terça-feira, 26 de julho de 2016

Lançamento do livro O cego e outros contos

No dia 30.07, acontecerá o lançamento do meu primeiro livro de contos. Divulgo aqui o convite do evento, a quem se interessar, seguido do prefácio e trechos de contos que compõem o livro.




Cada vez mais, contesta-se a legitimidade de uma sociedade prioritariamente calcada em um projeto que é ocidental, branco, cristão e heterossexual. Novos modelos de relacionamento, outras formas de convivência com o próprio corpo e com os demais, o conhecimento e reconhecimento de alteridades diversas, que fogem ao senso comum, são a tônica de um momento histórico cada vez mais globalizado e interligado pelas redes sociais, disseminadoras de conteúdos que trafegam em uma velocidade e com uma liberdade cada vez maior. Mas essas transformações também provocam fissuras, indivíduos que, embora percebam cada vez mais as mudanças e queiram inserir-se nelas, não conseguem, por ainda se encontrarem presos a padrões antigos, preconceitos, medos e culpas. Os contos de Thiago Dias aqui publicados permitem que nos debrucemos sobre esses sujeitos problemáticos de forma tortuosa e violenta.
O autor não deixa dúvidas quanto à temática de preferência: são histórias em que o homoerotismo dá o tom, nas quais não há pudor em relatar as experiências sexuais, em deixar bem visível o “pau duro” do personagem sob a calça, o tesão de um “inofensivo” velho que apenas observa a beleza juvenil, o cu que abre e fecha de prazer. Mas também são contos em que se conjuga, de modo às vezes cruel, a violência com que esse prazer se manifesta nos indivíduos que o sentem e com os quais tem contato: é o perigoso cacto espinhoso comparado a um pênis ereto, a camisinha estourada com restos cristalizados de sêmen, a mancha de sangue no lençol após o ato sexual.
E é uma violência que se manifesta justamente por conta de uma sensação de não pertencimento de um indivíduo formatado pelos preconceitos vigentes que ditam o que seria o “padrão” de nossa sociedade em relação aos novos grupos que se impõem em relação o status quo, em particular contra um projeto de heteronormatividade que pauta o comportamento social e sexual masculino. Isso fica bastante evidente em um conto como “Orlando”, em que o narrador acompanha a transformação do amigo, quase como um voyeur que, ao mesmo tempo, regozija-se e culpa-se com a violência sofrida por ele durante o processo. O amigo apanha porque se veste e rebola como mulher, não faz jus as calças que veste, como o narrador que, encarnando o tipo “gay enrustido”, sente falta das “punhetas” que batia com o colega durante a adolescência e, já na faculdade e fora do lar de seus pais, mantém uma relação homossexual às escondidas.
Trata-se de um comportamento heteronormativo similar ao do narrador de “Ménage à trois”, no qual se evidencia a busca pelo prazer desconectado de qualquer tipo de afetividade com indivíduos do mesmo sexo, desde que não se perca a condição de “macho alfa”, que obviamente prefere a posição de ativo, vangloria-se do próprio pau e relata ao amigo, de modo muitas vezes grotesco, entre uma cerveja e outra, as suas experiências na cama.
A dor gerada por esses encontros prazerosos e violentos, no entanto, também funcionam como momentos de descoberta. É a sensação de bliss que, para o narrador, aponta para a possibilidade de negação dos padrões estabelecidos e, finalmente, a aceitação da sexualidade por parte do indivíduo. O excesso de luz que faz o narrador do primeiro conto dessa coletânea imaginar que ficaria cego ou as nesgas de luminosidade que o personagem de “O espinho” tenta inutilmente agarrar, e que apontam para o borrão de sangue no lençol, funcionam como elementos, quase religiosos, de reconhecimento e de aceitação, como visões místicas que direcionam a uma possibilidade de libertação do sujeito problemático.
Mas é em “Parada” que o vislumbre dessa libertação parece mostrar-se mais próximo. Nessa narrativa, a própria linguagem esforça-se em “sair do armário” e a escrita tenta aproximar-se de uma semântica que insira o sujeito no grupo a que tanto ele almeja pertencer. É o “boy” que dá a Elza na “bicha burra”, que veio para a parada com a carteira cheia de dinheiro, a drag que “ahaza” sobre o trio elétrico, “a gay” que enlouquece com a “neca mara” do bofe com quem transou em plena rua. Aqui, o autor coloca de lado recursos narrativos tradicionais, mas condizentes com os perturbados meandros psicológicos dos narradores anteriores, para mergulhar em uma sintaxe e um léxico próprios, que favoreça o processo de identificação do indivíduo em relação ao grupo. Como o movimento da própria parada, a perspectiva dá-nos a sensação de que desfila junto à massa, recaindo sobre tipos, perscrutando seus pensamentos, evidenciando a diferença. 
Nesse momento, Thiago Dias mostra que linguagem e ideologia não podem atuar separadamente. É o dêitico, o apontar na direção do outro, o modo de nos afastarmos ou nos aproximarmos da alteridade ou de nós mesmos. A travesti ou transsexual é “ela”, não “ele”.  Ou também vestimos a luva do outro, que nos cabe muito bem, ou nos tornamos um indivíduo em constante e dolorosa luta interior, como o do conto “Um velho obsceno”, uma narrativa extremamente cruel e incômoda, que já parece ter nascido como clássico instantâneo.

