sexta-feira, 1 de julho de 2016

Diário das flores

29.05.16

     Fico olhando essas flores que eu tenho aqui. Eram para você. Estão tão bonitas à luz do sol. Eu me viro para olhá-las e, quando volto a escrever, elas ainda ficam nos meus olhos. Acabei de fazer isso. Suas cores estão inchadas de calor e luz.  
     Mas alguém repara? É como se não existissem. As pessoas passam de cabeça baixa, castigadas pelo sol. Castigadas... Como essas flores, que você rejeitou. Por quê? Para que elas servem? Dou-as a mim mesmo em seu lugar? Essas fitas coloridas patéticas decorando o arranjo... Melhor assim. Sem adornos. Mas eu jamais daria flores a mim mesmo. Elas estão aqui por você. Então à minha morte? Eu não quero morrer. E que insolente seria se eu me fizesse acreditar que estou vivo! Esse sol, todo esse verde, esse céu azul – eles ririam de mim. Mas ainda tenho sede. Eu vou morrer, esmagado pelo peso das flores que você rejeitou.
     Flores. Tão extremas. Tão bonitas à luz do sol, balançando na brisa. Tão bonitas, tão estúpidas, elas suspiram na brisa. Tão em vão. É como se ninguém as visse. Se eu desse um fim nelas, eles não iriam reparar. E mesmo se soubessem, ficariam aliviados. Elas não servem para nada. Eu posso destruí-las, pétala por pétala. Vê-las sangrar pelo caule. Que gosto será que elas têm? Ou esmigalhá-las com os pés. Descalço. Com as mãos, bruto. Sentir suas vísceras escapando molhadas pelos vãos dos meus dedos. Lentamente... Assim.
     Sua morte é tão vã quanto sua vida. É isso: viva ou morta, uma flor é vã. E mesmo que elas não existam, mesmo destruídas, é como se eu sentisse seu gosto na boca, continuasse levando seus restos na sola dos meus pés. O parque logo vai fechar. Está esfriando, e ficando escuro aqui. Eu ainda vejo as flores.

30.05.16

     Faltei no trabalho hoje. Não consegui sair da cama. Agora que ele se foi, o que me resta? Gostaria de me lembrar quando tudo isso se tornou tão pesado em mim, a ponto de me sufocar. Mas ele de fato se foi? Por que, então, eu estou falando dele? Por que ele ainda está aqui? Sua ausência se desvela em presença: linhas a serem perseguidas, onde ainda farejo o seu cheiro, sigo suas pegadas, enxergo formas no escuro para as quais corro como se fossem você, que se foi. Eu velo meu desejo de que você, que se foi – que se foi, que se foi –, retorne, meu amante, meu marinheiro, meu salvador, my hero.
     Estou sentindo calor debaixo de tantas cobertas. Ainda assim, não quero tirá-las. A pressão delas sobre meu corpo me faz sentir vivo. Enterrado, mas vivo. E talvez essa sensação de estar se rasgando em fiapos por dentro – de decomposição – sejam os vermes que fazem carnaval sob minha carne. O silêncio pesa como terra sobre minha boca escancarada num grito que não sai. Talvez tenha sido por ela que eles tenham entrado, os vermes.
     Meu celular está vibrando. Entre tanta terra, é um milagre ele ainda estar funcionando. É ele? É você?, eu pergunto. Um verme que escapou do canto do meu olho agora escorre molhado pela página. Se eles ao menos parassem de se multiplicar, talvez isso acabasse logo. Você consegue me ouvir? Eu estou aqui.
     Era a C. São 22 h ainda. Onde você tá?, ela perguntou. Onde?, me pergunto, surpreso. Aqui, onde ele me enterrou. Mas respondi: Na cama. Ela perguntou sobre as flores. Flores? É, que você acabou de falar. Eu sinto cheiro de flores, respondi. Você tá bem? Fiquei preocupada. Eu não consigo sair de casa, eu... Não consigo. Ela então respondeu alguma coisa, eu respondi outra. Ela riu do outro lado da linha. Agora eu consigo ver as flores de novo, acrescentei. Negras, em decomposição. Flores no meu leito de morte, conclui. Mas eu já tinha desligado.


