quinta-feira, 15 de maio de 2014


     Tão jovem, eu tão velho, um quadro desbotando na sua frente enquanto você fica aí, desperdiçando vida em abundância, mas fazer o quê, eu também o fiz, eu também desejei, eu também ainda desejo, sim, não se engane, ainda continuo vivo, ainda que você me tire da sua parede, pinte por cima da marca deixada atrás de mim e coloque um novo quadro, me jogue num sotão para acumular poeira, um dia – mais um dia – outro dia – um dia você se lembrará de mim, limpará a poeira de cima de mim, parecia tão bonito, coitado, tinha potencial – e assim se descobre vida no que já morreu. Não que eu esteja morto, veja bem. Pois sei que naquele prego – não, do que eu estou falando? O prego é novo agora, aquele já enferrujou. Mas naquele espaço o quadro agora é outro – e já desbota, como eu desbotei, antes de vir parar aqui. Mas, meu amigo, meu carrasco, meu desejo, eu te digo, pois sou a prova viva disso: ainda restam cores, palavras, tinta. Só vive quem já morreu.