Marcos Lemos Ferreira dos Santos
Mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada (USP)

O cego
As notas caíam lentas como gotas de chuva sobre nossas cabeças, eu e o homem cego ao meu lado, enquanto observávamos do lado de fora o pianista tocar no restaurante, sem nos importarmos se ficaríamos molhados. De qualquer forma, era a sensação que eu então estava sentindo, e me lembro bem de que, quando olhei para o céu e percebi que ele era de um profundo azul no final daquela tarde, tive vontade de me sentar na beira da calçada e chorar com ele ao meu lado.
“Fecha os olhos”, ele disse de repente.
E eu imediatamente fechei.
“Sabe quando você fecha os olhos pra ouvir alguma música já conhecida e de repente você percebe vários detalhes que até chega a pensar que não conhecia de verdade?”, ele perguntou, mas eu agora estava atento à voz suave e poderosa que parecia vir de algum lugar muito profundo e distante, que eu não podia alcançar.
Continuamos caminhando pela rua, a mesma rua por que eu passava todos os dias, com seus prédios, letreiros brilhantes e coloridos piscando incansavelmente por toda a noite, anúncios como “Amarração para o amor” nos postes, outdoors anunciando mais um fenômeno para fazer os outros suspirarem como a mulher do metrô. E olhei para ele, a pele morena dourada sob as luzes que lentamente se acendiam nos postes da rua, sereno e alheio a tudo aquilo ao seu redor, atento apenas aos muitos – infinitos, na verdade – tons e verdades por trás de todas as aparências. E quando ele parou diante da entrada de um prédio, indicando que era ali que ele morava, mal terminou de formular se eu não gostaria de– lembro que me enganchei em um braço seu para que me levasse com ele, pois eu desejava que me visse.