31.05.16

     Envio-lhe sinais. Contatos indiretos, em segundo, terceiro grau. Nunca em primeiro. São pequenas pulsações que eu envio em sua direção, ondas de energia, vibrações, quente, quente, eu me conservo, eu me esfrego, para não sentir frio. E de onde você estiver, escutará minha voz distante. Olharia na direção da sua janela aberta, que engraçado, diria, pensei ter sentido – e então de novo, mais forte. Duvidaria de seu olfato, dessa vez, debruçando-se no parapeito para ver se acaso haveria flores à sua porta. Mas era apenas uma lembrança trazida pelo vento. E então, ao fechar a janela e voltar-se para o quarto vazio, você vai se lembrar de mim. Daqui, envio-lhe por sobre mares a minha memória, tecendo palavras até alcançar a sua presença, ausência prolongada, tênue fio que não pode ser despedaçado. Não desejo sair da roca, mas você não vem – e as flores estão morrendo. O vento as arrasta pela porta que eu seguro aberta para que você entre.


01.06.16

     Saí para tomar um café com a C. Eu precisava conversar. Ela estava agitada, tinha acabado de voltar de uma manifestação. Disse que está sentindo a minha falta no trabalho. Quando eu disse a ela que amanhã iria, que já estava melhor, tomando antibióticos, vi um tique debaixo do seu olho, enquanto me fitava por cima da xícara, tomando um gole. Não me perguntou mais nada. Claro que ela percebeu alguma coisa. Mas eu não sabia como falar sobre as flores.
     Eu disse a ela que, pelo menos, nesses dias, andei escrevendo mais. Na verdade, eu tinha trazido algo comigo. Talvez não fosse o momento apropriado, mas pedi que ela lesse depois, sozinha. Deixei a folha impressa com o texto sobre a mesa, entre nós dois. Me ajuda a entender o que poderia ser isso, foi o que eu lhe disse. Talvez ela não gostasse, achasse romântico demais. Ela riu, gosta do meu romantismo. Mas ela disse que tem uma certa ferida na minha escrita que, me conhecendo, chamava a sua atenção. Eu respondi que tem um espaço vazio. Uma espera. Espera do quê? De algo, ou alguém. Mas estamos órfãos. E numa época em que devemos aprender a duvidar de heróis. Ocupa este espaço vazio, como se fosse uma folha de papel. Mas lembrei-lhe que uma folha em branco às vezes pode ser muito opressora.
     Ela me falou sobre um texto que leu na internet que dizia exatamente isso, uma transformação no modo de ser. Uma mudança de paradigmas. De uma cultura agressiva, utilitarista, patriarcal, para uma do cuidado e do acolhimento. Homens, principalmente, precisam aprender isso. Preciso lembrá-la de me enviar o link. Enquanto ela falava, notei atrás dela um casal que se beijava. Ele tinha acabado de comprar-lhe uma flor de um vendedor que passava na rua. A mão do homem a segurava pela cabeça com força, espremendo o rosto dela em seus lábios; quase rendida, ela mantinha uma das mãos repousando imóvel sobre o braço dele, evitando tocá-lo de fato, como a proteger a flor entre os dedos. Como aquele vendedor que sugeriu que você me desse aquela flor, só porque você é um homem, e eu, uma mulher, ouvi a C. dizendo. Por que eu não posso te dar uma flor também? Admiti que nunca recebi flores.
     Mas quais eram aquelas, do vendedor? Minha mãe saberia dizer. Ela era uma profunda conhecedora de flores. Cultivava um jardim cheio delas e outras plantas misteriosas nos fundos de casa. Muitas vezes fiquei doente e elas me curaram. Não puderam fazer o mesmo por ela. E depois da sua morte, as flores também morreram. 
     Minha mãe plantou um jardim porque se cansou de esperar flores do meu pai, eu contei à C. Ela riu, e nós dois concordamos que isso poderia ser a solução para muitos problemas. Pagamos a conta, e enquanto eu a esperava voltar do banheiro, já na calçada, de repente ouvi a voz do garçom atrás de mim, é sua? Por um momento, achei que a C. tivesse se esquecido da folha com meu texto, mas em sua mão o garçom me estendia a flor que a mulher do casal na mesa à frente esqueceu. Não é minha e, no entanto, enquanto escrevo, ela ainda continua aqui, a cada suspiro meu, como se suspirasse também.

