segunda-feira, 17 de março de 2014

rascunho (III)


     Que bom que agora posso falar com você. Tá vendo aquela estrela, ali? Ali, bem do lado daquele prédio, o maior, no fundo. Poderia até ser um castelo. Sob esse céu... Não acha? Mas um castelo, aqui? É verdade, tem razão, tem toda a razão. Falemos então da estrela. Se ela chega até aqui, é porque brilha mais forte do que tudo isso aqui embaixo. Da sua janela sei que você vê também. Escolhi uma cujo ângulo fosse favorável para que você a visse comigo. Agora vai vir me falar de estrela no céu? Olha pra baixo. Pra-ba-i-xo. Pra baixo? Macabéa, agonizando no asfalto. Ai, lá vem, Clarice, de novo? A estrela piscando no céu, Macabéa, aiai. “Na prosa, há muita narrativa sobre narrativa, que refere livros e vidas dos autores célebres, as quais funcionam como piscadelas cúmplices para o leitor amigo capaz de identificar as referências.” Só quis dizer de um jeito que você entendesse, ué. Mas eu posso entender do seu jeito. Meu jeito? Sim, cadê a sua estrela? É aquela ali, ó. Não consegue ver daí? Não. Então ela pisca só pra mim. É minha estrela. Ninguém a vê como a eu vejo, aqui, da minha janela. Principalmente se considerado o preço que se paga por isso, e não falo só do valor absurdo do aluguel. Aposto que daí você também vê a sua, não? Não? Oi, tá me escutando? Foi dormir. Apagou a luz, acabei de ver. Uma pena. E agora começou a ventar. Acho que vai chover. Uma nuvem já tapou a lua, daqui a pouco nem estrela mais vai ter. Acho que vou dormir também, preciso levantar cedo... Melhor fechar a janela. Será que tem estrela no céu amanhã?

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