Parada
Como dois maestros em cima do trio que regia toda a parada, ela via a si mesma e o GogoBoy ao seu lado, o néctar escorrendo do corpo dele, trazendo a promessa da imortalidade para quem o provasse – Ganimedes raptado pelos deuses para o Olimpo. Pois ela mesma era a própria deusa Afrodite, aqui, em cima do trio, guardiã daqueles sob a bandeira que se estendia pela avenida, sedentos para experimentar a carne do banquete (ela não viu quando a carteira passou rápida por trás da sua cabeça). Ou talvez, imensa e colorida, os cabelos azuis revoltos e a boca enorme, fosse como um dragão a soltar fogo. Pois assim mítica, lendária, estava além de qualquer classificação de gênero ou espécie – criatura do exagero e das cores. É tanto poder e exuberância que fascinam. 
Balançou os cabelos azuis ao som que vinha do carro, desfilando imponente. Ventava forte; mas ela estava ali, não estava? Ainda que nem todos a observassem, apesar de estar no centro, ela fazia a sua performance exatamente para isso, sentiu, enquanto levantava os braços regendo a música que vinha do trio – embora não estivesse tão certa quanto ao que isso era. Talvez tenha gritado, agora, sua voz reverberando da caixa de som – pois era a sua voz – e num rompante debruçou-se sobre as barras ao redor do carro, enquanto percorria com o olhar à distância o arco-íris que parecia irradiar de si mesma ondulando ao vento... E não viu – um homem alto, ele era bonito, olhava-a sorrindo com um cigarro queimando pendendo do canto dos lábios – seus cabelos alçarem voo...

O espinho
Mas sabe aquela sensação de que tem alguma coisa dentro de você, que todo mundo vê, sabe muito bem o que é, mas só você não sabe? Na verdade, acho que ninguém via nada. Pelo menos, não mais do que eu. Foi uma fase muito difícil... Era como olhar no espelho e enxergar seus lábios se separando, a boca se abrindo sozinha, e você não entendia, e se afastava assustado... Como se as palavras estivessem sempre na iminência de se formar e, se eu falasse, seria tarde demais. Não haveria retorno. E eu nem sabia que palavras eram essas! E até hoje não sei. Por isso, acho que na verdade elas simplesmente não existem. O mais próximo que alguém pode chegar perto delas é dizendo Eu sou, e só. Mas dizer isso, olhando o próprio reflexo no espelho, pele, olhos e cabelo – é redundante demais. E a gente acaba com ainda mais dúvidas. Acho que todo mundo vive passando por isso na vida. Só falei de “armário”, “modelos”, porque, apesar de tudo, eu ainda sou gay.
Desculpa, você tinha me perguntado como foi minha primeira vez, né?
Eu tinha resolvido sair sozinho naquele dia. Foi algo bem impulsivo... Eu sempre saía com meus amigos, odiava sair sozinho. Não me sentia bem, sei lá. Mas todos eles eram héteros, e acho até que não sabiam que eu era gay, mesmo sempre me provocando com algumas piadinhas. Eu era aquele cara, daquele comercial argentino de cerveja, acho, sabe? E eu fingia levar tudo na brincadeira, mesmo já sentindo um pé no outro lado, também. Bom, naquele dia eu resolvi dar o outro passo. Pôr finalmente meus dois pés no lugar que era meu. 

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Diário das flores

29.05.16

     Fico olhando essas flores que eu tenho aqui. Eram para você. Estão tão bonitas à luz do sol. Eu me viro para olhá-las e, quando volto a escrever, elas ainda ficam nos meus olhos. Acabei de fazer isso. Suas cores estão inchadas de calor e luz.  
     Mas alguém repara? É como se não existissem. As pessoas passam de cabeça baixa, castigadas pelo sol. Castigadas... Como essas flores, que você rejeitou. Por quê? Para que elas servem? Dou-as a mim mesmo em seu lugar? Essas fitas coloridas patéticas decorando o arranjo... Melhor assim. Sem adornos. Mas eu jamais daria flores a mim mesmo. Elas estão aqui por você. Então à minha morte? Eu não quero morrer. E que insolente seria se eu me fizesse acreditar que estou vivo! Esse sol, todo esse verde, esse céu azul – eles ririam de mim. Mas ainda tenho sede. Eu vou morrer, esmagado pelo peso das flores que você rejeitou.
     Flores. Tão extremas. Tão bonitas à luz do sol, balançando na brisa. Tão bonitas, tão estúpidas, elas suspiram na brisa. Tão em vão. É como se ninguém as visse. Se eu desse um fim nelas, eles não iriam reparar. E mesmo se soubessem, ficariam aliviados. Elas não servem para nada. Eu posso destruí-las, pétala por pétala. Vê-las sangrar pelo caule. Que gosto será que elas têm? Ou esmigalhá-las com os pés. Descalço. Com as mãos, bruto. Sentir suas vísceras escapando molhadas pelos vãos dos meus dedos. Lentamente... Assim.
     Sua morte é tão vã quanto sua vida. É isso: viva ou morta, uma flor é vã. E mesmo que elas não existam, mesmo destruídas, é como se eu sentisse seu gosto na boca, continuasse levando seus restos na sola dos meus pés. O parque logo vai fechar. Está esfriando, e ficando escuro aqui. Eu ainda vejo as flores.

