segunda-feira, 17 de março de 2014

rascunho (II)


     Mas as flores não são vivas, nem mortas. Uma pétala abandonada ao vento não é menos viva que as de uma primavera, e muito menos seriam estas mais mortas do que um broto. Pois a pétala carrega em si a consciência de que foi, é e será – o quê? Poeira no vento que entra pela janela e se funde às coisas, que entra pelas narinas, do corpo e da cidade, cheiro de vida e morte. E se tudo se renova a cada fôlego, a cada palavra, sôfrego, eu tento, eu continuo tentando, sigo escrevendo, adiante, como o ônibus que daqui escuto avançando em solavancos pela cidade, ou como o primeiro abrir de olhos para mais um dia (dentro?) do corpo. Digo o primeiro abrir de olhos porque depois costumamos voltar a dormir, ainda que de olhos abertos, cada um em um recipiente que se julga bem lacrado, num espaço e tempo próprios, até que mais um solavanco nos desprenda dessa segunda pele que ousamos chamar de Eu. E assim abandonados ao vento, podemos então nos deparar com aquele homem cego mascando chiclete de que falava Clarice e sentir (não sem incômodo) a vida escorrendo numa abundância insuspeitada da sacola de ovos quebrados. O que eu quero dizer, clariceanamente, é que cada um tem uma barata a mastigar. E de qualquer forma, constato agora que tudo isso dá um belo de um omelete. Pois no frigir dos ovos, apesar dos solavancos, a verdade é que eles não se quebraram: eu os vejo diante de mim, no prato, aqui, em cima da mesa, decorada com aquelas mesmas flores, nem vivas nem mortas, enquanto tento mastigar.

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