, o melhor jeito de você me ajudar é continuar a se comunicar comigo. Até que eu possa escapar daqui. (Ele acreditava no poder da linguagem também.) Mas quando fizeram-se dias, semanas, meses de troca de e-mails com ele, de despertadores, horários, tempo, trens e prédios que devoram, sinto muito, mas sinta menos, não respire, mais, mais, mais! – eu lhe enviei um e-mail dizendo-lhe Agora sei do que você está falando. O apocalipse zumbi chegou aqui também. Eles mordem, arranham, mas, olha!, eles não podem nos matar. Somos nós que não somos mais nem vivos, nem mortos, nem mortos-vivos. Sobrevivemos. Depois disso, nossa troca de e-mails teve um fim.

     E a Sonhadora. Na primeira vez que estive com ela foi como se ela abrisse um espaço para que eu me aconchegasse e me sentisse à vontade para existir. E sair com ela à noite era como enxergar todas as luzes que habitam a cidade de madrugada como estrelas. Era isso: ela trazia o infinito entre os cachos do seu cabelo. Mas não era que ela fosse idealista, sonhadora demais. Entendi com o tempo que para se alcançar o infinito da travessia ela precisava estar ciente de que tinha um limite, um teto, a tênue pele – isso o tempo todo ela apontava em nós mesmos, mas também em si enquanto era – simplesmente sendo. Só é possível trazer o sonho para a realidade quando aceitamos a existência do pesadelo, que já então não provoca mais medo, mas se torna parte de um sonho maior que nos habita, e de que fazemos parte.