quinta-feira, 12 de maio de 2016

Seu pai


Quando saímos do hospital, eu me agarrei à mão da minha mãe para não perdê-la no fluxo de pessoas em nossa direção.
“Vamos naquele restaurante, alguns quarteirões mais pra lá”, ela disse, vagamente.
Da sua bolsa aberta, eu via o cantinho do envelope com o resultado do exame pra fora. 
“Aquele restaurante, lembra? Que a gente costumava ir. Eu, você, o seu pai.”
“Mãe, e o exame?”, perguntei, segurando-a para que ela parasse.
Ela se virou assustada, quase flagrada.
“Que cara de enterro é essa, menino? Eu ainda estou viva”, disse, puxando-me para continuar, enquanto começávamos a bloquear o caminho de alguns. “Seu pai vai encontrar a gente lá.”
“Por quê?”
Eu não falava com ele há anos.
“Mãe, o que é?”
“Por que você foi vir de vermelho?”
Só então eu reparei nos olhares das pessoas para mim. A verdade era que eu nem tinha pensado na cor da minha roupa quando saí de casa. Agora, eu tinha me tornado um borrão vermelho no asfalto, diluído pela correnteza verde-e-amarela.
“Você não vai me dizer antes?”
Mas o barulho à nossa volta era maior. E, por mais que eu me agarrasse à sua mão, eu nada poderia fazer se ela me soltasse, perdido em outro tipo de correnteza que corria entre nós dois e que, muitas vezes, na falta de um nome mais abrangente, eu simplesmente chamava de pai.

Apesar dos anos, para ela o restaurante não tinha mudado nada. Olhava para os lugares se lembrando de cenas como se estivessem acontecendo naquele mesmo momento, onde agora se encontrava o balcão ou um vaso de flores. Suas palavras saíam como tapas no ar para espantar um sentido que pairava sobre nós na tentativa de pouso.
“Mudou, sim. Não tinha esse espaço aqui do lado de fora, nem essas mesas de madeira”, eu respondi, quase indignado.
“Você sabe como eu sou pra lembrar das coisas”, ela disse, sorrindo como a se desculpar. “Seu pai já vai chegar.”
Ela preferia não ter que repetir a notícia, ela tinha dito. Mexia ainda o café, já frio, com os olhos na rua atrás de mim. Eu via pelo reflexo no vidro que nos separava da parte interna do restaurante, à minha frente, as pessoas passando, fantasmas de um mundo que já não existia e, ainda assim, lá estavam elas, em marcha.
“Eu não sabia que tinha protesto hoje”, ela comentou.
Minha mãe desconfiava muito de política; tinha seu próprio posicionamento. Continuou em silêncio, olhando a rua. Esperando o meu pai. Esperando todo esse tempo o meu pai.[*]
De onde estávamos, podíamos ouvir distante a música do restaurante, abafada pelo barulho de fora. Era preciso certo esforço para se concentrar nos sons. Eu não conseguia distinguir direito os instrumentos. Era como uma pequena orquestra tentando se formar ao fundo de tudo aquilo.
Meu pai tocava violino, quando eu era criança. Eu me lembro de suas mãos rudes segurando o arco com delicadeza, e isso me provocava admiração e amor. Eu nunca o tinha visto com um arranhão ou uma corda estourada sequer. Então uma noite, de madrugada, eu levantei assustado com o barulho vindo da sala. Primeiro pensei que ainda era um pesadelo. Era como se unhas afiadas arranhassem por dentro as paredes da casa. Do fim do corredor, eu vi meu pai de pé no meio da sala, com o violino encostado ao rosto. Mesmo no escuro, eu podia ver a sombra do movimento dos braços tocando como se quisessem destruir o instrumento. Voltei rápido para meu quarto, com medo de que ele me visse. Lembro que no caminho vi a luz acesa sob a fresta da porta do quarto dos meus pais, e pensei ter ouvido minha mãe chorar. Meu pai nunca mais tocou de novo. Um dia, não me causou surpresa encontrar o violino quebrado nos fundos do quintal, as cordas rompidas.
“Deve ter se esquecido”, eu disse.
“É o trânsito pra chegar aqui. Se eu soubesse– você vai fumar isso mesmo?”
Eu tinha tirado um cigarro do maço no bolso, num gesto automático. Tinha me esquecido de que ela não gostava que eu fumasse. Guardei-o de volta.
“Não precisa ficar ansioso, filho. Vai ficar tudo bem”, e tentou sorrir. “Seu pai me ligou quando eu fui ao banheiro. Ele disse que chegava em uma hora.”
Embora fosse dia claro, tudo se tornou escuro e sombrio com o passar de uma nuvem, e no silêncio que se seguiu a música chegou-nos clara. Trocamos um breve olhar. E minha mãe me pareceu tão cansada e incerta, de tanto esperar, ao baixar os olhos e, levando a xícara aos lábios, hesitar piscando as pálpebras pesadas, de tanto esperar, antes de mal dar um gole e depositá-la novamente na mesa. E pelo reflexo no vidro, eu me vi: um fantasma de águas escuras, no fundo – com medo de que ele me visse – esperando também.
“Essa música...”
E o sol brilhou, uma buzina soprou, e meu pai apareceu atrás de mim, apagando o cigarro na calçada.




[*] Eu me lembro de que, a algumas mesas de distância, havia um homem, já de idade, muito bem engomado dizendo que, se tudo desse certo, como haveria de dar, dizia se gabando de sua certeza, seria subprefeito do bairro. Discursava para a sua e mais algumas mesas ao redor, alto, agora sobre a insignificância de países como a Venezuela, e então perguntou para uma senhora que o ouvia se ela não gostaria de tirar uma foto com ele. Segurando o cartaz que ele lhe entregava, ela aceitou, lisonjeada. Depois passou em todas as mesas oferecendo o seu cartão. Minha mãe o segurou distraída nas mãos, e eu quase protestei. Ele sorriu quando eu não o aceitei. Apenas um casal não o tinha aceitado também, e troquei com eles um breve olhar cúmplice. Mas a sensação de absurdo diante das coisas, daqueles dias, continuaria. E as incertezas apenas cresceriam. Ao passarem por nossa mesa quando saíram do restaurante, com um sorriso, a mulher do casal me disse em voz baixa: “Força!”.

Óculos velhos


Ela levantou-se brusca ao meu lado.
“Preciso ir”, disse.
Notei que, quando baixou a cabeça para guardar seu caderno na bolsa, com um movimento rápido impediu que seus óculos despencassem da ponta do nariz.
“Preciso ir”, repetiu, apressada.
“Mas o que aconteceu?”, perguntou a professora.
Ela se virou, e a ponte entre os aros dos óculos equilibrou-se perigosamente. Antes que se explicasse, cravou o dedo para encaixá-los rente ao rosto:
“Eu não sei direito, professora, mas tô com uma sensação de que algo grave”, os óculos deslizavam pela oleosidade da pele, “aconteceu em casa”, ela fez uma pausa, ajeitando-os com as duas mãos, impaciente. “Preciso ir.”
“Mas com esses óculos?”, perguntei.
Ela se virou assustada, e vimos os óculos dispararem e quebrarem no chão. Mas ela apenas sorriu, deixando-os, ao sair.