30.05.16

     Faltei no trabalho hoje. Não consegui sair da cama. Agora que ele se foi, o que me resta? Gostaria de me lembrar quando tudo isso se tornou tão pesado em mim, a ponto de me sufocar. Mas ele de fato se foi? Por que, então, eu estou falando dele? Por que ele ainda está aqui? Sua ausência se desvela em presença: linhas a serem perseguidas, onde ainda farejo o seu cheiro, sigo suas pegadas, enxergo formas no escuro para as quais corro como se fossem você, que se foi. Eu velo meu desejo de que você, que se foi – que se foi, que se foi –, retorne, meu amante, meu marinheiro, meu salvador, my hero.
     Estou sentindo calor debaixo de tantas cobertas. Ainda assim, não quero tirá-las. A pressão delas sobre meu corpo me faz sentir vivo. Enterrado, mas vivo. E talvez essa sensação de estar se rasgando em fiapos por dentro – de decomposição – sejam os vermes que fazem carnaval sob minha carne. O silêncio pesa como terra sobre minha boca escancarada num grito que não sai. Talvez tenha sido por ela que eles tenham entrado, os vermes.
     Meu celular está vibrando. Entre tanta terra, é um milagre ele ainda estar funcionando. É ele? É você?, eu pergunto. Um verme que escapou do canto do meu olho agora escorre molhado pela página. Se eles ao menos parassem de se multiplicar, talvez isso acabasse logo. Você consegue me ouvir? Eu estou aqui.
     Era a C. São 22 h ainda. Onde você tá?, ela perguntou. Onde?, me pergunto, surpreso. Aqui, onde ele me enterrou. Mas respondi: Na cama. Ela perguntou sobre as flores. Flores? É, que você acabou de falar. Eu sinto cheiro de flores, respondi. Você tá bem? Fiquei preocupada. Eu não consigo sair de casa, eu... Não consigo. Ela então respondeu alguma coisa, eu respondi outra. Ela riu do outro lado da linha. Agora eu consigo ver as flores de novo, acrescentei. Negras, em decomposição. Flores no meu leito de morte, conclui. Mas eu já tinha desligado.


31.05.16

     Envio-lhe sinais. Contatos indiretos, em segundo, terceiro grau. Nunca em primeiro. São pequenas pulsações que eu envio em sua direção, ondas de energia, vibrações, quente, quente, eu me conservo, eu me esfrego, para não sentir frio. E de onde você estiver, escutará minha voz distante. Olharia na direção da sua janela aberta, que engraçado, diria, pensei ter sentido – e então de novo, mais forte. Duvidaria de seu olfato, dessa vez, debruçando-se no parapeito para ver se acaso haveria flores à sua porta. Mas era apenas uma lembrança trazida pelo vento. E então, ao fechar a janela e voltar-se para o quarto vazio, você vai se lembrar de mim. Daqui, envio-lhe por sobre mares a minha memória, tecendo palavras até alcançar a sua presença, ausência prolongada, tênue fio que não pode ser despedaçado. Não desejo sair da roca, mas você não vem – e as flores estão morrendo. O vento as arrasta pela porta que eu seguro aberta para que você entre.