02.06.16

     Escuto o barulho da chuva lá fora batendo com força contra o vidro da janela. Escrevo deitado. Não ouso me mover. Eu vivi aquele sonho. Meu corpo é uma redoma.
     Sonhei que você era um acrobata, e eu o encontrava fazendo acrobacias por toda a cidade. O céu se abria como uma clareira onde você estava, saltando entre os carros e tomando atalhos que seu corpo elástico tornava-lhe possíveis, entre as montanhas e seus picos de concreto. Quando gritei seu nome, você desceu rodopiando em minha direção e disse, a vida é um grande circo. Seguiram-se aplausos. Me diz o segredo, pedi. Eu vou morrer. O céu fechou, começou a chover, e eu vi o seu corpo se flexionar; desmontando-se em palavras, prefixava-se e sufixava-se como corpo-verbo que não podia ser revelado. E eu buscava a revelação. Mas num último salto, por trás de uma cadeia de prédios, você simplesmente desapareceu, radical.
     Não, eu não sou um acrobata. E de repente me vi sentado em minha cama, no meu quarto. Acendi um, dois, três, todo um maço de cigarros, para que a fumaça a sufocasse e ela morresse. Já que a morte é inevitável, eu pensei com ódio, eu posso matá-la agora. Mergulhei então as mãos em minhas entranhas, a princípio conseguindo fisgar apenas pedaços, pétalas aqui e ali, até que, por fim, imerso até os ombros, senti entre os dedos o caule e com toda a minha força a arranquei de uma só vez, revolvendo toda a terra. E sangrando e vazio, deitei-me para dormir.
     Quando acordei, abri os olhos devagar, sem me mover. Esperei, ouvindo a minha respiração hesitante. O sonho é tão real quanto a realidade. Friccionei devagar as extremidades do meu corpo... As pétalas farfalharam num suspiro. E quando respirei fundo, eu a senti dentro do meu peito, bem fundo, no fundo, respirando também. Levantei-me com violência, mas tive que me segurar na parede, pois meu caule se estirou como se a qualquer momento pudesse arrebentar. 
     Cruzei a cidade até o trabalho com a flor em mim. Tomei o cuidado, ao chegar, de subir pelas escadas para evitar encontrar alguém. Quando cheguei ao meu andar e sentei-me no meu canto na baia, a cabeça de C. saltou por trás da mureta da baia à frente. Ela estava feliz em me ver. Você não vai acreditar, comecei, mas senti minha voz morrendo. Eu sonhei que tinha uma flor, tentei contar, mas ela ameaçava subir pela garganta e desabrochar na minha boca. Um sonho? O ar me escapava. É, sonhei que tinha ganhado uma flor sua, menti. C. riu. Respirei aliviado. Aliás, ela tinha lido meu texto. Os olhos dela me desafiavam por sobre a mureta, onde se debruçava. A morte é transformação. Mas eu não podia responder.
     Meu chefe me chamou até sua sala hoje. Enquanto eu o esperava terminar no telefone, fiquei observando o longo corredor de outros edifícios que se abria na janela atrás dele. Numa queda vertiginosa do olhar, os pares se sucediam uns aos outros estreitando cada vez mais o corredor de concreto, afunilando o azul do céu entre suas paredes até tornarem-se um só numa fatia distante de horizonte cinzento, que, quando meu chefe desligou o telefone, virando-se para me olhar de frente, recebeu o encaixe perfeito de sua cabeça, emoldurada pelos prédios, abrindo a boca que sem caso me mastigou, engoliu e, agora, expeliu.
     Saí de lá sentindo-a crescer em mim, crescia contra o peito, e eu não consegui contar à C. que tinha sido demitido, eu precisava escapar. Uma pétala ameaçou se desprender quando saí no ar frio da rua, mas segurei-a rápido antes que alguém visse; tentei atravessar o labirinto de prédios seguindo até minha casa como se nada tivesse acontecido, e eu ainda como se o ainda ainda fosse, e as ruas não me dissessem adeus, e ela não estivesse morrendo, e eu ainda como se não tivesse sido expelido, e ele estivesse aqui, e eu ainda não estivesse doente da cidade, e minha mãe estivesse viva, e eu ainda não derramasse tantas pétalas dos olhos, e eu ainda como se um jardim, uma cura, eu ainda como se fosse, e já não sou.

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