01.06.16

     Saí para tomar um café com a C. Eu precisava conversar. Ela estava agitada, tinha acabado de voltar de uma manifestação. Disse que está sentindo a minha falta no trabalho. Quando eu disse a ela que amanhã iria, que já estava melhor, tomando antibióticos, vi um tique debaixo do seu olho, enquanto me fitava por cima da xícara, tomando um gole. Não me perguntou mais nada. Claro que ela percebeu alguma coisa. Mas eu não sabia como falar sobre as flores.
     Eu disse a ela que, pelo menos, nesses dias, andei escrevendo mais. Na verdade, eu tinha trazido algo comigo. Talvez não fosse o momento apropriado, mas pedi que ela lesse depois, sozinha. Deixei a folha impressa com o texto sobre a mesa, entre nós dois. Me ajuda a entender o que poderia ser isso, foi o que eu lhe disse. Talvez ela não gostasse, achasse romântico demais. Ela riu, gosta do meu romantismo. Mas ela disse que tem uma certa ferida na minha escrita que, me conhecendo, chamava a sua atenção. Eu respondi que tem um espaço vazio. Uma espera. Espera do quê? De algo, ou alguém. Mas estamos órfãos. E numa época em que devemos aprender a duvidar de heróis. Ocupa este espaço vazio, como se fosse uma folha de papel. Mas lembrei-lhe que uma folha em branco às vezes pode ser muito opressora.
     Ela me falou sobre um texto que leu na internet que dizia exatamente isso, uma transformação no modo de ser. Uma mudança de paradigmas. De uma cultura agressiva, utilitarista, patriarcal, para uma do cuidado e do acolhimento. Homens, principalmente, precisam aprender isso. Preciso lembrá-la de me enviar o link. Enquanto ela falava, notei atrás dela um casal que se beijava. Ele tinha acabado de comprar-lhe uma flor de um vendedor que passava na rua. A mão do homem a segurava pela cabeça com força, espremendo o rosto dela em seus lábios; quase rendida, ela mantinha uma das mãos repousando imóvel sobre o braço dele, evitando tocá-lo de fato, como a proteger a flor entre os dedos. Como aquele vendedor que sugeriu que você me desse aquela flor, só porque você é um homem, e eu, uma mulher, ouvi a C. dizendo. Por que eu não posso te dar uma flor também? Admiti que nunca recebi flores.
     Mas quais eram aquelas, do vendedor? Minha mãe saberia dizer. Ela era uma profunda conhecedora de flores. Cultivava um jardim cheio delas e outras plantas misteriosas nos fundos de casa. Muitas vezes fiquei doente e elas me curaram. Não puderam fazer o mesmo por ela. E depois da sua morte, as flores também morreram. 
     Minha mãe plantou um jardim porque se cansou de esperar flores do meu pai, eu contei à C. Ela riu, e nós dois concordamos que isso poderia ser a solução para muitos problemas. Pagamos a conta, e enquanto eu a esperava voltar do banheiro, já na calçada, de repente ouvi a voz do garçom atrás de mim, é sua? Por um momento, achei que a C. tivesse se esquecido da folha com meu texto, mas em sua mão o garçom me estendia a flor que a mulher do casal na mesa à frente esqueceu. Não é minha e, no entanto, enquanto escrevo, ela ainda continua aqui, a cada suspiro meu, como se suspirasse também.

02.06.16

     Escuto o barulho da chuva lá fora batendo com força contra o vidro da janela. Escrevo deitado. Não ouso me mover. Eu vivi aquele sonho. Meu corpo é uma redoma.
     Sonhei que você era um acrobata, e eu o encontrava fazendo acrobacias por toda a cidade. O céu se abria como uma clareira onde você estava, saltando entre os carros e tomando atalhos que seu corpo elástico tornava-lhe possíveis, entre as montanhas e seus picos de concreto. Quando gritei seu nome, você desceu rodopiando em minha direção e disse, a vida é um grande circo. Seguiram-se aplausos. Me diz o segredo, pedi. Eu vou morrer. O céu fechou, começou a chover, e eu vi o seu corpo se flexionar; desmontando-se em palavras, prefixava-se e sufixava-se como corpo-verbo que não podia ser revelado. E eu buscava a revelação. Mas num último salto, por trás de uma cadeia de prédios, você simplesmente desapareceu, radical.
     Não, eu não sou um acrobata. E de repente me vi sentado em minha cama, no meu quarto. Acendi um, dois, três, todo um maço de cigarros, para que a fumaça a sufocasse e ela morresse. Já que a morte é inevitável, eu pensei com ódio, eu posso matá-la agora. Mergulhei então as mãos em minhas entranhas, a princípio conseguindo fisgar apenas pedaços, pétalas aqui e ali, até que, por fim, imerso até os ombros, senti entre os dedos o caule e com toda a minha força a arranquei de uma só vez, revolvendo toda a terra. E sangrando e vazio, deitei-me para dormir.
     Quando acordei, abri os olhos devagar, sem me mover. Esperei, ouvindo a minha respiração hesitante. O sonho é tão real quanto a realidade. Friccionei devagar as extremidades do meu corpo... As pétalas farfalharam num suspiro. E quando respirei fundo, eu a senti dentro do meu peito, bem fundo, no fundo, respirando também. Levantei-me com violência, mas tive que me segurar na parede, pois meu caule se estirou como se a qualquer momento pudesse arrebentar. 
     Cruzei a cidade até o trabalho com a flor em mim. Tomei o cuidado, ao chegar, de subir pelas escadas para evitar encontrar alguém. Quando cheguei ao meu andar e sentei-me no meu canto na baia, a cabeça de C. saltou por trás da mureta da baia à frente. Ela estava feliz em me ver. Você não vai acreditar, comecei, mas senti minha voz morrendo. Eu sonhei que tinha uma flor, tentei contar, mas ela ameaçava subir pela garganta e desabrochar na minha boca. Um sonho? O ar me escapava. É, sonhei que tinha ganhado uma flor sua, menti. C. riu. Respirei aliviado. Aliás, ela tinha lido meu texto. Os olhos dela me desafiavam por sobre a mureta, onde se debruçava. A morte é transformação. Mas eu não podia responder.
     Meu chefe me chamou até sua sala hoje. Enquanto eu o esperava terminar no telefone, fiquei observando o longo corredor de outros edifícios que se abria na janela atrás dele. Numa queda vertiginosa do olhar, os pares se sucediam uns aos outros estreitando cada vez mais o corredor de concreto, afunilando o azul do céu entre suas paredes até tornarem-se um só numa fatia distante de horizonte cinzento, que, quando meu chefe desligou o telefone, virando-se para me olhar de frente, recebeu o encaixe perfeito de sua cabeça, emoldurada pelos prédios, abrindo a boca que sem caso me mastigou, engoliu e, agora, expeliu.
     Saí de lá sentindo-a crescer em mim, crescia contra o peito, e eu não consegui contar à C. que tinha sido demitido, eu precisava escapar. Uma pétala ameaçou se desprender quando saí no ar frio da rua, mas segurei-a rápido antes que alguém visse; tentei atravessar o labirinto de prédios seguindo até minha casa como se nada tivesse acontecido, e eu ainda como se o ainda ainda fosse, e as ruas não me dissessem adeus, e ela não estivesse morrendo, e eu ainda como se não tivesse sido expelido, e ele estivesse aqui, e eu ainda não estivesse doente da cidade, e minha mãe estivesse viva, e eu ainda não derramasse tantas pétalas dos olhos, e eu ainda como se um jardim, uma cura, eu ainda como se fosse, e já não sou.